T R A D U T O R

28 de ago. de 2026

AMIGOS DO MEU PAI

       Meu pai tem uns amigos muito esquisitos. Por exemplo, um deles é sapateiro, mas só conserta bolsas e cintos. Outro é o típico conquistador barato: vive atrás de qualquer rabo de saia, mas basta uma mulher parar e perguntar o que ele quer para o sujeito disfarçar e sair de fininho. Mas o que mais me irrita é o folgado que bate ponto lá em casa. Quando aparece, é única e exclusivamente para tirar sarro do meu pai. Se dependesse de mim, ele já teria vazado no primeiro dia. Mas o papai, com toda a sua paciência — ou bobice —, deixa ele ficar. O pior é reconhecer que a casa ficaria num silêncio absoluto sem ele, já que o sujeito é uma figura e fala pelos cotovelos. Menos mal que ele não se deu conta do impacto que causa; senão, coitados de nós, ia ser um inferno.
      Foi por causa desse chato, inclusive, que arranjei um tempinho para esta postagem. Como eu dizia, o tipo não sai da nossa casa, mas nunca convida ninguém para a dele. Se alguém insinua uma visita, ele muda de assunto na hora. Eu mesma só consegui ir lá uma vez, acompanhada do meu pai. Para a minha surpresa, o lugar é limpinho e todo organizado. Vi até uns livros cheios de marcadores perto do lugar onde ele escreve as bobagens dele. Só não sei se ele realmente lê aquilo tudo ou se é só para enfeitar o ambiente.
     Eu estava aqui pensando: há muito tempo ele não fala dos esportes radicais que praticava. Acho que finalmente se deu conta da idade. Agora o esporte dele é escrever, e volta e meia brota aqui no meu espaço só para implicar comigo e despejar comentários sem o menor sentido. Sinceramente? Não estou nem aí para essa provocação. Normalmente fico na minha para não arranjar confusão. Não quero que ele apele, passe dos limites em algum post ou simplesmente suma lá de casa e deixe meu pai triste com a sua ausência. Tirar sarro no dia a dia é uma coisa, mas boicotar a amizade com o velho já seria sacanagem.
    Te cuida, hein, sujeito! Vê lá o que faz com meu velho, falou!

 

À MINHA REVELIA

 

      Minha mãe e minha tia decidiram, à minha revelia, que eu serei a nova atração de uma festa junina do bairro. E quando digo "festa junina", me refiro a São Pedro.
     Sim, estamos em julho, mas o espírito festeiro delas não tem fim. Para piorar, mandaram fazer um vestido para mim. E não é um vestido normal, daqueles que as garotas usam por aí. É uma armadura de chita, com laços enormes nas costas que vão até a canela, acompanhada de um convite irrecusável (leia-se: obrigatório) para um arraial aqui perto. Elas endoidaram de vez. Dançar não é o meu forte. E, sinceramente? Mesmo se fosse, eu não iria.
     Tenho certeza de que o dedo podre por trás disso é da minha prima. Ela ama esse tipo de coisa. Não importa a festa, a garota quer estar lá. Ela é popular — muito mais do que eu gostaria que fosse — e faz amizade até com as paredes. Tem amigos por todos os cantos e, como acha essa vida social intensa o máximo, tenta me arrastar para essa droga de circuito caipira. O que me espanta é ver minha mãe se deixando levar por esse tipo de gente que, para o meu absoluto azar, é do meu próprio sangue.
     Olho para a minha prima e parece que o caminho dela tem mais flores que o meu. Minha mãe fica deslumbrada, apontando para o sorriso eterno no rosto da sobrinha, enquanto o meu próprio sorriso só aparece por motivos raros e justificados — não por qualquer bobagem, como costuma rir boa parte dos parentes que eu tenho. Às vezes me pergunto a quem puxei, já que minha mãe é festeira e meu pai é a própria definição de um homem conciso. Como ainda estamos no começo do mês, sei exatamente o que me espera: elas vão usar cada segundo até o dia do evento para tentar fazer a minha cabeça. Mas eu já me olhei no espelho do futuro e a imagem é devastadora. Vejo uma garota fantasiada de palhaço, com chapéu de palha de pontas desfiadas, um vestido amarelo, vermelho e branco com um laçarote gigante amarrado na cintura, meia três quartos e sapatos de normalista (se é que isso ainda existe). Uma palhaça completa!
     No fim das contas, me resta uma dúvida filosófica: a festa serve para divertir os convidados ou os convidados é que servem de palhaços para divertir os donos da festa? Diante desse dilema, minha única vontade é chorar. E se eu tiver que pagar para passar por esse mico, juro que vou me virar para sumir do mapa!

