T R A D U T O R

29 de abr. de 2026

MEU AMIGO BLOGUEIRO

 

     Eu e esse blogueiro vivemos nesse eterno jogo de gato e rato. É uma dinâmica que eu adoro e que nasce de uma admiração muito profunda que tenho por ele — e que sinto que ele também tem por mim. Mas, parando para observar o jeito dele, fica claro que a história dele guarda marcas que nem todo mundo consegue ver. Se eu percebo isso, é porque a minha realidade foi o oposto da dele.
     Ele não teve aquela infância leve que tantos meninos tiveram. O que transparece é uma criação marcada pela repressão. Fico imaginando o menino que ele foi, enfrentando dedos em riste e vozes agudas a cada erro bobo, sentindo-se o menor ser do mundo, encolhido num canto da casa. É de cortar o coração.
     Mas o tempo passou. Aquele menino se esforçou, estudou e foi à luta. Com o fruto do trabalho dele, ele deu aos pais tudo o que achou que eles mereciam. É um gesto lindo, mas que me faz pensar: e o alicerce de tudo isso? A infância, que deveria ser o nosso porto seguro, parece ser um lugar onde ele prefere não pôr os pés. Eu diria isso se fosse a analista dele, mas como sou só alguém que o admira...
     Quando o assunto vira brincadeira de criança, esse cara se retrai. É um silêncio que diz tanta coisa. Ele não demonstra fragilidade, não fala de dores passadas e faz questão de dizer que não chora por isso agora que é adulto. Mas o comportamento dele, esse jeito de se afastar do passado, é a prova mais honesta de que aquela criança ainda mora lá dentro, buscando um colo onde possa fechar os olhinhos, sentir o beijo da mãe e finalmente dormir.

25 de abr. de 2026

BITS, BYTES E TIC-TACS

 




      Sentei na bancada e, por um segundo, ignorei o cursor piscando no VS Code. O cheiro de fluxo de solda e o zumbido dos coolers eram, naquele momento, o som ambiente da minha vida. Logo eu, a garota que os professores usam como exemplo, a filha que liga para os pais para contar como foi o almoço e a amiga que sempre tem um chiclete ou um cabo USB reserva na mochila para emprestar.
     Minha vida é um algoritmo bem escrito, sem loops infinitos ou exceções não tratadas. Ou, pelo menos, era o que as minhas colegas achavam.
— Rô, desiste. O atuador do braço robótico morreu — o Leo disse, jogando a toalha (ou melhor, o multímetro). — O torque tá certo, o código tá limpo, mas a mecânica travou. Vamos levar DP no semestre mais importante da Engenharia.
      A Mari estava quase chorando sobre o protótipo. O laboratório inteiro parou para ver o drama da gente. Senti os olhares de pena das outras meninas. "Lá vai a Rô perder o CR perfeito", deviam estar pensando.
      Abri a mochila. Mas não peguei o notebook.
      Tirei um estojo de madeira que herdei do meu avô. Quando o abri, o brilho das pinças de aço e das mini-chaves de fenda fezeram a Bia, da bancada ao lado, esticar o pescoço.
— O que é isso? Kit de maquiagem de luxo? — ela ironizou, mas o tom era de pura curiosidade.
— Meu kit de relojoaria mecânica — respondi, encaixando a lupa no meu olho direito.
     O silêncio que se seguiu foi melhor que qualquer "Hello World" rodando de primeira. Elas se amontoaram em volta. Eu, a menina dos algoritmos, estava ali, operando o "coração" de metal do robô com uma delicadeza que a computação não ensina.
— Tem uma partícula de silício travando a terceira engrenagem do planetário — anunciei, visualizando o problema através da lente de aumento. — O sensor entende como barreira física e corta a corrente. Não é bug, é atrito.
     Com uma pinça de ponta fina, removi o intruso microscópico. Depois, com um aplicador, usei uma gota quase invisível de óleo no eixo — o mesmo que uso nos relógios que tento consertar.
— Reseta o sistema, Léo!
     Ele apertou o botão. O braço robótico girou com uma elegância silenciosa, fazendo a mesma trajetória milimétrica que havíamos programado. O professor, que observava tudo de longe com um sorriso de canto, apenas acenou positivamente com a cabeça. Nota dez.
— Rô... você restaura relógios antigos? Tipo, de corda? — a Mari perguntou, ainda em choque. — Por que você nunca contou que era, tipo,  uma artesã do século XIX escondida num jeans da Renner?
      — Porque às vezes, para entender o futuro da inteligência artificial, você precisa entender o passado da mecânica bruta — sorri, fechando o estojo. — E convenhamos: o TikTok é legal, mas ouvir o "tic-tac" de um escape de âncora que eu mesma montei é o único som que faz meu tempo parar.
     Saí do laboratório sob o espanto geral. Naquela tarde, eu não era apenas uma estudante dedicada; eu era a garota que sabia consertar o tempo.

