T R A D U T O R

10 de out. de 2026

ONDE A NORMA CULTA NÃO DITA REGRAS

 

        Durante uma visita à minha casa, uma amiga me perguntou se a sua presença me incomodava. Questionou isso por causa da "cara amarrada" que eu ostentava — segundo ela. Gente, alguém já passou por uma situação parecida, de se descobrir emburrada sem sequer notar a expressão que fazemos quando estamos assim, chateadas? Eu, pelo menos, senti-me como um bicho desconhecido, sei lá, talvez um monstro, só de imaginar o meu semblante na hora daquela indagação. E tudo por conta de uma bobagem. Vejam só: com aquele visual eu estava, sem perceber, desperdiçando minutos preciosos da minha vida por causa de um comentário imbecil deixado no meu blog.
     Não devia, mas vou responder. Não sem antes lembrar que o que faço no meu blog, fora da escola e após as minhas obrigações, é a forma que elegi para descansar. "Descansar carregando pedra", como diz minha avó. E, se elas são minhas, eu as jogo onde bem entender — ou seja, sem qualquer compromisso com a norma culta. Escrevo como quem descarrega britas no próprio quintal. Contudo, como o "Prof. Dr." ou a "Prof.ª Dra." (para não dar moral ao infeliz) fez questão de enfatizar, o que eu chamo de descontração, o indivíduo confunde com sala de aula. "Sua escrita não tem ritmo próprio!", sentenciou.
     Pois saiba, meu caro ou minha cara doutor(a), que jamais deixarei de brincar com as palavras por sua causa. Afinal, o meu propósito aqui não é o mesmo que o seu. Aliás, tempo é o que não me falta para escolher, entre tantos caminhos — inclusive o seu —, a melhor forma de escrever igual ou, quem sabe, muito melhor que VOCÊ.
     Quero deixar claro, evidente e sob a luz dos refletores da razão, que não sou cotista, não sou filha de alguém influente e não ganhei bolsa em troca de favores. O que sou é uma simples estudante. Daquelas que dormem sobre os cadernos e gastam sola de sapato, tempo e suor em busca do futuro que determinei para mim. Não importa se tirei nota mil na redação, se acertei 99% das questões ou apenas o suficiente para o Enem me aprovar. O que importa, de verdade, é ser a garota que, aos 14 anos e cursando o primeiro ano do ensino médio, conseguiu alcançar a meta que tracei.
     Obviamente, não disse nada disso para a minha amiga. O que fiz, na realidade, foi correr ao banheiro para ver no espelho o rosto que o (a) infeliz tinha deixado em mim.

5 de out. de 2026

ENSINA-ME A OLHAR!

 

       Eu ainda era muito pequena e morava com meus pais na casa dos meus avós. Aconchegada no colo do meu vô, logo após o café, eu me perdia em suas palavras. Ele sabia como acalmar meu coração de criança sapeca. Com paciência infinita, ele gravava ensinamentos na minha alma contando histórias, e uma delas nunca mais saiu dos meus pensamentos.
     Olhando nos meus olhos, ele me disse:
     —Rô, quando eu era jovem me chamaram para um teste muito curioso. Eu, por achar que já sabia de tudo, aceitei o desafio.
      Ele sorriu e continuou:
    — Minha missão era contar o número de passes que um time de basquete dava durante um jogo. Me sentaram diante de uma grande televisão. Concentrado, contei cada movimento perfeitamente.
     O vovô fez uma pausa carinhosa:
   — Quando o vídeo terminou, o avaliador entrou na sala e perguntou: "E o urso?".
     Eu, confuso, respondi: "Que urso?".
     Ele acariciou meus cabelos.
     — Rô, um urso de pelúcia havia cruzado a quadra bem no meio do jogo. Eu, focado nas bolas, simplesmente não vi. Quase ninguém vê.
      Sua voz ficou ainda mais terna:
      — Isso se chama Atenção Seletiva, minha querida. Isso prova que nós não enxergamos o mundo como ele é. Nós enxergamos apenas aquilo para onde apontamos o nosso olhar.
      Ele segurou minhas pequenas mãos:
      — Quem controla a sua atenção, no fim das contas, escolhe qual mundo vai existir para você. Achamos que vemos a realidade toda, mas vemos apenas um recorte. E o pior: nem sempre somos nós que escolhemos esse enquadramento.
     Você gostou da história, minha boneca?
     Minha resposta foi um abraço apertado e um sim bem ruidoso. Ele me apertou de volta no peito e disse bem baixinho no meu ouvido:
     — Então nunca se esqueça disso, minha linda menininha... Olhe sempre para o que é bom, cuide do seu coração e escolha você mesma para onde olhar. O vovô ama muito você.
     Ganhei um beijo terno na testa. E, naquele lar que era o coração da nossa família, ganhei a certeza mais bonita da infância: a de ter assistido à lição mais importante da minha vida, em uma aula sem quadro, sem giz e grifada apenas com o amor do meu avô.


