T R A D U T O R

30 de out. de 2026

A CAPA E A HISTÓRIA

 

  Quando não gostamos de alguém, inventamos desculpas para evitar a pessoa. Quando isso falha, o erro humano nos leva a tentar desmerecê-la. Não digo isso por suposição; digo porque conheço um pouco a natureza humana e já vi esse reflexo no espelho da minha própria penteadeira, quando evitei pessoas que são queridíssimas por muitos, mas que simplesmente não me descem pela garganta. Para não criar atritos desnecessários, prefiro o distanciamento.
   Mas por que perco tempo tentando decifrar a psicologia alheia se mal consigo compreender o meu próprio intelecto? Posso não ser uma teórica, mas eu sinto. E qual é a minha culpa se você gosta de pimenta e eu não? Enquanto ela enriquece o prato de uns, eu prefiro a simplicidade do meu.
   Dias atrás, escrevi um texto na maior descontração. Para minha surpresa, alguém com séculos de dias vividos a mais do que eu jamais sonharia viver apareceu para criticar — não o conteúdo, mas a fórmula. É o velho ditado: uns se encantam com a história, outros apenas com a capa do livro. Mentiria se dissesse que não me importei. Incomodou, sim. Fiquei chateada, zangada, bufei de raiva. Mas chorar? Disso eles não vão ter o gosto.
   Sei que há quem acumule títulos acadêmicos, mas não se equipare àquele que, sem nunca ter frequentado uma universidade, possui uma inteligência superior. Ainda assim, esses 'doutores' posam como se obtivessem nota máxima na graduação, embora o boletim de suas atitudes mal alcance a média. Felizmente, posso orgulhar-me de um fato: em minhas experiências práticas, minha nota nunca foi menor do que nove. Enquanto isso, um ou dois, certamente repetentes, julgam-se no direito de apontar o dedo, de forma reprovável, contra o meu trabalho.
   Vão se catar, antes que eu me esqueça. Pronto, desabafei.


25 de out. de 2026

"QUASE 600 MOTIVOS PARA ACREDITAR"

 

   Esses dias, ouvindo um programa de rádio, escutei uma história que ficou na minha cabeça. Sabe quando uma coisa toca tanto a gente que dá vontade de dividir com todo mundo? Foi o que aconteceu comigo.
  Em dezembro de 2017, uma escola de Dallas, no Texas, organizou um café da manhã para cerca de 150 meninos entre 11 e 13 anos. A ideia era reunir homens que pudessem representar uma figura paterna para aqueles que não tinham essa presença em suas vidas. A escola esperava conseguir 50 voluntários. Mas sabe quantos apareceram? Quase 600 homens! Gente, imaginem só! Centenas de pessoas que, sem qualquer obrigação, decidiram dedicar parte do seu tempo a crianças que nem conheciam, oferecendo atenção, carinho e, acima de tudo, disposição para ouvi-las.
  Quando escutei essa história no rádio, fiquei pensando em quantas vezes a gente se acostuma a ouvir notícias ruins e acaba acreditando que as pessoas só pensam nelas mesmas. Mas aí aparecem histórias assim e fazem a gente enxergar as coisas de outro jeito. Eu, com os meus 19 anos, sei que ainda tenho muito para aprender sobre a vida, mas acredito que ninguém deveria crescer achando que não importa para ninguém. Para uma criança, encontrar um adulto disposto a escutá-la, incentivá-la e estar presente pode fazer uma diferença enorme.
   O que mais me emocionou nessa história foi imaginar a surpresa daqueles meninos ao perceberem que tantos desconhecidos tinham aparecido por causa deles. Pense nisso: a escola esperava 50 voluntários e recebeu quase 600! Não eram apenas números. Eram centenas de pessoas dizendo, com uma atitude, que aquelas crianças mereciam atenção.
   A gente não precisa ser herói nem fazer algo extraordinário para melhorar a vida de alguém. Às vezes, basta a presença, oferecer uma palavra de incentivo ou demonstrar que o outro não está sozinho. Com certeza eu ainda não tenho todas as respostas sobre o mundo, mas quero acreditar que a solidariedade continua existindo e que vale a pena cultivá-la. Afinal, se quase 600 homens se mobilizaram para dar atenção a crianças que precisavam de uma referência paterna, talvez ainda tenhamos muitos motivos para acreditar na humanidade.
   E você, já parou para pensar na diferença que poderia fazer na vida de alguém com um gesto simples? Quero saber sua opinião nos comentários. Vá, conte para mim!


20 de out. de 2026

O CORDÃO DE AÇO

 



        Até os dez anos, eu era a sombra da minha mãe. Não fazia um movimento, nem pregava o olho à noite, sem a presença dela. Mas o tempo passa e a gente cria asas: a escola, a pracinha da esquina, as primeiras idas ao cinema... Fui soltando a saia dela e descobrindo o mundo. Com o Joaquim, filho da vizinha, o roteiro parecia o mesmo, mas o filme estacionou no primeiro ato. Hoje, eu vou para onde quero; ele, só se for com a 'mamãe' a tiracolo. A Margô, nossa colega de escola um ano mais nova, era fascinada por ele. Depois de muita insistência, finalmente marcaram um encontro. Margô, ansiosa, chegou cedo à praça de alimentação para garantir a melhor mesa. Não demorou muito para avistar o Joaquim: ele vinha sorridente, mas trazendo a mãe pela mão. O cumprimento foi protocolar — um aperto de mão, dois beijinhos e um silêncio constrangedor da parte dele. Já a mãe... essa não calava. Falava por dois, gesticulava e ditava o tom da conversa, enquanto a pobre Margô baixava a cabeça, incrédula. Após meia hora de monólogo, a mulher pediu licença para ir ao banheiro. Foi o gatilho para a Margô avançar, indignada: — Por que você trouxe ela, Joaquim?! — Porque não tinha com quem deixá-la — ele respondeu, com a maior naturalidade do mundo. — Mas ela não é criança! Qual o problema de ficar sozinha? Não vai me dizer que ela faz tudo com você… até o banho ela vigia? — Isso não! — ele rebateu, ofendido. — Banho, não. Só quando eu saio na rua. — E dormir? Pelo que vejo, você ainda dorme com ela. Estou mentindo? — Bom, isso é verdade. Aliás, meu pai também dorme com a gente! Foi o limite. Margô jogou o guardanapo na mesa com força, chutou a cadeira e saiu batendo o pé, sem olhar para trás. A mãe dele, que já estava de volta e ouviu tudo de braços cruzados, abraçou o filho com os olhos marejados: — Vamos embora, meu filho. Ela não te merece.

