T R A D U T O R

18 de ago. de 2026

CAMÕES X PETRARA

 



      Olha só, rola um papo aqui na faculdade de que o Camões deu um "copia e cola" no Petrarca com o soneto Alma minha gentil. Mas ó, trocando uma ideia com a galera, a gente percebeu que não é plágio coisa nenhuma; é tipo um feat de respeito, entendeu?
     Até porque os caras nem viveram na mesma época: tem uns duzentos anos de diferença entre eles! O Petrarca é lá do século XIV e o Camões já é do XVI. Ou seja, é uma homenagem do português ao cara que, lá atrás, inventou a parada toda.
     Se liga na diferença: o Petrarca fica ali naquele luto, preso na saudade do rosto e dos olhos da Laura — é uma parada bem visual, focada no retrato da sua musa inspiradora. Já o Camões leva a parada pra outro nível, pro plano espiritual. Ele usa o começo do poema como um tributo, mas depois desenrola um papo profundo sobre o "desconcerto do mundo" e aquele desejo desesperado da alma se encontrar no além.
     Não é cópia; é o Camões pegando a base do mestre e elevando o nível do jogo. É a prova de que, naquela época, imitar era o caminho pra honrar e, quem sabe, superar o mestre.
     É nisso que eu acredito.

13 de ago. de 2026

O QUE SOBROU DE MARGÔ

 


    Cara, é surreal. Olho pra trás e nem consigo processar que, até os 15, eu não dava um passo sem essa garota. A Margô era o auge da timidez: olhinho baixo, voz mansa, tipo, real invisível perto dos outros. Mas foi só a família dela se mudar pro bairro vizinho que o bagulho desandou. Ou será que o caráter dela que apodreceu mesmo?
    A garota não só mudou o jeito, como virou outra pessoa, do nada. Começou a desfilar de grife e a dar ordem com uma arrogância que nunca foi dela. Dos pais? Sumiram, ninguém sabe, ninguém viu. Mas dela o Rio todo tá sabendo: a fofoca virou manchete, bombou no Twitter e no Insta. Acabou rodando na casa do namorado, um cara que a polícia tava caçando há um tempão.
    Minha vontade é ir lá agora, olhar na cara dela e mandar um "qual foi?" pra entender essa mudança. Quero saber onde foi parar aquela menina. Mas aqui em casa o papo é reto: me proibiram de ir. Dizem que "não se chora sobre leite derramado", sabe? Como se a vida de alguém fosse um copo quebrado que você simplesmente joga no lixo. É revoltante ver a pureza de uma infância ser jogada fora por escolha — e nem sempre só dela —, enquanto eu fico aqui, de mãos atadas, assistindo ao "game over" de quem eu achei que conhecia.

8 de ago. de 2026

OLHARES QUE NÃO ME PARAM

           



     Gente, preciso falar com vocês. É sobre o meu jeito de andar por aí, de cabeça baixa e sem olhar para os lados. Quem me vê, pensa que não quero papo com ninguém, mas não é verdade. Se você passou por mim e eu não falei, não foi por mal, juro!
     Esse meu jeitinho de andar olhando para baixo já me rendeu altas fofocas. Já fui chamada de metida, de esnobe e — a melhor de todas — a mãe de uma colega que estudou comigo na quinta série jurou de pé junto que eu tinha TDAH.
     Diagnóstico de calçada é outra coisa, né?
     A mulher, que nunca me viu na vida, do nada virou médica e decidiu me diagnosticar. É rir para não chorar!
     Olha, talvez eu até tenha um combo de tudo isso aí, mas a real é que não sou esnobe e nem tão tímida assim (pelo menos eu acho!). O nome disso é precaução, meu povo! Se eu não fico de bobeira andando na rua, já evito 90% dos perrengues e daquelas abordagens estranhas de gente maldosa.
    Acho que toda garota que foi criada por pais guerreiros — daquele tipo que nadou muito para não morrer na praia — passa por esse julgamento.
    Mas quer saber? Não estou nem aí. Esse meu "escudo" afasta os desavisados que querem forçar amizade. Agora, me diagnosticar com TDAH por causa da quinta série? Aí já é sacanagem! Me admira a mãe dessa menina ter tempo para cuidar da vida dos outros enquanto a dela deve estar de pernas para o ar. Quem ela pensa que é para sair rotulando os filhos alheios? Com tanta coisa para fazer, a mulher resolveu focar no meu foco!
    Ah, não enche!