1 de out. de 2026

O VOTO SEM ILUSÃO

 

     Eu venho de uma família humilde e sei, exatamente, o valor de cada centavo. Isso significa que meu foco principal não é a ideologia do partido A ou B, mas sim o preço do arroz e o valor da passagem do ônibus.
    Confesso que não gosto de política; acho o assunto mais chato do que fila de banco em dia de pagamento. Não tenho político de estimação e meu coração não bate por nenhuma bandeira partidária. O único partido pelo qual eu torço, de verdade, é aquele que se compromete a cuidar da nossa nação e, principalmente, da classe trabalhadora. Afinal, a minha realidade não é definida por discursos bonitos na televisão, mas pelo suor dos meus pais e pela nossa luta diária.
    Queria que eles soubessem que o meu voto não é paixão de torcida organizada — é uma decisão de negócios! Por isso, quero governantes que entendam que o Brasil, na real, precisa de saúde, educação de qualidade e emprego, e não de brigas infantis na internet. Agora, olhar para a política sendo pobre, como somos, nos dá uma visão muito clara das coisas: não dá para comer promessas, nem pagar os boletos do mês com falsas esperanças.
    Por isso, mesmo não gostando do assunto, eu entendo a sua importância e vou votar; mas com a cabeça fria e o bolso bem consciente. Espero que entendam de uma vez por todas que o meu partido é o meu País e, também, a minha classe social. Se o candidato for capaz de trabalhar por nós de verdade, ele terá o meu respeito. Caso contrário, continuará sendo apenas mais um rosto no panfleto que eu vou usar para me abanar no ponto de ônibus.


26 de set. de 2026

O ÔNIBUS DE GUAPORÉ

 

    No feriado passado, meu pai levou a mim e a minha mãe à casa da minha avó.
  Foi uma das melhores coisas que me aconteceram este ano. Descansei a cabeça, vi a horta de onde vovó tira os temperos e o verde das saladas e, como de costume, ela nos contou mais uma de suas bonitas histórias. Vou tentar passar para vocês:
   Um imigrante italiano tinha um hotel em Guaporé, no Rio Grande do Sul, famoso pela comida farta e generosa. O ônibus que vinha da capital sempre parava ali para o almoço. Em um sábado, três ônibus vindos do interior encostaram. Todos os passageiros desceram para comer, menos um adolescente. Ele continuou sentado, com a cabeça encostada na janela.
 O hoteleiro, um homem de coração gigante, percebeu e se perguntou: "Será que ele não gostou daqui? Será que já almoçou? Por que não desceu?". Ele subiu no ônibus e questionou o jovem:
— Por que você não desceu com os outros?
O rapaz, de sobrancelhas espessas, respondeu timidamente:
— Gastei tudo na passagem.
 Ele estudava no Centro Técnico Agrícola em Viamão e estava viajando para Carazinho, onde morava sua família. Não tinha um centavo no bolso.
   O italiano puxou o jovem pelo braço e decretou:
— Ninguém passa fome em Guaporé!
   Sentou o garoto na cabeceira da mesa e serviu um prato suntuoso: arroz, feijão, bifes na chapa, massa e aquele ovo perfeito, com a gema mole. O jovem limpou o prato. A timidez deu lugar ao sorriso e à conversa — ele havia sido transformado pelo acolhimento. Ao final, o italiano ainda lhe garantiu uma segunda rodada. O jovem já estava rindo — porque a gente só ri de verdade depois que ganha intimidade.
  Quem se tornou esse jovem? — perguntou minha vó. Leonel Brizola — meu pai respondeu. Ele viria a ser governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro. E o que Brizola fez em seus mandatos? — continuou minha avó: Criou as escolas de tempo integral com refeições garantidas para as crianças (os CIEPs). 
— A verdade é que você só faz aquilo que já faltou na sua vida — disse ela ao deixar a mesa para fazer o café.
  Vovó nos deu uma profunda lição sobre o acolhimento. Esse episódio marcante da juventude de Leonel Brizola, que eu não conhecia, realmente moldou quem ele viria a se tornar. Órfão de pai e de origem extremamente humilde, como descobri em pesquisas, ele sentiu na pele a fome e a falta de oportunidades antes de conseguir se formar em engenharia e, mais tarde, tornar-se o político que foi.
   Dei aquele sorriso para o meu pai e, pegando a mão da minha mãe, falei para a vovó do orgulho que eu tinha das suas conversas.

