T R A D U T O R

20 de fev. de 2026

CINZAS

 


    A melhor Quarta-Feira de Cinzas da minha vida não teve nada de “cinza”, mas daquele pozinho brilhante que insiste em não sair do corpo da gente. Isso teve bastante. E aquele som da bateria gostoso que não me sai da cabeça. Não sabia que de perto contagiasse daquele jeito. Pela manhã, acordei com o sol lambendo meu rosto e eu não tinha pressa nenhuma em me levantar. Essa quarta-feira foi o marco da liberdade para quem tem a idade que tenho: imagina sobreviver à maratona dos desfiles que, querendo ou não, leva uma noite inteira, a madrugada e uma parte da manhã seguinte. A mistura de sensações é o que torna esse dia o melhor de todos. É como ressaca, mas não de bebida ou de drogas, mas de alegria. Satisfação de ter gastado, da melhor forma possível, cada gota de energia. Imagina a pessoa abrir a galeria do celular e ver que os vídeos que fez estão todos borrados, que as risadas com gente que nunca viu antes se tornaram melhores amigos por cinco ou dez minutos. E aquela luz maravilhosa na ponta da Sapucaí quando amanhece, hein!
De qualquer forma, tento e levanto, tomo um suco e saio para me despedir da turma que me espera sentada lá fora. É o encontro dos Resistentes: o encontro da despedida — e a gente sabendo que, mesmo a festa tendo acabado, a nossa energia é a mesma de três dias atrás.
O Carnaval não é só festa, como costumam falar, mas um rito. Para mim, por exemplo, foi o batismo da maioridade.
Quarta-feira de Cinzas é quando notamos que o ano não começou, mas continuamos com a força que só quem brincou os três dias entende. É a certeza de que, no próximo ano, tudo se repetirá, mas você nunca sentirá as mesmas emoções que hoje.


12 de fev. de 2026

JÁ É, FUI!

 


      Quando fiz intercâmbio, a maioria dos brasileiros da escola não era do Rio. Eles viviam rindo do meu sotaque: 'Carioca fala muito engraçado!'. Mal sabiam eles que nossa fala foi prestigiada em congressos nacionais de 1937 e 1956, sendo comparada à imposição de voz do teatro. Eles zoavam porque trocamos o 'E' pelo 'I' (como em discansar) e o 'O' pelo 'U' (tumáti vermêlhu). No Rio, ninguém fala biscoito, fala 'bixcoito'. A gente estica o som com um 'i' extra em treix e arroix, ou enfia um 'u' no douze. E o nosso 'R' arrastado na porrrta? Era o motivo da piada. Mas a verdade é que o carioca articula as consoantes como ninguém, abrindo bem a boca para falar. Nunca me importei, pois, se quiserem, podem rir à vontade; eu tenho é orgulho desse nosso jeito!

7 de fev. de 2026

FÉRIAS DE CARNAVAL

 


    A grandeza do desfile das escolas na Sapucaí é incomparável. Ali, discussões e empurrões tornam-se irrelevantes perto da alegria de um povo que trabalha até 12 horas por dia em troca de 'merreca'. É revoltante ver a inflação corroer o salário enquanto o governo assiste passivamente; se sabem que o valor vai cair, por que não se antecipam no reajuste? Mas, voltando ao assunto, se as férias descansam o corpo, a festa alimenta a alma. Nos dias em que fui assistir ao desfile, confesso que o saldo foi positivo, apesar dos momentos de tensão, lidei com beijos não permitidos, abraços forçados e cantadas invasivas. Precisei xingar e até ameaçar chamar a polícia em um dado momento. O fato de uma mulher gostar de se sentir admirada não dá a ninguém o direito de ser atrevido ou violento. Uma coisa é o prazer de ser olhada; outra, completamente diferente, é a invasão de espaço que não permitimos e com a qual jamais concordaremos. A experiência marcante do ano passado só foi possível graças aos contatos do meu pai, que conseguiu os convites para o camarote. Meu trabalho agora é convencê-lo a me deixar aproveitar as próximas noites, uma vez que os convites ele já os tem.

4 de fev. de 2026

MUDANÇA DE COMPORTAMENTO.

 




         Algumas pessoas falam sobre mim, me qualificam como indecisa, como se eu me importasse. Na realidade, sou bastante indecisa, nem sempre tenho certeza sobre o que gosto ou desejo realizar. Algumas vezes, acredito que sou alienada ou algo do tipo. Admiro com paixão o mundo onde vivo, a vida que tenho e a natureza que me sustenta. Quando tiro para pensar, eu penso demais, imagino demais, analiso demais, concluo demais e, em poucos minutos, mudo de opinião. Diariamente surgem novas ideias em minha cabeça, o que me faz compreender que sou constantemente inconstante. Também, gosto de falar sobre coisas que as pessoas não se importam. Quando começo, só paro quando alguém me belisca. Estou pouco me importando com os assuntos fúteis que circulam entre as garotas, se eles não conduzem ninguém a lugar algum. Na verdade, eu gosto de ser dessa forma. Não me preocupa muito se isso faz com que as pessoas se afastem de mim. Não mesmo!
Possivelmente, não tenho certeza do que desejo para minha vida, afinal, quem sabe, com a idade que tenho? Na minha idade, você tinha certeza?
Em algumas ocasiões, penso que posso ter um surto com essas pessoas ao meu redor. Essas que se vão e reaparecem a cada instante. Eu também sou assim. Tem vez que acho a escola boa demais e, ao mesmo tempo, muito ruim.
Pronto, senhora analista. Falei tudo, conforme a senhora pediu!

30 de jan. de 2026

O DUETO DO QUINTAL

 


     Parece que o Sr. Antônio, mais conhecido como 'Bunda-de-macaco', esqueceu que o Carnaval acontece em fevereiro e não o ano inteiro. Ah, se eu tivesse coragem… Minha vontade é escancarar a janela e berrar para o bairro todo ouvir: — 'Cala a boca, Bunda-de-macaco do cacete!'. Gente, todas as noites é o mesmo roteiro. O sujeito enche a cara e, mal coloca os pés em casa, desanda a cantar. Não satisfeito com o gogó, ele ainda arruma um balde para batucar o resto da madrugada. O resultado? O prédio inteiro, e metade do bairro, passa a noite em claro com a barulhada. A casa dele dá fundos para o meu edifício, então o eco da 'percussão' é um pesadelo. Ele jura que só solta a voz quando bebe — o que, na prática, significa todos os dias. Segundo ele, o show é uma tática para abafar o esporro que leva da mulher. Mas a estratégia é furada: Dona Saci, a 'Mulher do Cachimbo', tem a paciência mais curta que pavio de bomba. Em vez de lavar a roupa suja entre quatro paredes, ela prefere soltar os cachorros ali mesmo, no quintal, para todo mundo ouvir. Não há sono profundo que resista a esse dueto de gritos e batucada de balde. Se eu fosse um tiquinho mais atrevida, botava a cara no vento e soltava o verbo: — 'Ô, seu babaca! Para com essa p**** agora ou eu mesma chamo a polícia!'. Mas, infelizmente, a civilidade vence. Eu só penso, fervo por dentro e continuo em silêncio… enquanto o Bunda-de-macaco segue com seu show.