T R A D U T O R

4 de nov. de 2026

SERÁ QUE A GENTE CONHECE QUEM ESCOLHE?

 



  Tem uma coisa nessas eleições que não sai da minha cabeça. Uma parte das pessoas votou em um candidato, outra parte escolheu o adversário. E cada lado parece ter certeza absoluta de que fez a escolha certa. Mas será que fez mesmo?
  Fico pensando: quantas pessoas que votaram conhecem de verdade esses candidatos? Não estou falando de conhecer o rosto, ouvir entrevistas ou acompanhar o que dizem na televisão. Estou falando de conhecer a pessoa, saber como ela pensa, como age quando ninguém está olhando, o que realmente faz e o que pretende fazer.
  Acho que quase ninguém sabe.
  A maioria de nós conhece aquilo que aparece nos jornais, na televisão, nas redes sociais e nos vídeos que circulam pela internet. Só que existe um detalhe: alguém escolhe o que vai aparecer. Uma notícia mostra uma coisa boa de um candidato, outra destaca um erro do adversário. E, quando percebemos, já estamos achando um maravilhoso e o outro um desastre.
  Mas será que é assim mesmo?
  Eu não sei se um é melhor do que o outro. Também não sei se aquele que parece ter feito mais coisas é realmente melhor ou se simplesmente teve mais espaço para mostrar o que fez.
  E aí vem a pergunta que me incomoda: será que estou escolhendo por aquilo que penso ou pelo que fizeram com que eu pensasse?
  Não estou dizendo que a imprensa mente o tempo todo. Seria injusto afirmar isso. Mas também não acho que devamos acreditar em tudo sem questionar. Afinal, uma informação pode ser verdadeira e, ainda assim, não contar a história inteira.
  O mais curioso é que os dois lados têm argumentos, os dois têm defensores e os dois acreditam estar certos. E milhões de pessoas votam acreditando que estão fazendo o melhor para o país.
  Talvez estejam. Talvez não.
  Só acho estranho que a gente tenha tanta certeza sobre pessoas que, na maioria das vezes, nunca vimos de perto e das quais conhecemos apenas aquilo que chega até nós.
  No fim, fico com uma dúvida: será que escolhemos nossos representantes ou escolhemos a versão deles que alguém nos apresentou?
  Não tenho uma resposta. Mas acho que já seria um bom começo se a gente aprendesse a fazer essa pergunta antes de chamar de ignorante quem votou diferente.
    Rô



30 de out. de 2026

A CAPA E A HISTÓRIA

 

  Quando não gostamos de alguém, inventamos desculpas para evitar a pessoa. Quando isso falha, o erro humano nos leva a tentar desmerecê-la. Não digo isso por suposição; digo porque conheço um pouco a natureza humana e já vi esse reflexo no espelho da minha própria penteadeira, quando evitei pessoas que são queridíssimas por muitos, mas que simplesmente não me descem pela garganta. Para não criar atritos desnecessários, prefiro o distanciamento.
   Mas por que perco tempo tentando decifrar a psicologia alheia se mal consigo compreender o meu próprio intelecto? Posso não ser uma teórica, mas eu sinto. E qual é a minha culpa se você gosta de pimenta e eu não? Enquanto ela enriquece o prato de uns, eu prefiro a simplicidade do meu.
   Dias atrás, escrevi um texto na maior descontração. Para minha surpresa, alguém com séculos de dias vividos a mais do que eu jamais sonharia viver apareceu para criticar — não o conteúdo, mas a fórmula. É o velho ditado: uns se encantam com a história, outros apenas com a capa do livro. Mentiria se dissesse que não me importei. Incomodou, sim. Fiquei chateada, zangada, bufei de raiva. Mas chorar? Disso eles não vão ter o gosto.
   Sei que há quem acumule títulos acadêmicos, mas não se equipare àquele que, sem nunca ter frequentado uma universidade, possui uma inteligência superior. Ainda assim, esses "doutores" posam como se obtivessem nota máxima na graduação, embora o boletim de suas atitudes mal alcance a média. Felizmente, posso orgulhar-me de um fato: em minhas experiências práticas, minha nota nunca foi menor do que nove. Enquanto isso, um ou dois, certamente repetentes, julgam-se no direito de apontar o dedo, de forma reprovável, contra o meu trabalho.
   Vão se catar, antes que eu me esqueça. Pronto, desabafei.


25 de out. de 2026

"QUASE 600 MOTIVOS PARA ACREDITAR"

 