21 de set. de 2026

COSTURANDO SONHOS

   


   Atrás do barulho ritmado da máquina de costura, existe um silêncio que ninguém ouve. É ali, entre retalhos e linhas, que a mãe de Gabriel esconde o cansaço de uma jornada dupla. Ela é o teto e o chão, o sustento e o aconchego. É a mãe que, por força da vida, precisou aprender a ser pai também.
   Muitas vezes, o coração dela aperta de mansinho. Ela olha ao redor e lamenta não ter condições de dar a Gabriel as coisas materiais que o mundo diz serem preciosas. Mas o que ela não percebe, na sua própria humildade, é que o que ela oferece é o bem mais valioso que existe: um amor que protege, um carinho que cura e uma responsabilidade que molda o caráter de um menino de ouro.
   Para Gabriel, tudo parece leve. Ele vê a mãe sorrir quando ele chega da escola, vê a mesa posta — mesmo que simples — e sente a segurança de um lar. Gabriel não imagina o quanto custa manter esse mundo de pé. Ele não vê as noites em claro em que ela faz contas de cabeça, nem o peso invisível que carrega nos ombros. Ela gasta até a última gota de sua energia para que a realidade não roube a inocência e os sonhos do filho. Ela engole o próprio cansaço para que ele só conheça a esperança.
   Essa mãe desdobra o tempo e a própria saúde na ponta da agulha. Ela se desgasta, se doa por inteiro e esconde as próprias dores sob um olhar terno. Ela acha que dá pouco, mas está dando a vida. E quando vê Gabriel crescer educado, estudioso e cheio de orgulho dela, ela sabe que cada gota de energia gasta em segredo valeu a pena. O maior tesouro que ela poderia dar ao filho não se compra; está na alma do menino que ela, sozinha e com tanto amor, soube criar.


16 de set. de 2026

UM DOCE DE VIZINHA

 

   Quero contar uma história rápida que minha avó viveu e que me fez pensar muito. Uma vizinha nova se mudou para a rua dela e logo ganhou uma fama estranha por levar à minha avó duas fatias de bolo que ela assava de vez em quando. Minha avó achava aquilo uma grande bobagem e dizia para o meu avô que era melhor levar o bolo inteiro ou nem se desse ao trabalho.
     Um dia, ao receber o pratinho de sempre, minha avó cutucou: — Você não sabe fazer bolo pequeno? — A vizinha só riu: — Sei sim.
     A explicação veio numa conversa na calçada na semana seguinte. Minha avó comentou sobre o mistério das duas fatias, e a vizinha foi direta: — É de propósito. Se eu lhe der um bolo inteiro, a senhora vai se sentir na obrigação de me devolver algo na forma. Duas fatias a senhora come sem culpa. É só um carinho.
     Minha avó travou na hora. Ela percebeu que era verdade e que realmente se sentiria em dívida se ganhasse o bolo todo. Desde então, quando aquela vizinha bate no portão, minha avó não vê mais o que seus olhos lhe mostram. Vê um abraço em forma de doce. Um jeito delicado de se fazer presente sem exigir nada de volta.
     Que maluquice o jeito como a gente julga as coisas sem entender o cuidado que tem por trás, né? Eu achei essa vizinha genial demais.


11 de set. de 2026

RAÍZES DE NÓS

 

      Recentemente, uma blogueira me confessou algo inquietante: a grande maioria dos comentários em suas publicações vem de pessoas que sequer leram o texto. Não precisei perguntar no que se baseavam, pois a resposta era óbvia. Em vez de mergulharem no conteúdo, muitos preferem apenas parafrasear o que outros já disseram, criando um eco de obviedades. É uma lástima.
     Afinal, embora a internet esteja saturada de futilidades, ela também abriga quem entrega, gratuitamente, conhecimentos que antes exigiriam altos investimentos. Entre tantas bobagens, ainda resistem a ciência, o esporte, a poesia e a espiritualidade — frutos de quem pesquisa, lê e busca informação com rigor.
     Não me coloco em um pedestal acadêmico; falo de temas universais como escola, família e amizade, o "salão" onde todos nós dançamos. Contudo, também compartilho lições que me exigiram o esforço hercúleo de estudar para o ENEM. São saberes que, sem esse estudo, custariam caro para aprender, mas que faço questão de trazer aqui, sem alarde e de graça.
     Atualmente, mergulho em nossas origens: dos povos indígenas aos imigrantes e africanos trazidos a este solo. Percorro essa linhagem ancestral que deságua em quem somos hoje e trago tudo isso a vocês. Mas fica o convite: é preciso ler para, de fato, conhecer — e só então comentar.

