— Sinto falta do reboliço que eu causava — d. Alzira murmurou, olhando para as próprias mãos que eu apertei entre as minhas, ouvindo o início daquele desabafo.
Ela tinha quase 80 anos; eu, apenas 19.
— Saudade do eco daquele "fiu-fiu" que rasgava o vento, dos pescoços que quase quebravam, hipnotizados pelo balanço da minha bunda — dizia ela.
Eu engoli em seco, mas continuei ali, firme, acariciando a pele fina do seu pulso. Ela sorriu para o nada, os olhos brilhando com uma vaidade antiga:
— Sinto falta do roçar intencional, daquele aperto proposital de cotovelos contra os meus seios no elevador, e dos trabalhadores que engoliam em seco para soprar um "gostosa", como um segredo proibido. Eu me deliciava com as bochechas dos homens avermelhando quando eu cruzava as pernas, e com o pânico das esposas, tentando inutilmente cegá-los para o meu brilho.
A primeira lágrima me escapou. Passei a ponta do indicador na bochecha, sem querer que ela percebesse, mas d. Alzira nem notava; ela estava presa no passado.
— Sinto muita falta das minhas saias curtas, do formato dos meus mamilos duros sob blusas sem sutiã — continuou ela, a voz subindo um tom, quase jovem de novo. — Uma provocação calculada que eu fingia não notar, mas que dominava as ruas. Eu era o próprio pecado caminhando — ela falava tentando esconder o sorriso.
Aproximei minha cadeira da dela. O contraste da minha pele lisa com a dela, castigada pelo tempo, doía. Uma segunda lágrima desceu, e eu a enxuguei rápido com as costas da mão, focada em cada palavra. O tom dela, de repente, desabou para a melancolia.
— Hoje, sessenta anos depois, o mundo me castiga com uma indiferença que sangra, minha filha. Ninguém para o que está fazendo para me ver passar; passei de tentação a invisível. Ninguém me olha, a não ser que eu tropece e desabe perto deles.
— Não diz isso... — sussurrei, com o peito apertado, mas ela me cortou com um gesto amargo de cabeça.
— Antigamente, quando eu me sentava, o ambiente prendia a respiração na esperança de ver a minha carne; hoje, se arrisco cruzar as pernas, as pessoas desviam o rosto, ofendidas, como se a minha pele enrugada fosse um insulto.
Ela olhou para o próprio colo, e eu estiquei o braço para secar meu rosto molhado, incapaz de conter o choro diante daquela crueza.
—Os sutiãs que eu tanto desprezava para deixar meus seios livres e empinados, hoje são armaduras pesadas e tristes; sem eles, meu colo desaba, cansado. Meus vestidos agora são longos, como mortalhas que sepultam o corpo que já foi desejo.
Puxei um lenço do bolso, limpando o rastro das lágrimas que não paravam de cair. O relato corria livre, íntimo e doloroso, como se ela estivesse abrindo uma gaveta trancada há décadas.
— As sandálias de salto que desenhavam minhas panturrilhas foram condenadas; no lugar delas, sapatos ortopédicos que escondem meus joanetes e tentam manter no chão os pés trôpegos de uma velha mulher.
— As sandálias de salto que desenhavam minhas panturrilhas foram condenadas; no lugar delas, sapatos ortopédicos que escondem meus joanetes e tentam manter no chão os pés trôpegos de uma velha mulher.
Ela finalmente olhou para mim, vendo meus olhos vermelhos. Sorriu um sorriso afiado, cheio de um orgulho que o tempo não conseguiu apagar, e tocou meu queixo com carinho:
— Se alguém ousar me perguntar se sinto saudade, eu vou sorrir com desdém e negar. Vou mentir com o mesmo orgulho de quando fingia não saber que eu era o tormento do bairro, uma pedra no sapato das casadas e a fantasia mais ardente de todos os homens.
— Apoiei minha mão sobre a dela, tentando dar um conforto que eu sabia ser pequeno demais para o tamanho daquela perda.
— Mas a verdade, crua e melancólica... — ela sussurrou, e eu aproximei meu ouvido, enxugando a última lágrima que insistia em cair — ...é que por dentro eu choro a morte da deusa que fui, condenada a viver como um fantasmo num corpo que ninguém mais quer tocar.
O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som suave da louça quando apoiei minha xícara na mesa. Curvei-me em sua direção, quebrando a distância que o tempo impunha entre nós, e deixei um beijo demorado e carinhoso em sua bochecha enrugada, sentindo o perfume suave de talco que ela usava.
— A senhora ainda é linda, d. Alzira — eu disse, segurando suas duas mãos e olhando firme nos seus olhos, para que ela sentisse a verdade nas minhas palavras. — O mundo lá fora pode ser cego, mas a deusa continua viva bem aqui dentro — falei apontando para o seu peito. — Essa história e toda essa força são suas. Ninguém pode apagar o rastro que a senhora deixou.
Ela piscou, emocionada, e a linha dura de sua boca relaxou em um sorriso genuíno. Olhei para a mesa, para o bule que agora esfriava, e apertei seus dedos de leve.
— Obrigada por me convidar para tomar este chá hoje — completei, sentindo meu peito mais leve. — E por dividir comigo um pedaço tão bonito e verdadeiro da sua vida. Eu nunca vou esquecer essa tarde.
Ao me despedir e cruzar a porta de saída, caminhei pela rua sentindo o vento fresco da tarde bater no meu rosto. Olhei para as minhas próprias pernas firmes, para a minha pele lisa e para a atenção discreta que eu ainda atraía sem esforço. Um arrepio súbito me correu a espinha. Pensei no ciclo implacável do tempo e na certeza de que, daqui a sessenta anos, muito provavelmente seria eu sentada à mesa de chá, com as mãos trêmulas e o coração nostálgico, repetindo exatamente as mesmas palavras para alguma garota de dezenove anos.