15 de out. de 2026

A MEMÓRIA DO CORAÇÃO

 

     Quando o TikTok surgiu, os olhos da minha avó, mãe do meu pai, brilharam de encantamento. Naquela época, o esquecimento já começava a nublar sua mente — fosse pelo Alzheimer, pela demência ou por essa condição dolorosa que rouba as lembranças mais recentes, fazendo o idoso esquecer no jantar o que acabou de comer no almoço.
     Certo dia, com uma curiosidade quase infantil, ela me confessou que queria aprender a mexer naquele "programa". Prontamente, meu coração se encheu de alegria e eu me ofereci para ensinar. Ela fixou os olhos na tela com tanta atenção e doçura que cheguei a acreditar que tinha aprendido. Mas a memória prega peças. Na semana seguinte, ao me ver, perguntou com o mesmo olhar curioso se eu sabia usar aquela novidade. Sorri, disse que sim, e ela, timidamente, pediu que eu a ensinasse. E eu ensinei. Aliás, reensinei. Foram quatro vezes naquele mesmo mês, um ciclo repetido de paciência e afeto.
     Foi quando meu tio, irmão da minha mãe, já falecido, observando de longe, sentou-se ao meu lado e questionou: "Por que você insiste tanto, sabendo que amanhã ela já terá esquecido e vai te perguntar tudo outra vez?
     "Olhei para ele e respondi com toda a certeza do meu peito: "Se ela me perguntar duzentas vezes em um mês, eu estarei aqui as duzentas vezes. Com o mesmo sorriso, o mesmo tom de voz e o mesmo amor, como se fosse a primeiríssima vez. Se o senhor não se lembra, a vovó fez exatamente isso por mim quando eu era uma criança indefesa. Ela desacelerou o próprio passo para que minhas pernas curtas pudessem acompanhá-la. Ela repetiu mil vezes a mesma palavra que eu não conseguia pronunciar e segurou a minha mão em cada oração que eu jamais teria aprendido a rezar sem ela ao meu lado. Agora, é a minha vez de segurar a mão dela.

10 de out. de 2026

ONDE A NORMA CULTA NÃO DITA REGRAS

 

        Durante uma visita à minha casa, uma amiga me perguntou se a sua presença me incomodava. Questionou isso por causa da "cara amarrada" que eu ostentava — segundo ela. Gente, alguém já passou por uma situação parecida, de se descobrir emburrada sem sequer notar a expressão que fazemos quando estamos assim, chateadas? Eu, pelo menos, senti-me como um bicho desconhecido, sei lá, talvez um monstro, só de imaginar o meu semblante na hora daquela indagação. E tudo por conta de uma bobagem. Vejam só: com aquele visual eu estava, sem perceber, desperdiçando minutos preciosos da minha vida por causa de um comentário imbecil deixado no meu blog.
     Não devia, mas vou responder. Não sem antes lembrar que o que faço no meu blog, fora da escola e após as minhas obrigações, é a forma que elegi para descansar. "Descansar carregando pedra", como diz minha avó. E, se elas são minhas, eu as jogo onde bem entender — ou seja, sem qualquer compromisso com a norma culta. Escrevo como quem descarrega britas no próprio quintal. Contudo, como o "Prof. Dr." ou a "Prof.ª Dra." (para não dar moral ao infeliz) fez questão de enfatizar, o que eu chamo de descontração, o indivíduo confunde com sala de aula. "Sua escrita não tem ritmo próprio!", sentenciou.
     Pois saiba, meu caro ou minha cara doutor(a), que jamais deixarei de brincar com as palavras por sua causa. Afinal, o meu propósito aqui não é o mesmo que o seu. Aliás, tempo é o que não me falta para escolher, entre tantos caminhos — inclusive o seu —, a melhor forma de escrever igual ou, quem sabe, muito melhor que VOCÊ.
     Quero deixar claro, evidente e sob a luz dos refletores da razão, que não sou cotista, não sou filha de alguém influente e não ganhei bolsa em troca de favores. O que sou é uma simples estudante. Daquelas que dormem sobre os cadernos e gastam sola de sapato, tempo e suor em busca do futuro que determinei para mim. Não importa se tirei nota mil na redação, se acertei 99% das questões ou apenas o suficiente para o Enem me aprovar. O que importa, de verdade, é ser a garota que, aos 14 anos e cursando o primeiro ano do ensino médio, conseguiu alcançar a meta que tracei.
     Obviamente, não disse nada disso para a minha amiga. O que fiz, na realidade, foi correr ao banheiro para ver no espelho o rosto que o (a) infeliz tinha deixado em mim.