6 de set. de 2026

A DITADURA PELA JANELA DA VOVÓ

 


    Os livros me ensinam sobre a ditadura, mas faltam neles os detalhes viscerais que só a memória de quem viveu consegue traduzir. Ouvi minha avó contar essas histórias ao meu pai durante uma visita e, como o assunto sempre me fascinou, puxei uma cadeira e pedi licença para mergulhar naquele passado. Minha avó narrou como os agentes fardados invadiam as casas sem a menor cortesia, apenas para 'farejar' algo suspeito. Para ela, era a estratégia perfeita para espalhar o pânico e deixar claro quem dava as ordens. O povo vivia sob uma eterna suspeita; a sensação de perseguição era o ar que se respirava. Qualquer palavra que desafiasse o sistema era um passaporte para a cadeia. Ela relembrou o toque de recolher — uma ordem de silêncio nas ruas que muito se assemelha ao que o crime organizado impõe hoje em certos bairros do Rio. Músicas de protesto eram proibidas até dentro de casa; embrulhos eram revistados na calçada e qualquer movimento 'estranho' na janela era motivo de batida policial. Ler também era um ato de risco. Sempre aparecia alguém fardado confiscando livros considerados 'subversivos'. Basicamente, a arte e a vida social eram asfixiadas pela censura. 'Acreditar que o outro é inimigo só por pensar diferente é sinal de que algo na cabeça não vai bem', dizia ela, baixando os olhos. É duro ver grupos que ainda hoje acreditam deter a razão absoluta, esperando um 'salvador' que autorize a violência contra a maioria em nome de uma justiça torta. Para esses, no fim do dia, basta pedir perdão a um deus que, em sua visão, aceita a barbárie. Felizmente, cresci sob o respaldo do respeito e da tolerância. Minha consciência é guiada por uma religião que prega o amor e a educação, o que me garante o respeito de quem me cerca. E, para fechar a noite, que cena maravilhosa: ver meu pai horas a fio conversando com a minha avó que, por uma feliz coincidência da vida, é a sogra que ele tanto admira

1 de set. de 2026

AMIGOS DO MEU PAI

       Meu pai tem uns amigos muito esquisitos. Por exemplo, um deles é sapateiro, mas só conserta bolsas e cintos. Outro é o típico conquistador barato: vive atrás de qualquer rabo de saia, mas basta uma mulher parar e perguntar o que ele quer para o sujeito disfarçar e sair de fininho. Mas o que mais me irrita é o folgado que bate ponto lá em casa. Quando aparece, é única e exclusivamente para tirar sarro do meu pai. Se dependesse de mim, ele já teria vazado no primeiro dia. Mas o papai, com toda a sua paciência — ou bobice —, deixa ele ficar. O pior é reconhecer que a casa ficaria num silêncio absoluto sem ele, já que o sujeito é uma figura e fala pelos cotovelos. Menos mal que ele não se deu conta do impacto que causa; senão, coitados de nós, ia ser um inferno.
      Foi por causa desse chato, inclusive, que arranjei um tempinho para esta postagem. Como eu dizia, o tipo não sai da nossa casa, mas nunca convida ninguém para a dele. Se alguém insinua uma visita, ele muda de assunto na hora. Eu mesma só consegui ir lá uma vez, acompanhada do meu pai. Para a minha surpresa, o lugar é limpinho e todo organizado. Vi até uns livros cheios de marcadores perto do lugar onde ele escreve as bobagens dele. Só não sei se ele realmente lê aquilo tudo ou se é só para enfeitar o ambiente.
     Eu estava aqui pensando: há muito tempo ele não fala dos esportes radicais que praticava. Acho que finalmente se deu conta da idade. Agora o esporte dele é escrever, e volta e meia brota aqui no meu espaço só para implicar comigo e despejar comentários sem o menor sentido. Sinceramente? Não estou nem aí para essa provocação. Normalmente fico na minha para não arranjar confusão. Não quero que ele apele, passe dos limites em algum post ou simplesmente suma lá de casa e deixe meu pai triste com a sua ausência. Tirar sarro no dia a dia é uma coisa, mas boicotar a amizade com o velho já seria sacanagem.
    Te cuida, hein, sujeito! Vê lá o que faz com meu velho, falou!

