T R A D U T O R

29 de jul. de 2026

SESSENTA ANOS DEPOIS DE MIM


 
— Sinto falta do reboliço que eu causava — d. Alzira murmurou, olhando para as próprias mãos que eu apertei entre as minhas, ouvindo o início daquele desabafo.
     Ela tinha quase 80 anos; eu, apenas 19.
 — Saudade do eco daquele "fiu-fiu" que rasgava o vento, dos pescoços que quase quebravam, hipnotizados pelo balanço da minha bunda 
— dizia ela.
    Eu engoli em seco, mas continuei ali, firme, acariciando a pele fina do seu pulso. Ela sorriu para o nada, os olhos brilhando com uma vaidade antiga:
— Sinto falta do roçar intencional, daquele aperto proposital de cotovelos contra os meus seios no elevador, e dos trabalhadores que engoliam em seco para soprar um "gostosa", como um segredo proibido. Eu me deliciava com as bochechas dos homens avermelhando quando eu cruzava as pernas, e com o pânico das esposas, tentando inutilmente cegá-los para o meu brilho.
   A primeira lágrima me escapou. Passei a ponta do indicador na bochecha, sem querer que ela percebesse, mas d. Alzira nem notava; ela estava presa no passado.
— Sinto muita falta das minhas saias curtas, do formato dos meus mamilos duros sob blusas sem sutiã — continuou ela, a voz subindo um tom, quase jovem de novo. — Uma provocação calculada que eu fingia não notar, mas que dominava as ruas. Eu era o próprio pecado caminhando — ela falava tentando esconder o sorriso.
     Aproximei minha cadeira da dela. O contraste da minha pele lisa com a dela, castigada pelo tempo, doía. Uma segunda lágrima desceu, e eu a enxuguei rápido com as costas da mão, focada em cada palavra. O tom dela, de repente, desabou para a melancolia.
— Hoje, sessenta anos depois, o mundo me castiga com uma indiferença que sangra, minha filha. Ninguém para o que está fazendo para me ver passar; passei de tentação a invisível. Ninguém me olha, a não ser que eu tropece e desabe perto deles.
— Não diz isso... — sussurrei, com o peito apertado, mas ela me cortou com um gesto amargo de cabeça.
— Antigamente, quando eu me sentava, o ambiente prendia a respiração na esperança de ver a minha carne; hoje, se arrisco cruzar as pernas, as pessoas desviam o rosto, ofendidas, como se a minha pele enrugada fosse um insulto.
    Ela olhou para o próprio colo, e eu estiquei o braço para secar meu rosto molhado, incapaz de conter o choro diante daquela crueza.
 —Os sutiãs que eu tanto desprezava para deixar meus seios livres e empinados, hoje são armaduras pesadas e tristes; sem eles, meu colo desaba, cansado. Meus vestidos agora são longos, como mortalhas que sepultam o corpo que já foi desejo.
   Puxei um lenço do bolso, limpando o rastro das lágrimas que não paravam de cair. O relato corria livre, íntimo e doloroso, como se ela estivesse abrindo uma gaveta trancada há décadas.
— As sandálias de salto que desenhavam minhas panturrilhas foram condenadas; no lugar delas, sapatos ortopédicos que escondem meus joanetes e tentam manter no chão os pés trôpegos de uma velha mulher.
  Ela finalmente olhou para mim, vendo meus olhos vermelhos. Sorriu um sorriso afiado, cheio de um orgulho que o tempo não conseguiu apagar, e tocou meu queixo com carinho:
— Se alguém ousar me perguntar se sinto saudade, eu vou sorrir com desdém e negar. Vou mentir com o mesmo orgulho de quando fingia não saber que eu era o tormento do bairro, uma pedra no sapato das casadas e a fantasia mais ardente de todos os homens.
   — Apoiei minha mão sobre a dela, tentando dar um conforto que eu sabia ser pequeno demais para o tamanho daquela perda.
— Mas a verdade, crua e melancólica... — ela sussurrou, e eu aproximei meu ouvido, enxugando a última lágrima que insistia em cair — ...é que por dentro eu choro a morte da deusa que fui, condenada a viver como um fantasmo num corpo que ninguém mais quer tocar.
    O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som suave da louça quando apoiei minha xícara na mesa. Curvei-me em sua direção, quebrando a distância que o tempo impunha entre nós, e deixei um beijo demorado e carinhoso em sua bochecha enrugada, sentindo o perfume suave de talco que ela usava.
— A senhora ainda é linda, d. Alzira — eu disse, segurando suas duas mãos e olhando firme nos seus olhos, para que ela sentisse a verdade nas minhas palavras. — O mundo lá fora pode ser cego, mas a deusa continua viva bem aqui dentro — falei apontando para o seu peito. — Essa história e toda essa força são suas. Ninguém pode apagar o rastro que a senhora deixou.
    Ela piscou, emocionada, e a linha dura de sua boca relaxou em um sorriso genuíno. Olhei para a mesa, para o bule que agora esfriava, e apertei seus dedos de leve.
— Obrigada por me convidar para tomar este chá hoje — completei, sentindo meu peito mais leve. — E por dividir comigo um pedaço tão bonito e verdadeiro da sua vida. Eu nunca vou esquecer essa tarde.
    Ao me despedir e cruzar a porta de saída, caminhei pela rua sentindo o vento fresco da tarde bater no meu rosto. Olhei para as minhas próprias pernas firmes, para a minha pele lisa e para a atenção discreta que eu ainda atraía sem esforço. Um arrepio súbito me correu a espinha. Pensei no ciclo implacável do tempo e na certeza de que, daqui a sessenta anos, muito provavelmente seria eu sentada à mesa de chá, com as mãos trêmulas e o coração nostálgico, repetindo exatamente as mesmas palavras para alguma garota de dezenove anos.

