T R A D U T O R

30 de mai. de 2026

LIMITES, BOM SENSO E REALIDADE

 

       A internet aproxima as pessoas, mas às vezes confunde os limites. É muito comum ver criadoras de conteúdo como eu, que dividem o tempo entre a faculdade, a família e as postagens, enfrentando uma situação bem cansativa: o excesso de caras que chegam se dizendo amigos, mas com o único objetivo de dar em cima das garotas. Isso desanima. Seria compreensível se houvesse abertura, reciprocidade ou uma pequena esperança, o que não é o meu caso e muito menos o dos casos que me contaram. Mas a realidade, para mim e para as pessoas às quais me refiro, é direta: nós não queremos, não temos tempo e não vamos nos envolver com ninguém da internet — mesmo que no futuro paguemos a língua.
          O blog existe, principalmente o "Diário" e o "delas", para falar de ideias, não para ser aplicativo de relacionamento. Trazer isso a público não é para chamar atenção ou me vangloriar, mas para lembrar que amizades com segundas intenções estragam o propósito do espaço. Que o foco em nossas páginas possa continuar sendo o conteúdo e o respeito mútuo.

25 de mai. de 2026

EQUILIBRANDO A ÁRVORE E O DESTINO

 


      Estou no segundo período de Engenharia da Computação e, se o primeiro foi sobre sobreviver ao choque de realidade, o segundo é sobre marcar território.
     Naquela manhã de terça, a sala de aula parecia um pouco mais fria. Eu era a única menina preta ali, sentada na segunda fileira, com meu notebook cheio de adesivos de comunidades de tecnologia e um escrito 'Linux Is Life' que meu pai me deu.
     O professor de Estruturas de Dados — um cara que parecia que não dormia há um ano — jogou o desafio no projetor: implementar uma Árvore AVL que se auto-balanceasse em tempo recorde.
      Olhei para o lado. Os veteranos que estavam cursando a matéria pela terceira vez cochichavam, cheios de marra. Eu? Respirei fundo. Abri o terminal. O cursor piscando no modo insert do Vim parecia me desafiar.
— "Rô, foca na lógica de rotação à esquerda", pensei, ajustando meus fones de ouvido que descansavam ao meu lado, na mesa.
      Enquanto a maioria se batia com erros de segmentação e ponteiros perdidos, comecei a desenhar a lógica no meu caderno. Meus dedos, de unhas curtas, dançavam no teclado mecânico. Eu sentia os olhares. Às vezes, um olhar de dúvida; outras, aquela surpresa mal disfarçada de "como ela sabe o que está fazendo?".
      Eu não era apenas uma estudante; era uma engenheira em construção em um ambiente que, historicamente, não foi projetado para o meu gênero, nem para o meu tom de pele.
— Alguém conseguiu evitar o overhead na inserção? — o professor perguntou, circulando com as mãos nas costas.
      Dei o comando de compilação. Nenhum aviso. Nenhum erro. Rodei o teste de estresse e a árvore se equilibrou como uma bailarina. Ergui a mão.
— Professor, se a gente tratar o fator de balanceamento logo após a recursão, o código fica linear. Eu rodei aqui e a complexidade bateu com o esperado.
      O silêncio que se seguiu não era de dúvida, era de reconhecimento. O professor chegou perto, olhou as linhas de código comentadas e limpas.
— Excelente, Rô. Você usou uma abordagem de otimização que eu só esperava ver no quarto período.
     Voltei para a minha tela, com um sorrisinho de canto de boca. Eu não estava ali para ser "a exceção". Estava ali para ser a regra. 
     No segundo período, eu já tinha entendido: meu código era minha voz, e ele estava saindo alto e claro.

      "Tô muito metida, tô não?"




20 de mai. de 2026

VERDADE CUSPIDA NA CARA

 

      Olha só, papo sério: a senhora chegou pra mim, assim, do nada, cuspindo as palavras na minha cara: "Por que você, que é preta, tem que citar sua cor em toda conversa? Não acha que tá obrigando a gente a te aceitar?"
       Gente, eu nem conhecia a mulher, nem tava falando com ela! Mas deixa eu explicar uma coisa que parece que esse povo não entende. Quando eu falo da minha cor, não é só sobre "reafirmar identidade" ou "estratégia contra o racismo" — embora seja isso também. É, acima de tudo, pra dar liberdade pro outro.
      Eu falo pra deixar quem tá comigo à vontade. Pra pessoa saber que pode citar minha cor sem medo, sem aquele pisar em ovos achando que vai me ofender. Eu quero transparência, sabe? Porque, na boa, do que adianta me tratar com aquele "respeito" forçado na frente, se pelas costas a pessoa destila preconceito? Do que adianta o beijinho no rosto se o olhar é de julgamento?
     É disso que eu tô falando quando trago minha cor pra conversa. Eu só quero ser tratada com o mesmo respeito que eu tenho pelos outros. Gente, eu pago os mesmos impostos altíssimos que todo mundo — dinheiro que eu podia tá usando pra viajar, pra ir num teatro, mas que vai pra manter essa sociedade que cobra o tempo todo da gente.
     Ninguém corre mais do que eu pra mostrar a que veio. Eu sou o que sou e não admito que ninguém venha me dizer como eu devo me comportar ou falar da minha própria pele. Se eu falo, é pra gente ter verdade. O resto? O resto é só barulho de quem não entende nada de liberdade.