 

28 de ago. de 2026

À MINHA REVELIA

 

      Minha mãe e minha tia decidiram, à minha revelia, que eu serei a nova atração de uma festa junina do bairro. E quando digo "festa junina", me refiro a São Pedro.
     Sim, estamos em julho, mas o espírito festeiro delas não tem fim. Para piorar, mandaram fazer um vestido para mim. E não é um vestido normal, daqueles que as garotas usam por aí. É uma armadura de chita, com laços enormes nas costas que vão até a canela, acompanhada de um convite irrecusável (leia-se: obrigatório) para um arraial aqui perto. Elas endoidaram de vez. Dançar não é o meu forte. E, sinceramente? Mesmo se fosse, eu não iria.
     Tenho certeza de que o dedo podre por trás disso é da minha prima. Ela ama esse tipo de coisa. Não importa a festa, a garota quer estar lá. Ela é popular — muito mais do que eu gostaria que fosse — e faz amizade até com as paredes. Tem amigos por todos os cantos e, como acha essa vida social intensa o máximo, tenta me arrastar para essa droga de circuito caipira. O que me espanta é ver minha mãe se deixando levar por esse tipo de gente que, para o meu absoluto azar, é do meu próprio sangue.
     Olho para a minha prima e parece que o caminho dela tem mais flores que o meu. Minha mãe fica deslumbrada, apontando para o sorriso eterno no rosto da sobrinha, enquanto o meu próprio sorriso só aparece por motivos raros e justificados — não por qualquer bobagem, como costuma rir boa parte dos parentes que eu tenho. Às vezes me pergunto a quem puxei, já que minha mãe é festeira e meu pai é a própria definição de um homem conciso. Como ainda estamos no começo do mês, sei exatamente o que me espera: elas vão usar cada segundo até o dia do evento para tentar fazer a minha cabeça. Mas eu já me olhei no espelho do futuro e a imagem é devastadora. Vejo uma garota fantasiada de palhaço, com chapéu de palha de pontas desfiadas, um vestido amarelo, vermelho e branco com um laçarote gigante amarrado na cintura, meia três quartos e sapatos de normalista (se é que isso ainda existe). Uma palhaça completa!
     No fim das contas, me resta uma dúvida filosófica: a festa serve para divertir os convidados ou os convidados é que servem de palhaços para divertir os donos da festa? Diante desse dilema, minha única vontade é chorar. E se eu tiver que pagar para passar por esse mico, juro que vou me virar para sumir do mapa!

23 de ago. de 2026

XEQUE-MATE AO CORAÇÃO

 

       Aos cinco anos, eu já insistia para meu pai me ensinar xadrez.
       Demorei para vencer a primeira, mas aos oito eu já era um desafio real no tabuleiro. Fiquei um tempo afastada e, na volta, ganhei do meu pai duas vezes. Agora, o desafio é com meu avô. O dilema é pesado: como equilibrar o amor que sinto por ele com a minha vontade de vencer? Minha mãe foi categórica: 'seja você mesma'. Ela acredita que o maior respeito que posso dar ao meu avô é um jogo honesto. Se a vitória vier, será por mérito; se a derrota chegar, será com integridade.
       Sei que ele já perdeu muito na vida, mas mentir não é o meu papel. 
       Vou seguir o conselho da minha mãe e jogar com tudo, tratando o tabuleiro como o máximo de respeito que ele merece.

13 de ago. de 2026

O QUE SOBROU DE MARGÔ

 


    Cara, é surreal. Olho pra trás e nem consigo processar que, até os 15, eu não dava um passo sem essa garota. A Margô era o auge da timidez: olhinho baixo, voz mansa, tipo, real invisível perto dos outros. Mas foi só a família dela se mudar pro bairro vizinho que o bagulho desandou. Ou será que o caráter dela que apodreceu mesmo?
    A garota não só mudou o jeito, como virou outra pessoa, do nada. Começou a desfilar de grife e a dar ordem com uma arrogância que nunca foi dela. Dos pais? Sumiram, ninguém sabe, ninguém viu. Mas dela o Rio todo tá sabendo: a fofoca virou manchete, bombou no Twitter e no Insta. Acabou rodando na casa do namorado, um cara que a polícia tava caçando há um tempão.
    Minha vontade é ir lá agora, olhar na cara dela e mandar um "qual foi?" pra entender essa mudança. Quero saber onde foi parar aquela menina. Mas aqui em casa o papo é reto: me proibiram de ir. Dizem que "não se chora sobre leite derramado", sabe? Como se a vida de alguém fosse um copo quebrado que você simplesmente joga no lixo. É revoltante ver a pureza de uma infância ser jogada fora por escolha — e nem sempre só dela —, enquanto eu fico aqui, de mãos atadas, assistindo ao "game over" de quem eu achei que conhecia.

