T R A D U T O R

12 de fev. de 2026

JÁ É, FUI!

 


      Quando fiz intercâmbio, a maioria dos brasileiros da escola não era do Rio. Eles viviam rindo do meu sotaque: 'Carioca fala muito engraçado!'. Mal sabiam eles que nossa fala foi prestigiada em congressos nacionais de 1937 e 1956, sendo comparada à imposição de voz do teatro. Eles zoavam porque trocamos o 'E' pelo 'I' (como em discansar) e o 'O' pelo 'U' (tumáti vermêlhu). No Rio, ninguém fala biscoito, fala 'bixcoito'. A gente estica o som com um 'i' extra em treix e arroix, ou enfia um 'u' no douze. E o nosso 'R' arrastado na porrrta? Era o motivo da piada. Mas a verdade é que o carioca articula as consoantes como ninguém, abrindo bem a boca para falar. Nunca me importei, pois, se quiserem, podem rir à vontade; eu tenho é orgulho desse nosso jeito!

7 de fev. de 2026

FÉRIAS DE CARNAVAL

 


    A grandeza do desfile das escolas na Sapucaí é incomparável. Ali, discussões e empurrões tornam-se irrelevantes perto da alegria de um povo que trabalha até 12 horas por dia em troca de 'merreca'. É revoltante ver a inflação corroer o salário enquanto o governo assiste passivamente; se sabem que o valor vai cair, por que não se antecipam no reajuste? Mas, voltando ao assunto, se as férias descansam o corpo, a festa alimenta a alma. Nos dias em que fui assistir ao desfile, confesso que o saldo foi positivo, apesar dos momentos de tensão, lidei com beijos não permitidos, abraços forçados e cantadas invasivas. Precisei xingar e até ameaçar chamar a polícia em um dado momento. O fato de uma mulher gostar de se sentir admirada não dá a ninguém o direito de ser atrevido ou violento. Uma coisa é o prazer de ser olhada; outra, completamente diferente, é a invasão de espaço que não permitimos e com a qual jamais concordaremos. A experiência marcante do ano passado só foi possível graças aos contatos do meu pai, que conseguiu os convites para o camarote. Meu trabalho agora é convencê-lo a me deixar aproveitar as próximas noites, uma vez que os convites ele já os tem.

4 de fev. de 2026

MUDANÇA DE COMPORTAMENTO.

 




         Algumas pessoas falam sobre mim, me qualificam como indecisa, como se eu me importasse. Na realidade, sou bastante indecisa, nem sempre tenho certeza sobre o que gosto ou desejo realizar. Algumas vezes, acredito que sou alienada ou algo do tipo. Admiro com paixão o mundo onde vivo, a vida que tenho e a natureza que me sustenta. Quando tiro para pensar, eu penso demais, imagino demais, analiso demais, concluo demais e, em poucos minutos, mudo de opinião. Diariamente surgem novas ideias em minha cabeça, o que me faz compreender que sou constantemente inconstante. Também, gosto de falar sobre coisas que as pessoas não se importam. Quando começo, só paro quando alguém me belisca. Estou pouco me importando com os assuntos fúteis que circulam entre as garotas, se eles não conduzem ninguém a lugar algum. Na verdade, eu gosto de ser dessa forma. Não me preocupa muito se isso faz com que as pessoas se afastem de mim. Não mesmo!
Possivelmente, não tenho certeza do que desejo para minha vida, afinal, quem sabe, com a idade que tenho? Na minha idade, você tinha certeza?
Em algumas ocasiões, penso que posso ter um surto com essas pessoas ao meu redor. Essas que se vão e reaparecem a cada instante. Eu também sou assim. Tem vez que acho a escola boa demais e, ao mesmo tempo, muito ruim.
Pronto, senhora analista. Falei tudo, conforme a senhora pediu!

30 de jan. de 2026

O DUETO DO QUINTAL

 


     Parece que o Sr. Antônio, mais conhecido como 'Bunda-de-macaco', esqueceu que o Carnaval acontece em fevereiro e não o ano inteiro. Ah, se eu tivesse coragem… Minha vontade é escancarar a janela e berrar para o bairro todo ouvir: — 'Cala a boca, Bunda-de-macaco do cacete!'. Gente, todas as noites é o mesmo roteiro. O sujeito enche a cara e, mal coloca os pés em casa, desanda a cantar. Não satisfeito com o gogó, ele ainda arruma um balde para batucar o resto da madrugada. O resultado? O prédio inteiro, e metade do bairro, passa a noite em claro com a barulhada. A casa dele dá fundos para o meu edifício, então o eco da 'percussão' é um pesadelo. Ele jura que só solta a voz quando bebe — o que, na prática, significa todos os dias. Segundo ele, o show é uma tática para abafar o esporro que leva da mulher. Mas a estratégia é furada: Dona Saci, a 'Mulher do Cachimbo', tem a paciência mais curta que pavio de bomba. Em vez de lavar a roupa suja entre quatro paredes, ela prefere soltar os cachorros ali mesmo, no quintal, para todo mundo ouvir. Não há sono profundo que resista a esse dueto de gritos e batucada de balde. Se eu fosse um tiquinho mais atrevida, botava a cara no vento e soltava o verbo: — 'Ô, seu babaca! Para com essa p**** agora ou eu mesma chamo a polícia!'. Mas, infelizmente, a civilidade vence. Eu só penso, fervo por dentro e continuo em silêncio… enquanto o Bunda-de-macaco segue com seu show.





24 de jan. de 2026

CIÊNCIA EXATA – 01.

 



Fui ao shopping com minha mãe ver um filme que rolava em um daqueles cinemas. Na praça de alimentação ouvimos alguém me chamar. Era a minha ex professora de matemática, aquela que me fez trocar de colégio. Na hora que escutamos a voz, minha mãe foi até lá com um sorriso enorme na cara. Se eu tivesse contado o que a professora tentara comigo na casa dela, talvez mamãe não ficasse assim tão contente. Eu devia ter dito que, se eu não fugisse, não faço a menor ideia do que aconteceria com ela enfiando aquela mão macia por entre as minhas roupas. A única coisa que eu me lembro é de ter sentido um troço muito esquisito. Sei lá, uma sensação diferente, tipo um calor ou qualquer coisa parecida. Eu não saberia dizer se ela, depois disso, tentaria coisa pior. Mas, como estávamos sós… Sei lá, vai que ela me agarrasse. E minha mãe, coitadinha, toda boba com o jeito da professora tratar sua filha, nem poderia imaginar do que ela seria capaz. Oh, vontade de deixar minha mãe e voltar para a casa sozinha. Só não fui por não ter como pagar a passagem, senão tinha ido.  O que não quer dizer que eu seja azarada, mas sorte, sorte eu não tenho ou mamãe não convidaria a maluca para assistir ao filme conosco. Só que, para piorar, a professora aceitou. Aceitou e escolheu sentar-se entre nós. Eu estava ansiosa, esperando a luz apagar. Sabia que em um dado momento ela viria me perturbar, mas não veio. Fiquei muito zangada, não sei se comigo, por pensar essas coisas ou por ela não ter se atrevido como eu achava que pudesse. O pior é não saber como me comportaria com aquela mão enfiada na minha roupa como tentou uma vez. Na saída trocaram beijos e marcaram de se encontrar novamente. Peço a Deus que me incluam fora dessa ou terei de contar para minha mãe o que jurei não falar com ninguém. Não sei se terei coragem e até, de repente, quem sabe eu não apareça no encontro das duas?