T R A D U T O R

28 de fev. de 2026

O SILÊNCIO POR TRÁS DA JANELA

 



        O susto veio de repente: ele sentiu que não estava bem. Foi ao médico que o mandou à mesa de cirurgia. Seguiu-se uma fisioterapia lenta e penosa, mas quando parecia que o pior havia passado, surgiu a necessidade de uma nova intervenção, ainda mais delicada. A cirurgia, tecnicamente, foi um sucesso; o problema, foram as complicações pós-operatórias. Uma sequência de infecções oportunistas o manteve confinado ao hospital por 17 dias intermináveis.
Hoje, ele está recuperado, pelo menos tenta provar, mas carrega o peso do julgamento alheio. Amigos e parentes não perdoam o seu sumiço, ignorando que o silêncio era a sua forma de lutar. Ele nunca foi de dividir o fardo; quando o estado era crítico, ele se calava. Quando falava, mentia por pudor: “Está tudo beleza”, dizia, enquanto o corpo tentava se reconstruir.
Por isso, minha alegria foi imensa quando ele decidiu, finalmente, “pôr a cara na janela”. E ele não apenas gritou que estava bem; ele provou. Ver sua vitalidade de volta é o melhor atestado de cura que ele poderia apresentar. Que bom ter você de volta, meu amigo! Que bom!

24 de fev. de 2026

A NOITE QUE SE FEZ LUZ: UM RELATO DE CORAGEM.

 



 
  Queria publicar este texto, Rô, mas não o farei para não assustar meus leitores. Se não se importar, publique no seu, mas não diga meu nome. Obrigado, te amo e, como você costuma dizer: tamo junto!
                     
  
  "Enfrentei o bisturi por duas vezes e enfrentarei outras duas nos próximos dias. Tudo sem maldizer a sorte ou questionar o destino. Fiz e farei do meu recolhimento um santuário pessoal, falando apenas a língua da cura e do silêncio que restaura.
Mesmo no auge da fragilidade, quando as rédeas da vida mudaram de mãos, o sorriso não se despediu do meu rosto. Fiz questão de que o brilho nos meus olhos fosse a imagem mais viva de esperança para quem me olhasse.
Aos que caminham comigo, reafirmo: amei e amo cada um com a entrega de quem sempre deu o máximo. Não por dever, mas por um amor que se antecipa, que lê os desejos e preenche os vazios antes mesmo que algo seja pedido. Se a vida me conceder o amanhã — e o depois —, eles serão, como sempre foram, inteiramente dedicados a vocês. Minha coragem é a minha maior entrega".

 (Não resisti ao pedido do amigo e acabei publicando).



20 de fev. de 2026

CINZAS

 


    A melhor Quarta-Feira de Cinzas da minha vida não teve nada de “cinza”, mas daquele pozinho brilhante que insiste em não sair do corpo da gente. Isso teve bastante. E aquele som da bateria gostoso que não me sai da cabeça. Não sabia que de perto contagiasse daquele jeito. Pela manhã, acordei com o sol lambendo meu rosto e eu não tinha pressa nenhuma em me levantar. Essa quarta-feira foi o marco da liberdade para quem tem a idade que tenho: imagina sobreviver à maratona dos desfiles que, querendo ou não, leva uma noite inteira, a madrugada e uma parte da manhã seguinte. A mistura de sensações é o que torna esse dia o melhor de todos. É como ressaca, mas não de bebida ou de drogas, mas de alegria. Satisfação de ter gastado, da melhor forma possível, cada gota de energia. Imagina a pessoa abrir a galeria do celular e ver que os vídeos que fez estão todos borrados, que as risadas com gente que nunca viu antes se tornaram melhores amigos por cinco ou dez minutos. E aquela luz maravilhosa na ponta da Sapucaí quando amanhece, hein!
De qualquer forma, tento e levanto, tomo um suco e saio para me despedir da turma que me espera sentada lá fora. É o encontro dos Resistentes: o encontro da despedida — e a gente sabendo que, mesmo a festa tendo acabado, a nossa energia é a mesma de três dias atrás.
O Carnaval não é só festa, como costumam falar, mas um rito. Para mim, por exemplo, foi o batismo da maioridade.
Quarta-feira de Cinzas é quando notamos que o ano não começou, mas continuamos com a força que só quem brincou os três dias entende. É a certeza de que, no próximo ano, tudo se repetirá, mas você nunca sentirá as mesmas emoções que hoje.


12 de fev. de 2026

JÁ É, FUI!

 


      Quando fiz intercâmbio, a maioria dos brasileiros da escola não era do Rio. Eles viviam rindo do meu sotaque: 'Carioca fala muito engraçado!'. Mal sabiam eles que nossa fala foi prestigiada em congressos nacionais de 1937 e 1956, sendo comparada à imposição de voz do teatro. Eles zoavam porque trocamos o 'E' pelo 'I' (como em discansar) e o 'O' pelo 'U' (tumáti vermêlhu). No Rio, ninguém fala biscoito, fala 'bixcoito'. A gente estica o som com um 'i' extra em treix e arroix, ou enfia um 'u' no douze. E o nosso 'R' arrastado na porrrta? Era o motivo da piada. Mas a verdade é que o carioca articula as consoantes como ninguém, abrindo bem a boca para falar. Nunca me importei, pois, se quiserem, podem rir à vontade; eu tenho é orgulho desse nosso jeito!

7 de fev. de 2026

FÉRIAS DE CARNAVAL

 


    A grandeza do desfile das escolas na Sapucaí é incomparável. Ali, discussões e empurrões tornam-se irrelevantes perto da alegria de um povo que trabalha até 12 horas por dia em troca de 'merreca'. É revoltante ver a inflação corroer o salário enquanto o governo assiste passivamente; se sabem que o valor vai cair, por que não se antecipam no reajuste? Mas, voltando ao assunto, se as férias descansam o corpo, a festa alimenta a alma. Nos dias em que fui assistir ao desfile, confesso que o saldo foi positivo, apesar dos momentos de tensão, lidei com beijos não permitidos, abraços forçados e cantadas invasivas. Precisei xingar e até ameaçar chamar a polícia em um dado momento. O fato de uma mulher gostar de se sentir admirada não dá a ninguém o direito de ser atrevido ou violento. Uma coisa é o prazer de ser olhada; outra, completamente diferente, é a invasão de espaço que não permitimos e com a qual jamais concordaremos. A experiência marcante do ano passado só foi possível graças aos contatos do meu pai, que conseguiu os convites para o camarote. Meu trabalho agora é convencê-lo a me deixar aproveitar as próximas noites, uma vez que os convites ele já os tem.