23 de jul. de 2026

LEITOR OU PERSEGUIDOR?

 

       Um dos meus leitores — ou melhor, ex-leitor — teve o desplante de aparecer na minha casa com uma caixa de bombons para me dar. Ninguém perguntou se eu ou meus pais gostamos ou queríamos aquilo, mas ele simplesmente trouxe. Minha mãe, com uma inocência que beira a ingenuidade, permitiu que o sujeito entrasse e, quando chegamos, porque outro blogueiro, amigo da gente, estava comigo, a situação era surreal: quem acabou ficando do lado de fora da própria casa fui eu!
      O amigo que estava comigo, ficou indignado com tamanha petulância. Afinal, ninguém em sã consciência invade o espaço de uma garota sem ser convidado, mas esse sujeito achou que podia. Há dias ele vinha se "engraçando" nos comentários, e eu, na tentativa de poupar meus pais e outras pessoas, não disse nada. Mas vir à minha casa? Isso cruzou todos os limites!
      Exigi que ele saísse e viesse falar comigo no corredor, onde eu estava com o meu amigo. Meus pais que o acolheram lá dentro não entenderam nada na hora, mas eu, que leio a respeito das táticas que esses cafajestes usam para manipular pessoas incautas, fiz exatamente o que precisava ser feito: impus uma barreira.
      Assim que ele se retirou, entrei com o meu amigo e retomamos nossa conversa — nós, protegidos do lado de dentro, e o atrevido no lugar que lhe cabe: do lado de fora da porta. Esses misóginos precisam se decidir: ou aceitam um corretivo à altura de sua ousadia, ou aprendem, de uma vez por todas, a se comportar.
      Não acredito que ele terá o bom senso de parar de ler meus artigos ou de comentar, mas se o fizer, o prazer da sua ausência será, sem dúvida, muito maior do que qualquer audiência que ele possa me dar.

18 de jul. de 2026

SOCORRO, MEU CÉREBRO AGORA PENSA EM CÓDIGO!

 



