T R A D U T O R

28 de jun. de 2026

INVISÍVEL NA TORCIDA

      


       Para os fãs de futebol, nenhuma época é tão importante quanto os meses de junho e julho. O dia, de repente, fica pequeno para tanta gente vibrando com um gol ou xingando a mãe do juiz. O mais engraçado é notar como, de uma hora para outra, todo mundo vira especialista e entende tudo da coisa. 
        Todo mundo, menos eu.
     Eu não consigo nem ler os comentários da rodada para fingir que sei do que estão falando. E não é por falta de tempo, mas por pura falta de interesse mesmo. A verdade é que isso não me chateia e nem me tira das rodas de conversa. Consigo acompanhar o ritmo das pessoas sem precisar forçar uma paixão que não tenho. Enquanto a maioria se liga na TV, eu prefiro o silêncio e a companhia de um bom livro.
        O ápice desse meu desinteresse foi nesta semana: acabei pegando no sono no meio da leitura e tive um sonho bizarro assistindo ao jogo da seleção — coisa que, obviamente, eu não fiz acordada. No sonho, eu tentava decifrar a tática do técnico usando teoremas matemáticos e equações complexas, enquanto a torcida na arquibancada gritava fórmulas em vez de incentivar os jogadores. Acordei assustada, grata por voltar para a calmaria das minhas páginas e sem a menor ideia de quanto tinha sido o placar real.
         Não estou nem aí se me acham alienada por não vestir verde-e-amarelo ou por não sair soprando corneta por aí. Mas, se for obrigada a torcer, é claro que, como brasileira que sou, torço para a gente ganhar — nem que seja só para calar os linguarudos que desdenham do Brasil.


25 de jun. de 2026

O ARQUEIRO E A FLECHA

 

      Eu sei que falo muita merda, mas espero que vocês me entendam. Qual a jovem que não se expressa assim quando sente o mundo apertar o passo? Tem hora que dá vontade de jogar tudo para o alto, gritar e fugir — ou se jogar de vez no precipício da própria ansiedade. Mas aí eu paro e penso: se nossos pais já foram jovens, passaram por esse mesmo sufoco e hoje são exemplos de superação, como eu não vou respirar fundo e seguir em frente? Se eles aguentaram o tranco, deve haver um código de sobrevivência que eu ainda não decifrei. Sei também que, na minha idade, a gente é chata pra cacete: é contra tudo e todos. E se falar em política, então... o estômago embrulha. Para mim, ninguém que já passou por lá presta. Se pudéssemos, trocaríamos todos por outros quaisquer, nem que fosse só pelo prazer da mudança.
     Meu avô, com aquela calma de quem já viu o mar recuar mil vezes, diz que na política só critica quem está fora. Ele está certo; errado é quem se cala e aceita o silêncio como destino.
     A vida adulta, porém, chega antes do boleto. Todo ano meu pai tem aumento de salário e, no mesmo patamar, aumenta minha mesada. O problema é que o custo de vida sobe o dobro. Para o meu pai, mais vivido, sempre existe um jeito, uma matemática com solução que eu desconheço. Para mim, resta o corte: parar de comprar o que, até ontem, era indispensável. A cada ano, uma nova tristeza. Ou a gente se ajeita ou afunda, como uma moeda numa garrafa de areia. Sorte que roupas, calçados e livros ficam na conta do meu velho. Mas e o cinema, o teatro e os museus, que cobram os olhos da cara? Isso ele não paga; já diz que está "embutido na mesada". É o preço de tentar ser culta em um país que cobra caro pelo ingresso da alma.
    Não sei como era a vida da adolescente no passado, se era mais ou menos severa, o fato é que a minha é foda. Sigo tentando manter a pontaria enquanto o vento sopra contra. Haja bambu para tanta flecha — porque arqueira, por aqui, é o que não falta.


21 de jun. de 2026

DESCULPA, OBRIGADA, FOI MAL!