20 de abr. de 2026

BEIJO DE CHOCOLATE


      Lembro-me bem do dia em que meu pai e o Silvio Afonso se reuniram em nossa sala. Com uma convicção que me marcou, Silvio dizia nunca ter conhecido alguém tão fiel quanto o próprio pai. Aqueles exemplos de retidão ficaram guardados em minha memória como um verdadeiro pilar de caráter.
     Ontem, na padaria, vi a dona do estabelecimento tricotando com uma idosa que eu nunca vi mais gorda. Elas cochichavam sobre um caso que parecia ecoar aquela conversa antiga. Curiosa, fiz-me de sonsa para ouvir sem ser notada. O assunto era a vizinha do 139 e — adivinha com quem? Com o meu pai!
     Se a mulher não tivesse mencionado o tom de loiro do cabelo da 'sujeita', eu jamais acreditaria que aquela figura — que minha mãe quase esbofeteou tempos atrás — estava rondando meu velho de novo. Mas meu pai é exatamente o que Silvio Afonso descreveu: um homem honrado. Ele não se dobra, pouco importa a beleza ou o dinheiro que a outra ostente.
     Como eu não podia abrir o bico para minha mãe, muito menos para a linguaruda da minha prima ou para as minhas amigas, guardei o segredo no peito. Ao chegar em casa com três sonhos, cinco pãezinhos quentes e uma caixa de chocolates, tasquei-lhe um beijo estalado. Meu pai ficou sem entender nada, mas aquele gesto era o meu jeito de dizer o orgulho que sinto do homem que ele é."


15 de abr. de 2026

DIVIDENDOS DE SANGUE

 



     Entrei na faculdade achando que finalmente entenderia o mundo, mas acabo esbarrando na lógica cruel da guerra. Quando EUA e Irã se enfrentam, o mercado não chora; ele acelera. Defesa, petróleo, mineração... tudo sobe. É o lucro operando como o motor do caos. Só que o custo real é humano: é o sangue de quem confiou em promessas de paz e recebeu munição.
     É surreal pensar que existe bônus corporativo sobre a venda de armamentos. Esses arquitetos do conflito, que se escondem atrás de telas e cifras, esquecem que nem todo o dinheiro do mundo compra imunidade contra a própria finitude. Seria tão mais simples se o diálogo substituísse o front, se um jantar e o respeito bastassem... Mas o mercado ignora o valor da vida, pois ela não gera gráficos de barras.
     Será que esses loucos não percebem que reconstruir o que a guerra destrói custa muito mais caro do que o lucro pelo qual eles comemoram hoje? No fim, a conta da destruição sempre será maior que qualquer dividendo.

10 de abr. de 2026

CARIDADE CEGA.

 

       Cara, é bizarro. O primo da minha mãe é a maior contradição em pessoa.   O mesmo cara que surta se a filha der "oi" pra um estranho, do nada escancara o portão pra desconhecidos só porque rolou um temporal e a galera ficou ao relento. 
    Tipo, caridade é maneiro, óbvio, mas precisava sacrificar a privacidade da própria família?
    No meio dessa galera que ele botou pra dentro, tem um garoto da idade da minha prima que exala uma vibe muito sinistra. O papo do cara é agressivo, “papo de rua” mesmo, como diz minha mãe, e o clima na casa ficou pesado real. Em menos de 48 horas a máscara caiu: o sujeito fica rondando os corredores, fazendo umas perguntas invasivas e com um olhar que, segundo minha prima — que tá tremendo de medo —, parece que tá despindo ela o tempo todo.
    E o pior: pra não contrariar o pai, ela não pode nem trancar a porta do quarto. Imagina o pânico! Recentemente o bagulho ficou sério: ela flagrou o vulto dele espiando pelo basculante do banheiro bem na hora que a mãe dela tava no banho. O estômago revirou, ela travou na hora. Se o cara tem coragem de invadir a privacidade da dona da casa, o que ele não faria com a filha? Minha prima não mora mais num lar, ela tá num campo minado, vigiando cada passo desse estranho que o pai dela, na maior cegueira, jura que é o “próximo” que ele está ajudando.