23 de ago. de 2026

XEQUE-MATE AO CORAÇÃO

 

       Aos cinco anos, eu já insistia para meu pai me ensinar xadrez.
       Demorei para vencer a primeira, mas aos oito eu já era um desafio real no tabuleiro. Fiquei um tempo afastada e, na volta, ganhei do meu pai duas vezes. Agora, o desafio é com meu avô. O dilema é pesado: como equilibrar o amor que sinto por ele com a minha vontade de vencer? Minha mãe foi categórica: 'seja você mesma'. Ela acredita que o maior respeito que posso dar ao meu avô é um jogo honesto. Se a vitória vier, será por mérito; se a derrota chegar, será com integridade.
       Sei que ele já perdeu muito na vida, mas mentir não é o meu papel. 
       Vou seguir o conselho da minha mãe e jogar com tudo, tratando o tabuleiro como o máximo de respeito que ele merece.

18 de ago. de 2026

CAMÕES X PETRARA

 



      Olha só, rola um papo aqui na faculdade de que o Camões deu um "copia e cola" no Petrarca com o soneto Alma minha gentil. Mas ó, trocando uma ideia com a galera, a gente percebeu que não é plágio coisa nenhuma; é tipo um feat de respeito, entendeu?
     Até porque os caras nem viveram na mesma época: tem uns duzentos anos de diferença entre eles! O Petrarca é lá do século XIV e o Camões já é do XVI. Ou seja, é uma homenagem do português ao cara que, lá atrás, inventou a parada toda.
     Se liga na diferença: o Petrarca fica ali naquele luto, preso na saudade do rosto e dos olhos da Laura — é uma parada bem visual, focada no retrato da sua musa inspiradora. Já o Camões leva a parada pra outro nível, pro plano espiritual. Ele usa o começo do poema como um tributo, mas depois desenrola um papo profundo sobre o "desconcerto do mundo" e aquele desejo desesperado da alma se encontrar no além.
     Não é cópia; é o Camões pegando a base do mestre e elevando o nível do jogo. É a prova de que, naquela época, imitar era o caminho pra honrar e, quem sabe, superar o mestre.
     É nisso que eu acredito.

(Já sei, vão tirar o meu sono por causa do estilo do texto. Só assistam!)

13 de ago. de 2026

O QUE SOBROU DE MARGÔ

 


    Cara, é surreal. Olho pra trás e nem consigo processar que, até os 15, eu não dava um passo sem essa garota. A Margô era o auge da timidez: olhinho baixo, voz mansa, tipo, real invisível perto dos outros. Mas foi só a família dela se mudar pro bairro vizinho que o bagulho desandou. Ou será que o caráter dela que apodreceu mesmo?
    A garota não só mudou o jeito, como virou outra pessoa, do nada. Começou a desfilar de grife e a dar ordem com uma arrogância que nunca foi dela. Dos pais? Sumiram, ninguém sabe, ninguém viu. Mas dela o Rio todo tá sabendo: a fofoca virou manchete, bombou no Twitter e no Insta. Acabou rodando na casa do namorado, um cara que a polícia tava caçando há um tempão.
    Minha vontade é ir lá agora, olhar na cara dela e mandar um "qual foi?" pra entender essa mudança. Quero saber onde foi parar aquela menina. Mas aqui em casa o papo é reto: me proibiram de ir. Dizem que "não se chora sobre leite derramado", sabe? Como se a vida de alguém fosse um copo quebrado que você simplesmente joga no lixo. É revoltante ver a pureza de uma infância ser jogada fora por escolha — e nem sempre só dela —, enquanto eu fico aqui, de mãos atadas, assistindo ao "game over" de quem eu achei que conhecia.