 

     Gente, mil desculpas pelo meu surto no laboratório naquele dia! Eu sei que parecia uma maluca gritando na frente de vocês, mas é que ainda estou processando o fato de que finalmente fizemos aquele código rodar. Sério, depois de cinco horas direto, pilhas de café e aquele erro de sintaxe que parecia uma malevolência do destino, ver o terminal cuspindo o resultado certo foi... não sei nem explicar, foi quase espiritual. Acho que minha alma de engenheira em formação finalmente deu as caras.
     Peço perdão se assustei vocês com o abraço coletivo ou se falei rápido demais sobre como a lógica daquela função soava como poesia.
    Às vezes, esqueço que nem todo mundo se emociona com uma recursividade bem feita, mas trabalhar com vocês transformou o desespero em vitória.
    Prometo que, na próxima, tentarei manter a compostura (ou não!).
    Obrigada pela paciência com a minha intensidade de caloura deslumbrada.
    Vamos que vamos, porque o próximo bug já deve estar nos esperando!


16 de jun. de 2026

ERREI, FUI JOVEM

 

      Em uma visita recente alguém, bem mais velha do que eu,  me puxou as orelha avisando que já passei da idade de escrever assim.. Peço até desculpas pelo meu jeitinho! É que, na minha limitação, acabei me apegando aos dados da Organização Mundial da Saúde, que dizem que a adolescência vai até os 19 anos. E como a ciência e a psicologia modernas mostram que o nosso cérebro só amadurece aos 24, achei que meu lado jovem ainda estava perdoado.
  Falha minha!
  Se alguém tiver a paciência de olhar meus posts antigos, vai ver que eu até me esforço para escrever direitinho, do jeito tradicional que aprendi na escola. Mas este cantinho acaba sendo meu momento de distração e liberdade.
 Prometo tentar melhorar, mas se a maturidade falhar de vez, corro para o Google Tradutor e mudo até de idioma para não passar tanta vergonha.
  Agradeço de coração pelo toque e pela visita.
  Prometo que continuo tentando evoluir por aqui!


11 de jun. de 2026

RÓTULO, LIBERDADE E SAUDADE.

 

      Gente, papo reto aqui com vocês hoje. Tava lembrando de uma parada que aconteceu na minha festa de 18 anos e me deu uma vontade absurda de compartilhar. É sobre aquela minha amiga que partiu, sabe? Duas semanas antes de ela nos deixar, a gente tava comemorando meu aniversário e ela tinha acabado de voltar de uma cirurgia boba.
     No meio da festa, ela sentou comigo e me contou o que rolou no quarto do hospital, enquanto esperava a operação. Entrou um casal de voluntários e perguntou se podia orar por ela. Minha amiga, super de boa, falou que sim. Aí começou o interrogatório dos rótulos:
— Você é católica? — o rapaz perguntou.
— Não — ela mandou.
— Ah, então você é evangélica, né? — a moça quis saber.
— Também não — respondeu ela. 
     O cara já meio confuso insistiu: — Mas qual é a tua religião, então?
     Aí minha amiga deu o papo mais visionário de todos:
— Nenhuma. Inclusive, lá no livro de Tiago diz que a verdadeira religião é se manter longe da corrupção do mundo e visitar os órfãos e os viúvos nas suas aflições. Diante disso, pra que eu preciso de um rótulo?
     Mano, o casal simplesmente travou. Ficaram sem fala.
     Minha amiga me olhando e dizendo: "Cara, eles não conseguem entender a liberdade. A mente deles funciona na base de um roteiro, tipo "eu sou da religião X, você é da Y". 
     Ninguém precisa de religião, gente! O mundo precisa de sentimento bom, de amor, de paz, de ser livre. É só disso que a gente precisa".
     Ela me disse que viu na cara deles o quanto o discurso da liberdade é perturbador pra quem tá com a mente presa em dogmas. Olharam pra ela quase como se fosse uma abominação, sendo que o próprio livro que eles seguem prega exatamente o que ela falou. Por isso ela fechou o papo comigo dizendo: "Papo sério, se você vai seguir uma religião, no mínimo leia o livro dela pra entender o que tá fazendo".
     Na hora, eu não consegui falar nada. Só sorri, dei o abraço mais apertado do mundo nela e guardei aquilo no coração.
     Hoje, dois meses depois que você se foi, escrevo isso com os olhos cheios de d'água e uma saudade que aperta o peito.
      Você era gigante e livre demais pra esse mundo, amiga.
      Descanse em paz.