Quero contar uma história rápida que minha avó viveu e que me fez pensar muito. Uma vizinha nova se mudou para a rua dela e logo ganhou uma fama estranha por levar à minha avó duas fatias de bolo que ela assava de vez em quando. Minha avó achava aquilo uma grande bobagem e dizia para o meu avô que era melhor levar o bolo inteiro ou nem se desse ao trabalho.
Um dia, ao receber o pratinho de sempre, minha avó cutucou: — Você não sabe fazer bolo pequeno? — A vizinha só riu: — Sei sim.
A explicação veio numa conversa na calçada na semana seguinte. Minha avó comentou sobre o mistério das duas fatias, e a vizinha foi direta: — É de propósito. Se eu lhe der um bolo inteiro, a senhora vai se sentir na obrigação de me devolver algo na forma. Duas fatias a senhora come sem culpa. É só um carinho.
Minha avó travou na hora. Ela percebeu que era verdade e que realmente se sentiria em dívida se ganhasse o bolo todo. Desde então, quando aquela vizinha bate no portão, minha avó não vê mais o que seus olhos lhe mostram. Vê um abraço em forma de doce. Um jeito delicado de se fazer presente sem exigir nada de volta.
Que maluquice o jeito como a gente julga as coisas sem entender o cuidado que tem por trás, né? Eu achei essa vizinha genial demais.

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