No feriado passado, meu pai levou a mim e a minha mãe à casa da minha avó.
Foi uma das melhores coisas que me aconteceram este ano. Descansei a cabeça, vi a horta de onde vovó tira os temperos e o verde das saladas e, como de costume, ela nos contou mais uma de suas bonitas histórias. Vou tentar passar para vocês:
Um imigrante italiano tinha um hotel em Guaporé, no Rio Grande do Sul, famoso pela comida farta e generosa. O ônibus que vinha da capital sempre parava ali para o almoço. Em um sábado, três ônibus vindos do interior encostaram. Todos os passageiros desceram para comer, menos um adolescente. Ele continuou sentado, com a cabeça encostada na janela.
O hoteleiro, um homem de coração gigante, percebeu e se perguntou: "Será que ele não gostou daqui? Será que já almoçou? Por que não desceu?". Ele subiu no ônibus e questionou o jovem:
— Por que você não desceu com os outros?
O rapaz, de sobrancelhas espessas, respondeu timidamente:
— Gastei tudo na passagem.
Ele estudava no Centro Técnico Agrícola em Viamão e estava viajando para Carazinho, onde morava sua família. Não tinha um centavo no bolso.
O italiano puxou o jovem pelo braço e decretou:
— Ninguém passa fome em Guaporé!
Sentou o garoto na cabeceira da mesa e serviu um prato suntuoso: arroz, feijão, bifes na chapa, massa e aquele ovo perfeito, com a gema mole. O jovem limpou o prato. A timidez deu lugar ao sorriso e à conversa — ele havia sido transformado pelo acolhimento. Ao final, o italiano ainda lhe garantiu uma segunda rodada. O jovem já estava rindo — porque a gente só ri de verdade depois que ganha intimidade.
Quem se tornou esse jovem? — perguntou minha vó. Leonel Brizola — meu pai respondeu. Ele viria a ser governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro. E o que Brizola fez em seus mandatos? — continuou minha avó: Criou as escolas de tempo integral com refeições garantidas para as crianças (os CIEPs).
— A verdade é que você só faz aquilo que já faltou na sua vida — disse ela ao deixar a mesa para fazer o café.
Vovó nos deu uma profunda lição sobre o acolhimento. Esse episódio marcante da juventude de Leonel Brizola, que eu não conhecia, realmente moldou quem ele viria a se tornar. Órfão de pai e de origem extremamente humilde, como descobri em pesquisas, ele sentiu na pele a fome e a falta de oportunidades antes de conseguir se formar em engenharia e, mais tarde, tornar-se o político que foi.
Dei aquele sorriso para o meu pai e, pegando a mão da minha mãe, falei para a vovó do orgulho que eu tinha das suas conversas.




