T R A D U T O R

1 de mar. de 2026

A LAGOA DO OUTRO EU

 


    Tive um sonho horrível esta noite, mas, ao acordar, senti um alívio que não tinha quando me deitei. Embora tenha deixado de ser criança há muito tempo, percebi que o medo ainda me habita com a mesma força daqueles anos.
 No sonho, eu via um leão solitário, perdido de seu bando, caminhando sob um sol impiedoso. A sede era uma agonia. De repente, surgiu diante dele uma pequena lagoa de águas tão claras que pareciam um espelho. Ele correu desesperado, mas, no instante em que ia tocar a água, recuou bruscamente. Refletido na superfície, um grande leão o encarava com um olhar severo. Apavorado, o leão exausto fugiu sem olhar para trás, convencido de que a lagoa já tinha um dono feroz.
Duas horas se passaram sob o calor escaldante. No limite de suas forças, ele decidiu que, se a morte era certa, melhor seria morrer tentando. Voltou à beira da lagoa rastejando, pé ante pé. O 'inimigo' ainda estava lá, vigiando as profundezas. Mesmo tremendo, o leão mergulhou o focinho com tudo para saciar sua sede. No exato momento em que tocou a água, o reflexo se despedaçou e a imagem sumiu. O monstro era apenas ele mesmo.
Acordei com essa cena nítida na memória. Como diria a psicologia da minha mãe: na vida, carregamos muitos medos, mas quantos deles não passam da nossa própria imagem refletida, nos impedindo de beber a água que já é nossa?

28 de fev. de 2026

O SILÊNCIO POR TRÁS DA JANELA

 



        O susto veio de repente: ele sentiu que não estava bem. Foi ao médico que o mandou à mesa de cirurgia. Seguiu-se uma fisioterapia lenta e penosa, mas quando parecia que o pior havia passado, surgiu a necessidade de uma nova intervenção, ainda mais delicada. A cirurgia, tecnicamente, foi um sucesso; o problema, foram as complicações pós-operatórias. Uma sequência de infecções oportunistas o manteve confinado ao hospital por 17 dias intermináveis.
Hoje, ele está recuperado, pelo menos tenta provar, mas carrega o peso do julgamento alheio. Amigos e parentes não perdoam o seu sumiço, ignorando que o silêncio era a sua forma de lutar. Ele nunca foi de dividir o fardo; quando o estado era crítico, ele se calava. Quando falava, mentia por pudor: “Está tudo beleza”, dizia, enquanto o corpo tentava se reconstruir.
Por isso, minha alegria foi imensa quando ele decidiu, finalmente, “pôr a cara na janela”. E ele não apenas gritou que estava bem; ele provou. Ver sua vitalidade de volta é o melhor atestado de cura que ele poderia apresentar. Que bom ter você de volta, meu amigo! Que bom!

24 de fev. de 2026

A NOITE QUE SE FEZ LUZ: UM RELATO DE CORAGEM.

 



 
  Queria publicar este texto, Rô, mas não o farei para não assustar meus leitores. Se não se importar, publique no seu, mas não diga meu nome. Obrigado, te amo e, como você costuma dizer: tamo junto!
                     
  
  "Enfrentei o bisturi por duas vezes e enfrentarei outras duas nos próximos dias. Tudo sem maldizer a sorte ou questionar o destino. Fiz e farei do meu recolhimento um santuário pessoal, falando apenas a língua da cura e do silêncio que restaura.
Mesmo no auge da fragilidade, quando as rédeas da vida mudaram de mãos, o sorriso não se despediu do meu rosto. Fiz questão de que o brilho nos meus olhos fosse a imagem mais viva de esperança para quem me olhasse.
Aos que caminham comigo, reafirmo: amei e amo cada um com a entrega de quem sempre deu o máximo. Não por dever, mas por um amor que se antecipa, que lê os desejos e preenche os vazios antes mesmo que algo seja pedido. Se a vida me conceder o amanhã — e o depois —, eles serão, como sempre foram, inteiramente dedicados a vocês. Minha coragem é a minha maior entrega".

 (Não resisti ao pedido do amigo e acabei publicando).



20 de fev. de 2026

CINZAS

 


    A melhor Quarta-Feira de Cinzas da minha vida não teve nada de “cinza”, mas daquele pozinho brilhante que insiste em não sair do corpo da gente. Isso teve bastante. E aquele som da bateria gostoso que não me sai da cabeça. Não sabia que de perto contagiasse daquele jeito. Pela manhã, acordei com o sol lambendo meu rosto e eu não tinha pressa nenhuma em me levantar. Essa quarta-feira foi o marco da liberdade para quem tem a idade que tenho: imagina sobreviver à maratona dos desfiles que, querendo ou não, leva uma noite inteira, a madrugada e uma parte da manhã seguinte. A mistura de sensações é o que torna esse dia o melhor de todos. É como ressaca, mas não de bebida ou de drogas, mas de alegria. Satisfação de ter gastado, da melhor forma possível, cada gota de energia. Imagina a pessoa abrir a galeria do celular e ver que os vídeos que fez estão todos borrados, que as risadas com gente que nunca viu antes se tornaram melhores amigos por cinco ou dez minutos. E aquela luz maravilhosa na ponta da Sapucaí quando amanhece, hein!
De qualquer forma, tento e levanto, tomo um suco e saio para me despedir da turma que me espera sentada lá fora. É o encontro dos Resistentes: o encontro da despedida — e a gente sabendo que, mesmo a festa tendo acabado, a nossa energia é a mesma de três dias atrás.
O Carnaval não é só festa, como costumam falar, mas um rito. Para mim, por exemplo, foi o batismo da maioridade.
Quarta-feira de Cinzas é quando notamos que o ano não começou, mas continuamos com a força que só quem brincou os três dias entende. É a certeza de que, no próximo ano, tudo se repetirá, mas você nunca sentirá as mesmas emoções que hoje.


12 de fev. de 2026

JÁ É, FUI!

 


      Quando fiz intercâmbio, a maioria dos brasileiros da escola não era do Rio. Eles viviam rindo do meu sotaque: 'Carioca fala muito engraçado!'. Mal sabiam eles que nossa fala foi prestigiada em congressos nacionais de 1937 e 1956, sendo comparada à imposição de voz do teatro. Eles zoavam porque trocamos o 'E' pelo 'I' (como em discansar) e o 'O' pelo 'U' (tumáti vermêlhu). No Rio, ninguém fala biscoito, fala 'bixcoito'. A gente estica o som com um 'i' extra em treix e arroix, ou enfia um 'u' no douze. E o nosso 'R' arrastado na porrrta? Era o motivo da piada. Mas a verdade é que o carioca articula as consoantes como ninguém, abrindo bem a boca para falar. Nunca me importei, pois, se quiserem, podem rir à vontade; eu tenho é orgulho desse nosso jeito!