           Se você tivesse me conhecido há três meses, acharia que eu era uma pessoa normal.  Eu olhava para um elevador e via apenas... um elevador. Hoje? Olho para os botões e começo a mentalizar um "if-else" infinito para decidir se ele para no 4º andar ou ignora o meu atraso para a aula de Cálculo.
     Dizem que a faculdade de Engenharia muda a gente, mas ninguém avisa que a programação é um caminho sem volta para a "Matrix" da vida real. Antes, eu achava que "fazer um app" era simples como postar um "story". Agora, após passar quatro horas tentando entender por que um ponto e vírgula derrubou todo o meu projeto, desenvolvi um respeito religioso por qualquer coisa que funcione. Se o micro-ondas esquenta a comida sem dar "Runtime Error", eu quase sinto vontade de aplaudir. Aprender a programar é, basicamente, aprender a ser humilde perante uma máquina que só faz o que você manda — e nós, geralmente, mandamos errado.
     A lógica de programação grudou na minha rotina de um jeito que não consigo mais tomar café sem pensar na eficiência do processo. O problema é que a vida real não aceita Ctrl+Z. Se eu cometo um erro de lógica em uma conversa com o crush (que, por sinal, eu não tenho), não tem como dar um "reboot" no servidor e fingir que nada aconteceu.
     Uma pessoa comum, ao ver um "site" bonito, fica feliz. Já o estudante de computação quer saber qual "framework" usaram, como o banco de dados suporta o tráfego e por que o botão de "Sair" está com um "delay" de 2ms. A gente perde a paz, mas ganha um superpoder: entender os bastidores do mundo moderno.
     Resumo do semestre até agora: meu café está frio, meu código está com 42 avisos de erro e eu nunca estive tão animada. Afinal, se a vida é um grande código mal escrito, estou aqui justamente para aprender a "buildar" algo melhor ou, pelo menos, entender por que o "bug" aconteceu.

13 de jul. de 2026

O BRILHO QUE VEJO NOS OLHOS DA RÔ.

 



     Abrir este diário é como caminhar pelas ruelas ensolaradas do Rio de Janeiro e encontrar, em cada esquina, o brilho de uma menina que descobriu cedo que as palavras são os melhores brinquedos do mundo.  Nestas páginas, conhecemos a pequena Rô — uma narradora nata que transformou a sala de casa em seu primeiro palco.
     Com uma sabedoria que parecia vir de outros tempos, ela encantava sua plateia mais fiel, a avó, com histórias que transbordavam doçura e uma consciência rara.
     A Rô sempre soube quem era: o encontro perfeito de mundos, uma menina preta orgulhosa de sua identidade, que via no contraste suave do pai branco e na herança retinta da mãe o desenho mais bonito do afeto. Sua inteligência, porém, não cabia apenas entre quatro paredes. Na escola, o nome "Rô" tornou-se referência, um sinônimo de excelência que deixava professores maravilhados.
     Enquanto o mundo ainda aprendia a soletrar, ela já devorava livros inteiros e resolvia palavras cruzadas complexas num piscar de olhos, provando que o conhecimento é uma ferramenta de liberdade.
    Mas, para além da genialidade, o que move o coração da Rô é o que é feito à mão.
     Entre as bonecas modernas que ganhava da mãe e as bonecas de pano costuradas pela avó, sua escolha era sempre pelo afeto.
     Aquelas bonecas de retalhos tinham alma, cheiro de carinho e guardavam segredos que só o amor de neta e avó consegue fiar.
     Este diário é o registro desse crescimento. É o rastro de uma menina que cresceu provando que a inteligência e o amor são as cores mais bonitas que alguém pode carregar.
     Seja bem-vindo ao mundo da Rô, onde cada palavra é um convite para enxergar o mundo com mais brilho e verdade.
     Parabéns, pequeno gênio!  E um beijo do "tio",
Silvioafonso.


11 de jul. de 2026

VOZINHA

     


     Todo mundo sabe que eu não sou fissurada em jogo de bola. Futebol para mim sempre foi aquele barulho na sala, minha família gritando na TV e eu olhando de canto de olho. Mas esse tal de Vozinha? Menina, esse cara me levou às lágrimas.
     Um cara com 40 anos, já no que esse povo chama de "final de carreira", chega em campo com aquele jeitinho de gente simples, de quem só quer um lugar para comer e, se possível, descansar depois da batalha. Mas, quando a bola rola, o homem vira um gigante! O pessoal lá em casa não cansava de contar, incrédulo: foram muitas defesas difíceis! É ou não é para deixar a gente do jeito que eu fiquei? De coração na boca!
    E aí veio aquele jogo contra a Argentina. Que dor, cara. Aquela derrota apertada acabou com o nosso sonho e tirou lágrimas de todo mundo lá em casa. Ver o Vozinha se despedir daquele jeito quebrou as nossas pernas; eu mesma chorei junto com a minha família na sala, sem conseguir acreditar.
     Cabo Verde pode até não ter a maior renda per capita do mundo, mas o Vozinha chegou ali como se fosse um dos nossos, nascido e criado na periferia. Ele jogou pela dignidade do povo dele e merecia demais a vitória.
      Parabéns, jogador. Você foi gigante. Parabéns, Cabo Verde. Só vocês me fizeram torcer.