   Esses dias, ouvindo um programa de rádio, escutei uma história que ficou na minha cabeça. Sabe quando uma coisa toca tanto a gente que dá vontade de dividir com todo mundo? Foi o que aconteceu comigo.
  Em dezembro de 2017, uma escola de Dallas, no Texas, organizou um café da manhã para cerca de 150 meninos entre 11 e 13 anos. A ideia era reunir homens que pudessem representar uma figura paterna para aqueles que não tinham essa presença em suas vidas. A escola esperava conseguir 50 voluntários. Mas sabe quantos apareceram? Quase 600 homens! Gente, imaginem só! Centenas de pessoas que, sem qualquer obrigação, decidiram dedicar parte do seu tempo a crianças que nem conheciam, oferecendo atenção, carinho e, acima de tudo, disposição para ouvi-las.
  Quando escutei essa história no rádio, fiquei pensando em quantas vezes a gente se acostuma a ouvir notícias ruins e acaba acreditando que as pessoas só pensam nelas mesmas. Mas aí aparecem histórias assim e fazem a gente enxergar as coisas de outro jeito. Eu, com os meus 19 anos, sei que ainda tenho muito para aprender sobre a vida, mas acredito que ninguém deveria crescer achando que não importa para ninguém. Para uma criança, encontrar um adulto disposto a escutá-la, incentivá-la e estar presente pode fazer uma diferença enorme.
   O que mais me emocionou nessa história foi imaginar a surpresa daqueles meninos ao perceberem que tantos desconhecidos tinham aparecido por causa deles. Pense nisso: a escola esperava 50 voluntários e recebeu quase 600! Não eram apenas números. Eram centenas de pessoas dizendo, com uma atitude, que aquelas crianças mereciam atenção.
   A gente não precisa ser herói nem fazer algo extraordinário para melhorar a vida de alguém. Às vezes, basta a presença, oferecer uma palavra de incentivo ou demonstrar que o outro não está sozinho. Com certeza eu ainda não tenho todas as respostas sobre o mundo, mas quero acreditar que a solidariedade continua existindo e que vale a pena cultivá-la. Afinal, se quase 600 homens se mobilizaram para dar atenção a crianças que precisavam de uma referência paterna, talvez ainda tenhamos muitos motivos para acreditar na humanidade.
   E você, já parou para pensar na diferença que poderia fazer na vida de alguém com um gesto simples? Quero saber sua opinião nos comentários. Vá, conte para mim!


20 de out. de 2026

O CORDÃO DE AÇO

 



        Até os dez anos, eu era a sombra da minha mãe. Não fazia um movimento, nem pregava o olho à noite, sem a presença dela. Mas o tempo passa e a gente cria asas: a escola, a pracinha da esquina, as primeiras idas ao cinema... Fui soltando a saia dela e descobrindo o mundo. Com o Joaquim, filho da vizinha, o roteiro parecia o mesmo, mas o filme estacionou no primeiro ato. Hoje, eu vou para onde quero; ele, só se for com a 'mamãe' a tiracolo. A Margô, nossa colega de escola um ano mais nova, era fascinada por ele. Depois de muita insistência, finalmente marcaram um encontro. Margô, ansiosa, chegou cedo à praça de alimentação para garantir a melhor mesa. Não demorou muito para avistar o Joaquim: ele vinha sorridente, mas trazendo a mãe pela mão. O cumprimento foi protocolar — um aperto de mão, dois beijinhos e um silêncio constrangedor da parte dele. Já a mãe... essa não calava. Falava por dois, gesticulava e ditava o tom da conversa, enquanto a pobre Margô baixava a cabeça, incrédula. Após meia hora de monólogo, a mulher pediu licença para ir ao banheiro. Foi o gatilho para a Margô avançar, indignada: — Por que você trouxe ela, Joaquim?! — Porque não tinha com quem deixá-la — ele respondeu, com a maior naturalidade do mundo. — Mas ela não é criança! Qual o problema de ficar sozinha? Não vai me dizer que ela faz tudo com você… até o banho ela vigia? — Isso não! — ele rebateu, ofendido. — Banho, não. Só quando eu saio na rua. — E dormir? Pelo que vejo, você ainda dorme com ela. Estou mentindo? — Bom, isso é verdade. Aliás, meu pai também dorme com a gente! Foi o limite. Margô jogou o guardanapo na mesa com força, chutou a cadeira e saiu batendo o pé, sem olhar para trás. A mãe dele, que já estava de volta e ouviu tudo de braços cruzados, abraçou o filho com os olhos marejados: — Vamos embora, meu filho. Ela não te merece.

15 de out. de 2026

A MEMÓRIA DO CORAÇÃO

 

     Quando o TikTok surgiu, os olhos da minha avó, mãe do meu pai, brilharam de encantamento. Naquela época, o esquecimento já começava a nublar sua mente — fosse pelo Alzheimer, pela demência ou por essa condição dolorosa que rouba as lembranças mais recentes, fazendo o idoso esquecer no jantar o que acabou de comer no almoço.
     Certo dia, com uma curiosidade quase infantil, ela me confessou que queria aprender a mexer naquele "programa". Prontamente, meu coração se encheu de alegria e eu me ofereci para ensinar. Ela fixou os olhos na tela com tanta atenção e doçura que cheguei a acreditar que tinha aprendido. Mas a memória prega peças. Na semana seguinte, ao me ver, perguntou com o mesmo olhar curioso se eu sabia usar aquela novidade. Sorri, disse que sim, e ela, timidamente, pediu que eu a ensinasse. E eu ensinei. Aliás, reensinei. Foram quatro vezes naquele mesmo mês, um ciclo repetido de paciência e afeto.
     Foi quando meu tio, irmão da minha mãe, já falecido, observando de longe, sentou-se ao meu lado e questionou: "Por que você insiste tanto, sabendo que amanhã ela já terá esquecido e vai te perguntar tudo outra vez?
     "Olhei para ele e respondi com toda a certeza do meu peito: "Se ela me perguntar duzentas vezes em um mês, eu estarei aqui as duzentas vezes. Com o mesmo sorriso, o mesmo tom de voz e o mesmo amor, como se fosse a primeiríssima vez. Se o senhor não se lembra, a vovó fez exatamente isso por mim quando eu era uma criança indefesa. Ela desacelerou o próprio passo para que minhas pernas curtas pudessem acompanhá-la. Ela repetiu mil vezes a mesma palavra que eu não conseguia pronunciar e segurou a minha mão em cada oração que eu jamais teria aprendido a rezar sem ela ao meu lado. Agora, é a minha vez de segurar a mão dela.