16 de mai. de 2026

QUE PENA, JÁ ERA!

 

        É curioso como as afinidades se desgastam, né? No caso desses dois, parece que a saturação chegou com força. O blogueiro, coitado, nem é mal sujeito, mas tem hora que consegue ser mais pé no saco do que qualquer um. E se me perguntarem como eu sei disso? Bom, juntando um "ouvi dizer" daqui com um comentário dali, não foi difícil deduzir o cenário. Eles são bem parecidos, na verdade. O blogueiro fala pelos cotovelos quando quer, e ela não fica nem um pouco atrás. O problema é que agora, por mais parecidos que sejam, os dois bicudos já não se beijam. Antes, a sintonia era total, pareciam dois tatus, um "cheirando o rabo do outro", como diz o meu pai, mas o tempo é implacável e a amizade, infelizmente, passou. Hoje os caminhos são bem distintos: ela mergulhou na rotina dos filhos, netos, marido e na vida do bairro. Já ele segue focado no blog e nas aventuras que insiste em dizer que vive.
    Como sou amiga de ambos, é com tristeza que vejo esse silêncio ensurdecedor entre eles. 
      Estão lá, cada um no seu canto, esperando que o outro dê o primeiro passo — ou talvez, quem sabe, o último já tenha sido dado e nós apenas não queiramos aceitar. Enfim...


13 de mai. de 2026

O VERBO COMO ARMA

 

      A África é um berço de sons e palavras, um lugar onde se fala mais de 2.000 línguas diferentes. Quando os nossos antepassados foram trazidos à força para o Brasil, tentaram calar suas vozes, mas o coração deles continuou a falar. Para se entenderem e se unirem, eles criaram pontes: usavam gestos, repetiam palavras e contavam com a ajuda dos que já conheciam o português para traduzir o mundo novo que os cercava.
     Uma dessas línguas, muito presente no solo da Bahia, é o Iorubá (também conhecido como Nagô). Vinda de terras que hoje chamamos de Nigéria e Benin, ela era muito mais que um jeito de falar; era o fio de ouro que mantinha vivas as rezas, os costumes e a alma de um povo. É por causa dessa resistência que hoje a cultura brasileira é tão rica e bonita.
     Guardamos no coração uma herança que atravessou os mares e as gerações: a frase iorubá "Wọn ń fi inúnibíni sí wa, wọn ń pọ́n wa lójú, wọn ń fi ebi pa wa". Ela ecoa um grito que o tempo não apagou:
    "Eles nos perseguem, nos fazem sofrer e nos deixam com fome". Lembro da minha avó hesitando antes de falar, os olhos marejados refletindo uma dor que não era só dela, mas de todos os nossos que vieram antes. Aquela hesitação era um abraço de proteção; uma cicatriz de família que ainda pede o carinho do nosso silêncio. Naqueles tempos difíceis, os poderosos tratavam gente como se fosse mercadoria ou animal — algo que hoje a justiça não aceitaria, pois sabemos que o racismo e a tortura são crimes graves que não podem ser perdoados. 
     A política da época era feita para proteger apenas os grandes fazendeiros, esquecendo-se das outras pessoas. Como diz meu pai: "Os burros são os mesmos, só mudam os carroceiros".  É um lembrete de que, embora o tempo passe, precisamos estar atentos para que o povo não continue sendo esquecido.
     Mas, em meio à escuridão, brilharam luzes de coragem. Como a história de Esperança Garcia. Ela aprendeu a ler e escrever com os jesuítas e, com a ponta da pena, escreveu ao Governador do Piauí denunciando os maus-tratos e a dor de ser separada de seus filhos, mas também exigiu respeito.
     Essa carta é hoje considerada a primeira petição, no Brasil, feita por uma mulher. 
     Por sua bravura, Esperança é reconhecida pela OAB como a primeira advogada do estado, um símbolo eterno de que a palavra escrita pode libertar.
     Portanto, viva a liberdade! Viva o ser humano, em todas as suas cores, pois todos merecem viver com dignidade e paz.