8 de ago. de 2026

OLHARES QUE NÃO ME PARAM

           



     Gente, preciso falar com vocês. É sobre o meu jeito de andar por aí, de cabeça baixa e sem olhar para os lados. Quem me vê, pensa que não quero papo com ninguém, mas não é verdade. Se você passou por mim e eu não falei, não foi por mal, juro!
     Esse meu jeitinho de andar olhando para baixo já me rendeu altas fofocas. Já fui chamada de metida, de esnobe e — a melhor de todas — a mãe de uma colega que estudou comigo na quinta série jurou de pé junto que eu tinha TDAH.
     Diagnóstico de calçada é outra coisa, né?
     A mulher, que nunca me viu na vida, do nada virou médica e decidiu me diagnosticar. É rir para não chorar!
     Olha, talvez eu até tenha um combo de tudo isso aí, mas a real é que não sou esnobe e nem tão tímida assim (pelo menos eu acho!). O nome disso é precaução, meu povo! Se eu não fico de bobeira andando na rua, já evito 90% dos perrengues e daquelas abordagens estranhas de gente maldosa.
    Acho que toda garota que foi criada por pais guerreiros — daquele tipo que nadou muito para não morrer na praia — passa por esse julgamento.
    Mas quer saber? Não estou nem aí. Esse meu "escudo" afasta os desavisados que querem forçar amizade. Agora, me diagnosticar com TDAH por causa da quinta série? Aí já é sacanagem! Me admira a mãe dessa menina ter tempo para cuidar da vida dos outros enquanto a dela deve estar de pernas para o ar. Quem ela pensa que é para sair rotulando os filhos alheios? Com tanta coisa para fazer, a mulher resolveu focar no meu foco!
    Ah, não enche!


3 de ago. de 2026

O CÓDIGO DA HERANÇA

 


    Minha pequena Rô, olha bem para esse lugar. Olha para esse notebook na sua frente, para essas luzes e para esse crachá que diz "Engenharia".
    Sabe, quando eu tinha a sua idade, minhas mãos não tocavam em teclados; elas sentiam o peso da água nos baldes e o calor do ferro de passar. Naquela época, o "código" que eu tinha que aprender era o de como ser invisível para não incomodar, de como baixar a cabeça para poder passar. As salas de aula que eu via eram apenas aquelas para as quais eu te levava quando você era pequena.
    Às vezes, eu fechava os olhos por um segundo e tentava imaginar como seria o futuro. Eu não sabia o que era um algoritmo, mas já estava calculando o caminho para que você chegasse até aqui. Estava economizando cada centavo, cada gota de suor, para que um dia o seu único trabalho fosse pensar, criar, ocupar este espaço.
    Ver você sentada nessa bancada, discutindo de igual para igual com essas pessoas, resolvendo problemas que parecem grego para mim... minha filha, isso não é só um curso. É o meu sonho que criou pernas e agora está aí, digitando. Você é a prova de que nenhum esforço foi em vão, meu amor.
    Sempre que o código der erro ou alguém tentar te fazer sentir pequena nesta sala, lembra das minhas mãos. Elas te sustentam. Você não está sentada nessa cadeira sozinha; eu estou aí com você, sua avó está aí, e todas as mulheres que vieram antes de nós estão de pé, atrás de você, aplaudindo cada linha de código que você escreve.
    "Você é a nossa vitória mais bonita, Rô."

29 de jul. de 2026

SESSENTA ANOS DEPOIS DE MIM


 
— Sinto falta do reboliço que eu causava — d. Alzira murmurou, olhando para as próprias mãos que eu apertava. Ela tinha quase 80 anos; eu, apenas 18.
— Saudade do eco do "fiu-fiu", dos pescoços que quase quebravam pelo balanço da minha bunda. Eu era o próprio pecado caminhando.
Engoli em seco, acariciando seu pulso.
O tom dela, de repente, desabou para a melancolia:
— Hoje, o mundo me castiga com uma indiferença que sangra, minha filha. Passei de tentação a invisível. Antigamente, o lugar por onde eu passava prendia a respiração para me ver caminhar; hoje, se cruzo as pernas, desviam o rosto, ofendidos, como se a flacidez fosse um insulto.
Meus vestidos agora são longos, como mortalhas que sepultam o corpo que já foi desejo. Mas a verdade crua... — ela sussurrou, tocando meu queixo — ...é que por dentro eu choro a morte da deusa que fui, condenada a viver como um fantasma num corpo que ninguém mais quer tocar.
Ela olhou para o próprio colo, enquanto eu me esforçava para engolir o choro.
Curvei-me e deixei um beijo demorado em sua bochecha com cheiro de talco.
— A senhora ainda é linda, d. Alzira — disse, segurando suas mãos. — O mundo pode ser cego, mas a deusa continua viva aqui dentro — toquei seu peito de leve, me levantando. — Ninguém apaga o rastro que a senhora deixou. Obrigada pelo chá e por dividir isso comigo.
Dei-lhe um último beijo na testa e saí.
Ao cruzar a porta, caminhei pela rua sentindo o vento no rosto. Olhei para as minhas pernas firmes, para a pele lisa e para os olhares que eu ainda atraía. Um arrepio correu a espinha diante do ciclo implacável do tempo. Daqui a sessenta e dois anos, com o coração nostálgico, seria eu sentada à mesa, repetindo exatamente as mesmas palavras para uma garota de dezoito anos.

