T R A D U T O R

12 de dez. de 2025

PERRENGUE


Caso não morasse nesse país, aqui não viria jamais! Na viagem para São Paulo, eu estava tranquila, junto à janela, com minha prima sentada ao meu lado e meus pais conversavam, no banco de trás. A distância da Rodoviária, até o bairro, na zona sul, onde passamos o fim de semana, não leva nem meia hora. Eu, com os fones no ouvido, ouvia música até o movimento dos passageiros chamar a minha atenção. — Estão atirando pedras na gente, fiquem agachados! — Urrou o motorista ao ter o para-brisa estilhaçado. — Não para, motorista! Não para, acelera! — Gritavam para ele. O resto, todos já sabem. Fomos à delegacia onde cada um relatou o que viu. Conclusão: Do passeio, pouco aproveitamos. A questão era o retorno para casa. Felizmente, tudo transcorreu de forma satisfatória; contudo, retornar a São Paulo, definitivamente, não consta dos nossos planos. Se tiver que escolher, preferimos os assaltos que ocorrem aqui em nossa cidade. Pelo menos sabemos de onde o perigo está vindo.

5 de dez. de 2025

PALAVRAS, SÓ PALAVRAS.

 



     Aprendemos as coisas com exemplos dos nossos pais e não com eles falando e gesticulando, como se pensa. Eu, como toda adolescente, discordo de tudo que ouço por aí e não importa de onde vem o que dizem, mas concordo com tudo que meus olhos conseguem enxergar. Se alguém, conversando comigo, me fala de outrem, certamente também fala de mim para aquela pessoa. Tudo o que aprendi de certo e de errado, a mim, foi mostrado e não conversado, como nas redes sociais. O exemplo, ao contrário do que nos é dito, nos torna mais jovens e viçosas enquanto palavras não passam disso; são só palavras. Minha avó diz que “falar, até papagaio fala”. Para exemplificar, Deus criou o pranto e o choro como meio de escape, rota de fuga. É isso ou a Represa arrebenta, vaza, explode. Ele poderia ter falado ou escrito, mas escolheu mostrar com exemplo. Ninguém se revela autêntico somente por possuir a habilidade de se expressar verbalmente. Pessoas verdadeiras mal sabem se expressar. É por meio de exemplos que se evidencia a fidelidade. Não precisam proferir palavra nenhuma.

28 de nov. de 2025

NÃO TENHO MEDO!

 



Quando eu era pequena, morria de medo do escuro. A noite, quando todos iam dormir, eu, na ponta dos pés, ia para o quarto da minha mãe.
De manhã, para ela não brigar comigo, perguntei muitas vezes se os monstros da noite comiam crianças?
Ela ria comigo no colo e falava que esses monstros não existiam, que eram coisas da minha cabeça, dizia, batendo a ponta do dedo na minha. Pelo contrário, dizia, as noites guardam segredos que só se descobrem de olhos fechados, dormindo, por isso, minha filha, você precisa dormir, mas não no meu quarto! Falava acariciando meu rosto.
Na noite seguinte, ela veio ao meu quarto. Levava uma lanterna que ela afirmava ser mágica e me deu de presente. Talvez pelos desenhos da lua e das estrelas que havia.
— Quando sentir medo, use a lanterna, minha filha, e escute o que as estrelas vão te contar!
Me agarrei à lanterna e, com ela ao meu lado, fechei os olhos na intenção de dormir. Pela fresta da minha janela, vi um bando de estrelinhas correndo de um lado para outro e, em seguida, uma voz me chamou. Surpresa, já sussurrando, perguntei quem me chamava.
— Somos nós, as estrelas! — responderam. Parecia que uns pontinhos brilhantes acenavam para mim.
— Rô, não precisa ter medo de escuro, pois é nele que nós, as estrelas, moramos. Agora durma que te mostraremos os mais bonitos lugares do mundo!
Foi aí que fechei os meus olhos e deixei me levar. Com ela, segurando minha mão, caminhei entre as estrelas, saltando de uma para outra. A mais brilhante me contou histórias maravilhosas.
No dia seguinte acordei muito feliz. Era a primeira vez que eu dormia sozinha. Do momento que mamãe entrou no meu quarto e me abraçou, não parei mais de falar:
— Mamãe, o escuro não é tão ruim, na verdade, ele é mágico! As estrelas me contaram coisas e até segredos elas contaram!
Daquele dia em diante, nunca mais tive medo do escuro e, quando anoitece, eu corro para a cama à espera das minhas amiguinhas que, como sempre, me contam histórias belíssimas, como mamãe afirmava.

23 de nov. de 2025

UNS COM TANTO. OUTROS SEM NADA.

 



           A diarista não apareceu esta semana e, como não atende as ligações, decidi ir à sua casa.
— “Oi, tudo bem. O que houve que você não apareceu mais?” — perguntei.
— “É o meu namorado que terminou comigo, só isso” — falou em tom baixo, próximo ao meu ouvido.
— “Qual foi o motivo que o levou a terminar?” — repeti no mesmo tom de voz.
— “Descobriu que o traía com outro homem.”
— “E por que está falando baixo se estamos sozinhas?” — perguntei com o queixo no ombro dela.
— “É que meu marido está em casa. Já pensou se ele escuta?”
Que vontade de gritar, de xingar, de voltar correndo para casa naquela hora. Já pensou se o marido descobre? E se ele a matasse na minha frente? Com que cara vou à delegacia se a polícia me obrigar a depor?
Nem mesmo o café que me foi oferecido eu tomei. Disse que estava com pressa, dei tchau e fui, vazei.
— “E então, minha filha. Como foi lá, com diarista?” — mamãe perguntou.
— “Sei lá, mamãe. Acho que brigou com o marido ou ele brigou com ela… sei lá.”
— “De vez em quando ela some” — disse, recolhendo as migalhas de cima da mesa. — “Se o serviço dela não fosse bem feito, eu a teria trocado faz tempo. Por aqui está cheio de gente pedindo para trabalhar”.
Mamãe foi resmungando para a cozinha e eu para o quarto pensando na besteira que fiz.

16 de nov. de 2025

CRUZ CREDO!

 


                 Se é minha amiga, posso te dar até um beijinho no rosto: contudo, se a garota não é, um simples cumprimento está adequado. Após um tempo, minha prima veio nos visitar com uma amiga. A garota, como que enlouquecida, abraçou e beijou meus pais. Ao chegar minha vez, dei um passo atrás e, colocando a mão no seu peito, perguntei: — e aí, tudo bem?
Mas não resolveu. Deu um giro em torno de si e, sorrindo, jogou-se em um dos sofás, como, certamente, costuma fazer na casa dos pais. Os meus concordaram com esse tipo de coisa, mas eu não. Comigo, o buraco não é no mesmo lugar. Minha prima juntou-se a ela no exato momento em que o foco laser da minha bazuca apontava o centro da testa das duas.
— A gente está namorando — declarou a maluca. Minha prima, apontando o dedo, gritou com a cara encostada na dela: — amiga!!! A gente é amiga, só amiga, entendeu?!
Não sei se meus pais acreditaram, mas eu, com certeza, acreditei. É a cara da minha prima. Meus pais estão cientes de que garotos namoram garotas e meninas com meninas, porém, na família… Portanto, o olhar do meu pai, foi direcionado à minha mãe, que somente assentiu e foi para a cozinha.
Quer namorar uma mulher que namore, mas não traga para perto de quem odeia ser cobiçada por outra. Mamãe chamou meu pai para auxiliá-la na cozinha. As duas foram para o meu quarto e eu saí sem destino.