Minha mãe e minha tia decidiram, à minha revelia, que eu serei a nova atração de uma festa junina do bairro. E quando digo "festa junina", me refiro a São Pedro.
Sim, estamos em julho, mas o espírito festeiro delas não tem fim. Para piorar, mandaram fazer um vestido para mim. E não é um vestido normal, daqueles que as garotas usam por aí. É uma armadura de chita, com laços enormes nas costas que vão até a canela, acompanhada de um convite irrecusável (leia-se: obrigatório) para um arraial aqui perto. Elas endoidaram de vez. Dançar não é o meu forte. E, sinceramente? Mesmo se fosse, eu não iria.
Tenho certeza de que o dedo podre por trás disso é da minha prima. Ela ama esse tipo de coisa. Não importa a festa, a garota quer estar lá. Ela é popular — muito mais do que eu gostaria que fosse — e faz amizade até com as paredes. Tem amigos por todos os cantos e, como acha essa vida social intensa o máximo, tenta me arrastar para essa droga de circuito caipira. O que me espanta é ver minha mãe se deixando levar por esse tipo de gente que, para o meu absoluto azar, é do meu próprio sangue.
Olho para a minha prima e parece que o caminho dela tem mais flores que o meu. Minha mãe fica deslumbrada, apontando para o sorriso eterno no rosto da sobrinha, enquanto o meu próprio sorriso só aparece por motivos raros e justificados — não por qualquer bobagem, como costuma rir boa parte dos parentes que eu tenho. Às vezes me pergunto a quem puxei, já que minha mãe é festeira e meu pai é a própria definição de um homem conciso. Como ainda estamos no começo do mês, sei exatamente o que me espera: elas vão usar cada segundo até o dia do evento para tentar fazer a minha cabeça. Mas eu já me olhei no espelho do futuro e a imagem é devastadora. Vejo uma garota fantasiada de palhaço, com chapéu de palha de pontas desfiadas, um vestido amarelo, vermelho e branco com um laçarote gigante amarrado na cintura, meia três quartos e sapatos de normalista (se é que isso ainda existe). Uma palhaça completa!
No fim das contas, me resta uma dúvida filosófica: a festa serve para divertir os convidados ou os convidados é que servem de palhaços para divertir os donos da festa? Diante desse dilema, minha única vontade é chorar. E se eu tiver que pagar para passar por esse mico, juro que vou me virar para sumir do mapa!

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