23 de jul. de 2026

LEITOR OU PERSEGUIDOR?

 

       Um dos meus leitores — ou melhor, ex-leitor — teve o desplante de aparecer na minha casa com uma caixa de bombons para me dar. Ninguém perguntou se eu ou meus pais gostamos ou queríamos aquilo, mas ele simplesmente trouxe. Minha mãe, com uma inocência que beira a ingenuidade, permitiu que o sujeito entrasse e, quando chegamos, porque outro blogueiro, amigo da gente, estava comigo, a situação era surreal: quem acabou ficando do lado de fora da própria casa fui eu!
      O amigo que estava comigo, ficou indignado com tamanha petulância. Afinal, ninguém em sã consciência invade o espaço de uma garota sem ser convidado, mas esse sujeito achou que podia. Há dias ele vinha se "engraçando" nos comentários, e eu, na tentativa de poupar meus pais e outras pessoas, não disse nada. Mas vir à minha casa? Isso cruzou todos os limites!
      Exigi que ele saísse e viesse falar comigo no corredor, onde eu estava com o meu amigo. Meus pais que o acolheram lá dentro não entenderam nada na hora, mas eu, que leio a respeito das táticas que esses cafajestes usam para manipular pessoas incautas, fiz exatamente o que precisava ser feito: impus uma barreira.
      Assim que ele se retirou, entrei com o meu amigo e retomamos nossa conversa — nós, protegidos do lado de dentro, e o atrevido no lugar que lhe cabe: do lado de fora da porta. Esses misóginos precisam se decidir: ou aceitam um corretivo à altura de sua ousadia, ou aprendem, de uma vez por todas, a se comportar.
      Não acredito que ele terá o bom senso de parar de ler meus artigos ou de comentar, mas se o fizer, o prazer da sua ausência será, sem dúvida, muito maior do que qualquer audiência que ele possa me dar.

18 de jul. de 2026

SOCORRO, MEU CÉREBRO AGORA PENSA EM CÓDIGO!

 



           Se você tivesse me conhecido há três meses, acharia que eu era uma pessoa normal.  Eu olhava para um elevador e via apenas... um elevador. Hoje? Olho para os botões e começo a mentalizar um "if-else" infinito para decidir se ele para no 4º andar ou ignora o meu atraso para a aula de Cálculo.
     Dizem que a faculdade de Engenharia muda a gente, mas ninguém avisa que a programação é um caminho sem volta para a "Matrix" da vida real. Antes, eu achava que "fazer um app" era simples como postar um "story". Agora, após passar quatro horas tentando entender por que um ponto e vírgula derrubou todo o meu projeto, desenvolvi um respeito religioso por qualquer coisa que funcione. Se o micro-ondas esquenta a comida sem dar "Runtime Error", eu quase sinto vontade de aplaudir. Aprender a programar é, basicamente, aprender a ser humilde perante uma máquina que só faz o que você manda — e nós, geralmente, mandamos errado.
     A lógica de programação grudou na minha rotina de um jeito que não consigo mais tomar café sem pensar na eficiência do processo. O problema é que a vida real não aceita Ctrl+Z. Se eu cometo um erro de lógica em uma conversa com o crush (que, por sinal, eu não tenho), não tem como dar um "reboot" no servidor e fingir que nada aconteceu.
     Uma pessoa comum, ao ver um "site" bonito, fica feliz. Já o estudante de computação quer saber qual "framework" usaram, como o banco de dados suporta o tráfego e por que o botão de "Sair" está com um "delay" de 2ms. A gente perde a paz, mas ganha um superpoder: entender os bastidores do mundo moderno.
     Resumo do semestre até agora: meu café está frio, meu código está com 42 avisos de erro e eu nunca estive tão animada. Afinal, se a vida é um grande código mal escrito, estou aqui justamente para aprender a "buildar" algo melhor ou, pelo menos, entender por que o "bug" aconteceu.

13 de jul. de 2026

O BRILHO QUE VEJO NOS OLHOS DA RÔ.