3 de ago. de 2026

O CÓDIGO DA HERANÇA

 


    Minha pequena Rô, olha bem para esse lugar. Olha para esse notebook na sua frente, para essas luzes e para esse crachá que diz "Engenharia".
    Sabe, quando eu tinha a sua idade, minhas mãos não tocavam em teclados; elas sentiam o peso da água nos baldes e o calor do ferro de passar. Naquela época, o "código" que eu tinha que aprender era o de como ser invisível para não incomodar, de como baixar a cabeça para poder passar. As salas de aula que eu via eram apenas aquelas para as quais eu te levava quando você era pequena.
    Às vezes, eu fechava os olhos por um segundo e tentava imaginar como seria o futuro. Eu não sabia o que era um algoritmo, mas já estava calculando o caminho para que você chegasse até aqui. Estava economizando cada centavo, cada gota de suor, para que um dia o seu único trabalho fosse pensar, criar, ocupar este espaço.
    Ver você sentada nessa bancada, discutindo de igual para igual com essas pessoas, resolvendo problemas que parecem grego para mim... minha filha, isso não é só um curso. É o meu sonho que criou pernas e agora está aí, digitando. Você é a prova de que nenhum esforço foi em vão, meu amor.
    Sempre que o código der erro ou alguém tentar te fazer sentir pequena nesta sala, lembra das minhas mãos. Elas te sustentam. Você não está sentada nessa cadeira sozinha; eu estou aí com você, sua avó está aí, e todas as mulheres que vieram antes de nós estão de pé, atrás de você, aplaudindo cada linha de código que você escreve.
    "Você é a nossa vitória mais bonita, Rô."

29 de jul. de 2026

SESSENTA ANOS DEPOIS DE MIM


 
— Sinto falta do reboliço que eu causava — d. Alzira murmurou, olhando para as próprias mãos que eu apertava. Ela tinha quase 80 anos; eu, apenas 18.
— Saudade do eco do "fiu-fiu", dos pescoços que quase quebravam pelo balanço da minha bunda. Eu era o próprio pecado caminhando.
Engoli em seco, acariciando seu pulso.
O tom dela, de repente, desabou para a melancolia:
— Hoje, o mundo me castiga com uma indiferença que sangra, minha filha. Passei de tentação a invisível. Antigamente, o lugar por onde eu passava prendia a respiração para me ver caminhar; hoje, se cruzo as pernas, desviam o rosto, ofendidos, como se a flacidez fosse um insulto.
Meus vestidos agora são longos, como mortalhas que sepultam o corpo que já foi desejo. Mas a verdade crua... — ela sussurrou, tocando meu queixo — ...é que por dentro eu choro a morte da deusa que fui, condenada a viver como um fantasma num corpo que ninguém mais quer tocar.
Ela olhou para o próprio colo, enquanto eu me esforçava para engolir o choro.
Curvei-me e deixei um beijo demorado em sua bochecha com cheiro de talco.
— A senhora ainda é linda, d. Alzira — disse, segurando suas mãos. — O mundo pode ser cego, mas a deusa continua viva aqui dentro — toquei seu peito de leve, me levantando. — Ninguém apaga o rastro que a senhora deixou. Obrigada pelo chá e por dividir isso comigo.
Dei-lhe um último beijo na testa e saí.
Ao cruzar a porta, caminhei pela rua sentindo o vento no rosto. Olhei para as minhas pernas firmes, para a pele lisa e para os olhares que eu ainda atraía. Um arrepio correu a espinha diante do ciclo implacável do tempo. Daqui a sessenta e dois anos, com o coração nostálgico, seria eu sentada à mesa, repetindo exatamente as mesmas palavras para uma garota de dezoito anos.