T R A D U T O R

11 de jun. de 2026

RÓTULO, LIBERDADE E SAUDADE.

 

      Gente, papo reto aqui com vocês hoje. Tava lembrando de uma parada que aconteceu na minha festa de 18 anos e me deu uma vontade absurda de compartilhar. É sobre aquela minha amiga que partiu, sabe? Duas semanas antes de ela nos deixar, a gente tava comemorando meu aniversário e ela tinha acabado de voltar de uma cirurgia boba.
     No meio da festa, ela sentou comigo e me contou o que rolou no quarto do hospital, enquanto esperava a operação. Entrou um casal de voluntários e perguntou se podia orar por ela. Minha amiga, super de boa, falou que sim. Aí começou o interrogatório dos rótulos:
— Você é católica? — o rapaz perguntou.
— Não — ela mandou.
— Ah, então você é evangélica, né? — a moça quis saber.
— Também não — respondeu ela. 
     O cara já meio confuso insistiu: — Mas qual é a tua religião, então?
     Aí minha amiga deu o papo mais visionário de todos:
— Nenhuma. Inclusive, lá no livro de Tiago diz que a verdadeira religião é se manter longe da corrupção do mundo e visitar os órfãos e os viúvos nas suas aflições. Diante disso, pra que eu preciso de um rótulo?
     Mano, o casal simplesmente travou. Ficaram sem fala.
     Minha amiga me olhando e dizendo: "Cara, eles não conseguem entender a liberdade. A mente deles funciona na base de um roteiro, tipo "eu sou da religião X, você é da Y". 
     Ninguém precisa de religião, gente! O mundo precisa de sentimento bom, de amor, de paz, de ser livre. É só disso que a gente precisa".
     Ela me disse que viu na cara deles o quanto o discurso da liberdade é perturbador pra quem tá com a mente presa em dogmas. Olharam pra ela quase como se fosse uma abominação, sendo que o próprio livro que eles seguem prega exatamente o que ela falou. Por isso ela fechou o papo comigo dizendo: "Papo sério, se você vai seguir uma religião, no mínimo leia o livro dela pra entender o que tá fazendo".
     Na hora, eu não consegui falar nada. Só sorri, dei o abraço mais apertado do mundo nela e guardei aquilo no coração.
     Hoje, dois meses depois que você se foi, escrevo isso com os olhos cheios de d'água e uma saudade que aperta o peito.
      Você era gigante e livre demais pra esse mundo, amiga.
      Descanse em paz.

6 de jun. de 2026

KÁTIA FLÁVIA, A GODIVA DO IRAJÁ.

 

      Caraca, tu já parou pra pensar na força das mulheres que vivem lá na região serrana? Papo reto, geral saber que aquela área é o polo da moda íntima, mas quem segura esse rojão de verdade são as costureiras. É uma correria insana.
    Eu conheci uma história de uma moradora de lá que me deixou de cara: a da Tatiane Neri. Mano, a mulher é mãe solo e é o puro suco do que é ser guerreira. Ela acorda de madrugada naquele frio bizarro da serra e bota a cara no trabalho em tempo integral. O relógio nem bateu seis da manhã e a bicha já tá no pique da produção. E ó, o filho dela já tá um rapazinho, o maior orgulho dela, super bem cuidado. Mas não acha que ela é só trabalho não, hein? Mesmo com essa rotina maluca, a Tati ainda arruma tempo para se divertir, curtir a vida e dar umas risadas. Acho isso foda demais!
     Ah, e tem uma parada muito bonita que tá rolando com ela ultimamente. Me contaram que a Tati tem sido vista direto com um senhor bem mais velho. Mas ó, o papo deles é de outro nível, pura troca de conhecimento. Ela senta com ele e desabafa sobre como têm sido os dias dela, a correria da costura, as paranoias da vida. E o coroa? Mó respeito. Ele escuta tudinho, superatento, e em vez de ficar cagando regra ou dizendo o que ela deve fazer — até para não influenciar as decisões dela —, ele faz o oposto. Ele vai pontuando os caminhos que ela não deve seguir, saca? Mostra onde tão os perigos e os riscos para ela não se estrepar. Achei isso genial, uma mentoria de vida de verdade. Mulherão com um anjo da guarda do lado, né?
     Papo sério, ouvir tudo isso daqui, de onde eu moro, me deu uma vontade absurda de descobrir em que ponto da serra fica esse pico tão famoso. Queria muito brotar por lá para ver de perto como são feitas essas costuras e trocar uma ideia com essa mulher. Porque ela, pelo que a gente nota, é pura inspiração! E o coroa também, né? Que baita parceiro de vida!

4 de jun. de 2026

A AULA DA RÔ

 



