T R A D U T O R

3 de abr. de 2026

A HERANÇA EM CÓDIGO E COZINHA


      Aos cinco anos, eu não entendia de "miscigenação" ou "tensões raciais"; só sabia que meu pai tinha a cor do papel e minha mãe, a cor do café que coava pelas manhãs.
     Na Sexta-Feira da Paixão, o "sistema" da nossa casa mudava. O input era o silêncio. Lembro de ver meu pai — um homem de exatas como eu — ficar ainda mais contido, respeitando o luto cristão herdado da família. Mas o 'processamento' real acontecia na cozinha, sob o comando da minha mãe. O cheiro do bacalhau com batatas fundia-se ao perfume dos pratos ricos em leite de coco e azeite: uma alquimia que ela herdara da minha avó preta. Para mim, aos cinco anos, a religião tinha gosto de peixe ensopado e arroz branco, soltinho.      O que mais "bugava" a minha cabeça eram os santos cobertos de roxo na igreja onde meus pais me levavam. Eu olhava para aquelas silhuetas escondidas e achava que eles estavam brincando de esconde-esconde ou que tinham sido "desativados" por um tempo. Lembro de perguntar: "Mãe, o santo deu erro?" — Ela ria, passava a mão nos meus cachos e dizia que eles estavam apenas descansando para o domingo.
      Eu observava as mulheres negras, todas de branco, com uma postura que hoje reconheço como pura resistência, mas que, aos cinco anos, eu via como realeza. Eu me sentia parte daquilo, mesmo sendo a "misturinha" que corria entre os bancos de madeira da igreja.
      O Sábado de Aleluia era o meu momento favorito do "código". O Judas pendurado no poste da rua era o grande bug que a vizinhança precisava deletar. Eu ficava na ponta dos pés, vendo as pessoas armadas com paus "corrigindo" o boneco de pano com vontade.
      E o domingo? O domingo era o output final. O ovo de chocolate era a recompensa por ter sobrevivido ao silêncio da sexta. Mas, olhando para trás agora, aos 18 anos, vejo que o milagre não era apenas a ressurreição que o padre pregava. O milagre era a mesa da nossa casa: o meu pai branco, a minha mãe negra e eu — o resultado exato de uma soma improvável — todos juntos, celebrando uma fé tão diversa quanto o código genético que eu carrego.


30 de mar. de 2026

ENTRE O PDF E A PRECE

 



    Quem me vê no campus correndo atrás de xerox e sofrendo com nota de corte, nem imagina que por dentro eu tô só tentando silenciar o barulho pra ouvir o que Deus tem pra dizer. Sendo bem sincera: não sou a pessoa mais assídua da paróquia (a vida acadêmica é o puro suco do caos, né? kkk). Mas a Páscoa, pra mim, não é sobre bater ponto, é sobre pertencimento. 
    Como mulher preta e filha única, eu sei que minha trajetória é resistência pura. E essa época do ano me lembra que, depois de todo perrengue (dos chiques e dos nem tanto), a vida sempre vence. Cristo ressuscitou e isso me dá um gás absurdo pra acreditar que eu posso, sim, ocupar todos os espaços. Não precisa de perfeição, precisa de verdade.
     Nessa Quaresma, entre um PDF e outro, eu fiz minhas trocas: troquei o scroll infinito por cinco minutos de silêncio e a reclamação daquela DP por um “obrigada por estar aqui”. É o meu jeito de viver o sagrado no meio da rotina doida. A Páscoa é meu momento de lembrar que, mesmo quando eu fico meio low profile com a fé, Ele continua sendo meu porto seguro.
    Tô cuidando da alma com o mesmo carinho que eu cuido do meu cronograma de estudos. Bora renovar? Porque a jornada é longa, mas a gente nunca caminha sozinha. 