 



     Abrir este diário é como caminhar pelas ruelas ensolaradas do Rio de Janeiro e encontrar, em cada esquina, o brilho de uma menina que descobriu cedo que as palavras são os melhores brinquedos do mundo.  Nestas páginas, conhecemos a pequena Rô — uma narradora nata que transformou a sala de casa em seu primeiro palco.
     Com uma sabedoria que parecia vir de outros tempos, ela encantava sua plateia mais fiel, a avó, com histórias que transbordavam doçura e uma consciência rara.
     A Rô sempre soube quem era: o encontro perfeito de mundos, uma menina preta orgulhosa de sua identidade, que via no contraste suave do pai branco e na herança retinta da mãe o desenho mais bonito do afeto. Sua inteligência, porém, não cabia apenas entre quatro paredes. Na escola, o nome "Rô" tornou-se referência, um sinônimo de excelência que deixava professores maravilhados.
     Enquanto o mundo ainda aprendia a soletrar, ela já devorava livros inteiros e resolvia palavras cruzadas complexas num piscar de olhos, provando que o conhecimento é uma ferramenta de liberdade.
    Mas, para além da genialidade, o que move o coração da Rô é o que é feito à mão.
     Entre as bonecas modernas que ganhava da mãe e as bonecas de pano costuradas pela avó, sua escolha era sempre pelo afeto.
     Aquelas bonecas de retalhos tinham alma, cheiro de carinho e guardavam segredos que só o amor de neta e avó consegue fiar.
     Este diário é o registro desse crescimento. É o rastro de uma menina que cresceu provando que a inteligência e o amor são as cores mais bonitas que alguém pode carregar.
     Seja bem-vindo ao mundo da Rô, onde cada palavra é um convite para enxergar o mundo com mais brilho e verdade.
     Parabéns, pequeno gênio!  E um beijo do "tio",
Silvioafonso.


11 de jul. de 2026

VOZINHA

     


     Todo mundo sabe que eu não sou fissurada em jogo de bola. Futebol para mim sempre foi aquele barulho na sala, minha família gritando na TV e eu olhando de canto de olho. Mas esse tal de Vozinha? Menina, esse cara me levou às lágrimas.
     Um cara com 40 anos, já no que esse povo chama de "final de carreira", chega em campo com aquele jeitinho de gente simples, de quem só quer um lugar para comer e, se possível, descansar depois da batalha. Mas, quando a bola rola, o homem vira um gigante! O pessoal lá em casa não cansava de contar, incrédulo: foram muitas defesas difíceis! É ou não é para deixar a gente do jeito que eu fiquei? De coração na boca!
    E aí veio aquele jogo contra a Argentina. Que dor, cara. Aquela derrota apertada acabou com o nosso sonho e tirou lágrimas de todo mundo lá em casa. Ver o Vozinha se despedir daquele jeito quebrou as nossas pernas; eu mesma chorei junto com a minha família na sala, sem conseguir acreditar.
     Cabo Verde pode até não ter a maior renda per capita do mundo, mas o Vozinha chegou ali como se fosse um dos nossos, nascido e criado na periferia. Ele jogou pela dignidade do povo dele e merecia demais a vitória.
      Parabéns, jogador. Você foi gigante. Parabéns, Cabo Verde. Só vocês me fizeram torcer.

6 de jul. de 2026

SÓ BISCOITO, O SONHO ACABOU!

 



     Olha, meu pai só pode achar que é artista de teatro dramático, não é possível. Educado todo mundo sabe que ele é, mas precisava chorar de verdade só porque os amigos dele — que passaram a tarde assistindo a um bando de marmanjo simulando um barco imaginário — ganharam da gente? Da gente não, né? Deles, que sofrem e morrem de amores por futebol.
     Gente, papo sério: quando eu soube que o Ronaldo português ganha 4 milhões de reais por dia, minha cabeça explodiu. Será que a diretoria do Al-Nassr, na hora de fazer o pix ou assinar esse contrato milionário, tem a menor noção do que é o nosso perrengue? Acordar cedo, mofando em condução apertada, comendo de marmita e trabalhando feito louco para chegar morto em casa e receber um salário miserável de 1.700 reais por mês? Acho que não, né, mané!
     E o meu pai lá, enxugando as lágrimas dos vizinhos que vieram aqui só para sujar a sala de pipoca. Até molho de cachorro-quente a minha mãe encontrou pelos cantos e nas poltronas! Olha, bem-feito para a senhora também, dona mãe. Não falo isso para brigar, mas fico indignada: a senhora não tem empregada, a diarista só vem uma vez por semana — e ainda falta muito para ela voltar —, e a senhora fica aí, com essa cara de boba sorrindo para o prejuízo!Sinceramente, não sei a quem eu puxei nessa família. Não vejo graça nenhuma em ver minha mãe rindo do caos, meu pai chorando por causa de jogo e um português ganhando o dinheiro que ganha.
     Para fechar, espero que o pessoal que estava chorando pelo Hexa entenda que o Hexa já veio! Sim, porque pelo que eu li na imprensa, faz exatamente seis Copas do Mundo que o Brasil não ganha de nenhum time grande.
      É o Hexa do jejum, minha gente! Podem vibrar, o Hexa finalmente chegou!