           O ar-condicionado do laboratório lutava pra sobreviver enquanto o Professor, veterano da Computação, já pensava em jogar a toalha. O projeto era um sistema de monitoramento em tempo real que, do nada, começava a fazer um barulho estranho. Eu já tinha lido sobre isso e até pesquisei o assunto a fundo, mas não imaginava que veria acontecer ao vivo, e logo na frente da minha turma.
     Todos na sala diziam, rindo, que o ruído era o hardware pedindo arrego. Mas eu, no auge do meu 4º período e com a vivência de quem pega metrô lotado todo dia, sentia que ali tinha algo mais; a teoria que eu tinha estudado não saía da minha cabeça.
— Gente, já trocamos os cabos, já aterramos a carcaça. É defeito de fabricação — disse o professor, limpando o suor da lente dos óculos.
— Professor! — falei, levantando a mão. — O senhor está olhando pro fio, mas o erro tá no tempo. Olha aqui. Chamei o professor pro monitor.
     Eu não tava usando o programa padrão da aula; tinha montado um rastreador próprio, baseado no artigo de uma faculdade americana, que usei pra vigiar cada movimento do sistema em tempo real. Enquanto os "gênios" da turma tentavam otimizar o cálculo de busca, eu percebi que o sistema tava entrando em um tremendo "nó cego" (o tal do deadlock) por causa de uma prioridade mal configurada na fila de tarefas.
     (Era exatamente o que eu tinha lido).
— O problema é que o sistema é "educado" demais — expliquei, apontando pro código. — Ele tá dando passagem pra todo mundo, aí a área de espera enche e o processo principal trava. Ele não tá quebrado, mestre, ele tá engarrafado. Igual à Linha Vermelha às seis da tarde!
     A galera em volta parou pra olhar.
   Fiz o que ninguém tinha coragem: criei um atalho na prioridade padrão da biblioteca que a faculdade usava há décadas. Foi um "puxadinho" lógico, seguindo a explicação do artigo.
— Se liga na mágica.
     Dei o enter, torcendo para a teoria estar certa.
    O terminal, que antes parecia um filme dos trapalhões dando erro, estabilizou. Os dados começaram a fluir bonitinho. Um minuto, cinco minutos, meia hora... e a temperatura da máquina até baixou.
    O professor coçou a cabeça, sem tirar os olhos da tela por uns três minutos, mudo.
— Você reescreveu a gerência de fila da biblioteca, Rô? Isso nem tá na ementa desse semestre!
— Pois é, professor. É que lá onde eu moro, se a gente não der um empurrãozinho no ônibus, a gente não chega em casa. O código só precisava desse mesmo empurrão pra sair do lugar.
    Ele riu e balançou a cabeça, orgulhoso. — Cuidado, hein? Desse jeito você acaba se formando antes da hora!

30 de mai. de 2026

LIMITES, BOM SENSO E REALIDADE

 

       A internet aproxima as pessoas, mas às vezes confunde os limites. É muito comum ver criadoras de conteúdo como eu, que dividem o tempo entre a faculdade, a família e as postagens, enfrentando uma situação bem cansativa: o excesso de caras que chegam se dizendo amigos, mas com o único objetivo de dar em cima das garotas. Isso desanima. Seria compreensível se houvesse abertura, reciprocidade ou uma pequena esperança, o que não é o meu caso e muito menos o dos casos que me contaram. Mas a realidade, para mim e para as pessoas às quais me refiro, é direta: nós não queremos, não temos tempo e não vamos nos envolver com ninguém da internet — mesmo que no futuro paguemos a língua.
          O blog existe, principalmente o "Diário" e o "delas", para falar de ideias, não para ser aplicativo de relacionamento. Trazer isso a público não é para chamar atenção ou me vangloriar, mas para lembrar que amizades com segundas intenções estragam o propósito do espaço. Que o foco em nossas páginas possa continuar sendo o conteúdo e o respeito mútuo.

25 de mai. de 2026

EQUILIBRANDO A ÁRVORE E O DESTINO

 


      Estou no segundo período de Engenharia da Computação e, se o primeiro foi sobre sobreviver ao choque de realidade, o segundo é sobre marcar território.
     Naquela manhã de terça, a sala de aula parecia um pouco mais fria. Eu era a única menina preta ali, sentada na segunda fileira, com meu notebook cheio de adesivos de comunidades de tecnologia e um escrito 'Linux Is Life' que meu pai me deu.
     O professor de Estruturas de Dados — um cara que parecia que não dormia há um ano — jogou o desafio no projetor: implementar uma Árvore AVL que se auto-balanceasse em tempo recorde.
      Olhei para o lado. Os veteranos que estavam cursando a matéria pela terceira vez cochichavam, cheios de marra. Eu? Respirei fundo. Abri o terminal. O cursor piscando no modo insert do Vim parecia me desafiar.
— "Rô, foca na lógica de rotação à esquerda", pensei, ajustando meus fones de ouvido que descansavam ao meu lado, na mesa.
      Enquanto a maioria se batia com erros de segmentação e ponteiros perdidos, comecei a desenhar a lógica no meu caderno. Meus dedos, de unhas curtas, dançavam no teclado mecânico. Eu sentia os olhares. Às vezes, um olhar de dúvida; outras, aquela surpresa mal disfarçada de "como ela sabe o que está fazendo?".
      Eu não era apenas uma estudante; era uma engenheira em construção em um ambiente que, historicamente, não foi projetado para o meu gênero, nem para o meu tom de pele.
— Alguém conseguiu evitar o overhead na inserção? — o professor perguntou, circulando com as mãos nas costas.
      Dei o comando de compilação. Nenhum aviso. Nenhum erro. Rodei o teste de estresse e a árvore se equilibrou como uma bailarina. Ergui a mão.
— Professor, se a gente tratar o fator de balanceamento logo após a recursão, o código fica linear. Eu rodei aqui e a complexidade bateu com o esperado.
      O silêncio que se seguiu não era de dúvida, era de reconhecimento. O professor chegou perto, olhou as linhas de código comentadas e limpas.
— Excelente, Rô. Você usou uma abordagem de otimização que eu só esperava ver no quarto período.
     Voltei para a minha tela, com um sorrisinho de canto de boca. Eu não estava ali para ser "a exceção". Estava ali para ser a regra. 
     No segundo período, eu já tinha entendido: meu código era minha voz, e ele estava saindo alto e claro.

      "Tô muito metida, tô não?"