25 de mar. de 2026

DICAS, BLOGS E AFETOS

 

      Dizem que na internet a gente encontra de tudo, mas achar a Catiaho é tipo ganhar na Mega-Sena do algoritmo sem nem precisar jogar! Escritora de mão cheia e "prefeita" honorária de meio mundo dos blogs, ela tem um radar especial para talentos. E não é que, quando ela leu meus textos, o coração dela deu um match imediato comigo?
   Desde então, essa mulher maravilhosa virou minha "Mentora Oficial e Fada Madrinha". O expediente dela comigo é intenso: "Rô, cuida desse post!", "Rô, dá carinho para esses leitores!", "Menina, olha esse layout!". Ela não me dá apenas dicas; ela me entrega o mapa da mina com um laço de fita e ainda confere se eu entendi o caminho!
   E quando o assunto é comentário? Ah, aí é que a Catiaho brilha e tira o chicote (de seda!) da bolsa. Se a crítica é boa, ela me ensina a agradecer com a elegância de uma duquesa. Se a crítica é ácida, ela entra com seu Kit de Sobrevivência Digital: "Não se abala, garota! Respira, responde com classe (ou ignora com estilo) e segue o baile!".
   Para a Catiaho, o meu blog não é só um site; é um jardim que ela faz questão de ajudar a regar todo santo dia. E para mim, ter o privilégio dessa amizade é saber que, entre um post e outro, sempre terei um conselho sábio, uma risada garantida e aquele empurrãozinho carinhoso que só quem escreve com a alma sabe dar.
  Afinal, a Catiaho não escreve apenas livros; ela escreve capítulos de amizade na vida de quem tem a sorte de cruzar o seu caminho. Obrigada por tudo, fada madrinha!


20 de mar. de 2026

A DOR DO QUARTO LUGAR

 



       Fui para São Paulo com meu pai na maior expectativa de ver a Larissa (nossa "Fadinha"!) dar um show no Ibirapuera. Mas, infelizmente, não deu: ela acabou perdendo para a "japonesinha", amargando um quarto lugar.
     O problema foi quando o pessoal da faculdade soube que chorei junto com a nossa skatista; elas simplesmente racharam o bico da minha cara. Acharam engraçado um fã chorar, não pela vitória, mas pela derrota. Fiquei puta da vida! Quando contei a situação para o meu pai, esperando um apoio, ele não aguentou e riu da minha indignação com as meninas. "Até você, pai?", pensei.
     Por mim, não contava mais nada nem para ele, nem para ninguém. Mas, como ele é meu pai e meu amigo, e elas são colegas de curso, tive que engolir esse sapo. Sério, será que sou só eu que sinto a dor dos outros? Que rio com a alegria alheia e torço tanto que a derrota dói na alma? Às vezes, parece que ter empatia virou motivo de piada, até para quem está do nosso lado. No fim, sigo sendo essa pessoa que torce com o coração, mesmo que o mundo prefira rir do meu choro.



15 de mar. de 2026

ENTRE O GALEÃO E O SKATE PARK

 



           "Qual é, Larissa? Relaxa, cara! Você é surreal, esquece isso!", eu falei, tentando manter o foco, mas por dentro eu estava arrasada com a situação. A japonesinha de 14 anos foi bem, beleza; mas ver a nossa Fadinha fora do pódio, por um detalhe, foi de partir o coração. Na hora de falar com ela, tentei ser o mais sensata possível:    
— Você continua sendo a dona da pista, mesmo em quarto lugar; todo mundo sabe que você é a melhor, garota!     
    Mas a questão é que, quando o avião pousou no Galeão e eu pisei no Rio, a ficha caiu de verdade. No ônibus indo para casa, olhando as praias, me deu um vazio que não cabia em mim. Comecei a chorar real, sem drama. Logo hoje, Dia da Mulher, a gente querendo ver a nossa garota no topo e o destino faz uma coisa dessas?
     Fiquei imaginando o aperto no peito da nossa Fadinha. É muita pressão, sabe? Ver o título escapando na frente de todo mundo logo nessa data... Gente, não foi fracasso, foi falta de sorte, mas dói do mesmo jeito. Chorei mesmo, não estou nem aí, porque, no fundo, toda carioca sentiu que caiu junto com ela naquele "Skate Park" paulista.   
    No fim das contas, entendi que o choro não era só pelo troféu que não veio, mas por saber que, para nós, ela nunca perderia a coroa. Sequei o rosto antes de descer no ponto, respirei fundo, abraçada ao meu pai, e percebi que ser mulher e brasileira é exatamente isso: cair, levantar e continuar sendo "braba", mesmo quando o resultado não é o que a gente esperava. A Larissa Leal continua sendo a nossa maior referência, e o Rio vai estar sempre aqui para aplaudir cada manobra, no pódio ou fora dele.