T R A D U T O R

31 de ago. de 2026

O TESTE DO JARDINEIRO

 



        Tava na casa da minha vó quando um carinha bateu no portão oferecendo serviço de jardinagem. Ela, toda fofa com os canteiros impecáveis, dispensou ele na educação: “Já tenho quem cuide das minhas flores, meu filho”. Esse gancho foi o suficiente pra ela me contar a tour do jardineiro dela.
    Ela achou o cara num anúncio de jornal. Quando ele apareceu — todo novinho e franzino — ela até duvidou: “Esse menino não vai aguentar o tranco”, pensou. Mas o garoto simplesmente entregou TUDO. Transformou o matagal num tapete digno de Pinterest.
    No final, suado e tals, ele fez um pedido aleatório:
— A senhora deixa eu usar o telefone? É rapidinho.
    Vovó deixou, mas né… curiosidade de gente antiga. Ela deu aquela escorregada até a extensão do quarto e tirou o fone do gancho pra dar uma espiada na conversa.
— Alô! — uma mulher atendeu.
— Bom dia. A senhora tá precisando de um jardineiro dedicado? — ele perguntou, todo firme.
— Não, obrigada. Já tenho um faz tempo — a mulher respondeu.
— Mas eu faço um preço mara, senhora…
— Não é preço, moço. O meu cobra o justo.
— Entendo. Mas eu sou super cuidadoso, limpo até as ferramentas antes de guardar!
— Ele faz exatamente a mesma coisa — a mulher já tava perdendo a paciência. kkkk
— Senhora, eu recolho todo o mato, organizo as mudas, deixo tudo 10/10!
— Escuta, meu filho: o meu jardineiro é perfeito. Não troco ele por nada, entendeu? Passar bem.
    Click. A linha caiu. Minha avó, sentindo a maior dó do mundo, saiu do quarto pra consolar o menino:
— É, pelo visto você perdeu a cliente, né? Ela parecia bem decidida…
Aí o garoto abriu um sorrisão enorme e soltou a braba:
— Perdi não, dona. É que eu sou o jardineiro dela. Só liguei pra checar o nível de satisfação. Queria saber se eu tava entregando o meu melhor mesmo.
    Vovó ficou em choque. Ela disse que naquele dia não só pagou o combinado, como deu a maior gorjeta da vida. Enquanto ele ia embora, ela percebeu que não contratou só alguém pra cortar grama, mas alguém que tem um mindset de excelência bizarro.
    Fiquei pensando: a gente se esforça tanto pra ser notado, mas será que a gente entrega esse nível de quality control no que faz? Fica a reflexão.

28 de ago. de 2026

À MINHA REVELIA

 

      Minha mãe e minha tia decidiram, à minha revelia, que eu serei a nova atração de uma festa junina do bairro. E quando digo "festa junina", me refiro a São Pedro.
     Sim, estamos em julho, mas o espírito festeiro delas não tem fim. Para piorar, mandaram fazer um vestido para mim. E não é um vestido normal, daqueles que as garotas usam por aí. É uma armadura de chita, com laços enormes nas costas que vão até a canela, acompanhada de um convite irrecusável (leia-se: obrigatório) para um arraial aqui perto. Elas endoidaram de vez. Dançar não é o meu forte. E, sinceramente? Mesmo se fosse, eu não iria.
     Tenho certeza de que o dedo podre por trás disso é da minha prima. Ela ama esse tipo de coisa. Não importa a festa, a garota quer estar lá. Ela é popular — muito mais do que eu gostaria que fosse — e faz amizade até com as paredes. Tem amigos por todos os cantos e, como acha essa vida social intensa o máximo, tenta me arrastar para essa droga de circuito caipira. O que me espanta é ver minha mãe se deixando levar por esse tipo de gente que, para o meu absoluto azar, é do meu próprio sangue.
     Olho para a minha prima e parece que o caminho dela tem mais flores que o meu. Minha mãe fica deslumbrada, apontando para o sorriso eterno no rosto da sobrinha, enquanto o meu próprio sorriso só aparece por motivos raros e justificados — não por qualquer bobagem, como costuma rir boa parte dos parentes que eu tenho. Às vezes me pergunto a quem puxei, já que minha mãe é festeira e meu pai é a própria definição de um homem conciso. Como ainda estamos no começo do mês, sei exatamente o que me espera: elas vão usar cada segundo até o dia do evento para tentar fazer a minha cabeça. Mas eu já me olhei no espelho do futuro e a imagem é devastadora. Vejo uma garota fantasiada de palhaço, com chapéu de palha de pontas desfiadas, um vestido amarelo, vermelho e branco com um laçarote gigante amarrado na cintura, meia três quartos e sapatos de normalista (se é que isso ainda existe). Uma palhaça completa!
     No fim das contas, me resta uma dúvida filosófica: a festa serve para divertir os convidados ou os convidados é que servem de palhaços para divertir os donos da festa? Diante desse dilema, minha única vontade é chorar. E se eu tiver que pagar para passar por esse mico, juro que vou me virar para sumir do mapa!

23 de ago. de 2026

XEQUE-MATE AO CORAÇÃO

 

       Aos cinco anos, eu já insistia para meu pai me ensinar xadrez.
       Demorei para vencer a primeira, mas aos oito eu já era um desafio real no tabuleiro. Fiquei um tempo afastada e, na volta, ganhei do meu pai duas vezes. Agora, o desafio é com meu avô. O dilema é pesado: como equilibrar o amor que sinto por ele com a minha vontade de vencer? Minha mãe foi categórica: 'seja você mesma'. Ela acredita que o maior respeito que posso dar ao meu avô é um jogo honesto. Se a vitória vier, será por mérito; se a derrota chegar, será com integridade.
       Sei que ele já perdeu muito na vida, mas mentir não é o meu papel. 
       Vou seguir o conselho da minha mãe e jogar com tudo, tratando o tabuleiro como o máximo de respeito que ele merece.

18 de ago. de 2026

CAMÕES X PETRARA

 



      Olha só, rola um papo aqui na faculdade de que o Camões deu um "copia e cola" no Petrarca com o soneto Alma minha gentil. Mas ó, trocando uma ideia com a galera, a gente percebeu que não é plágio coisa nenhuma; é tipo um feat de respeito, entendeu?
     Até porque os caras nem viveram na mesma época: tem uns duzentos anos de diferença entre eles! O Petrarca é lá do século XIV e o Camões já é do XVI. Ou seja, é uma homenagem do português ao cara que, lá atrás, inventou a parada toda.
     Se liga na diferença: o Petrarca fica ali naquele luto, preso na saudade do rosto e dos olhos da Laura — é uma parada bem visual, focada no retrato da sua musa inspiradora. Já o Camões leva a parada pra outro nível, pro plano espiritual. Ele usa o começo do poema como um tributo, mas depois desenrola um papo profundo sobre o "desconcerto do mundo" e aquele desejo desesperado da alma se encontrar no além.
     Não é cópia; é o Camões pegando a base do mestre e elevando o nível do jogo. É a prova de que, naquela época, imitar era o caminho pra honrar e, quem sabe, superar o mestre.
     É nisso que eu acredito.

(Já sei, vão tirar o meu sono por causa do estilo do texto. Só assistam!)

13 de ago. de 2026

O QUE SOBROU DE MARGÔ

 


    Cara, é surreal. Olho pra trás e nem consigo processar que, até os 15, eu não dava um passo sem essa garota. A Margô era o auge da timidez: olhinho baixo, voz mansa, tipo, real invisível perto dos outros. Mas foi só a família dela se mudar pro bairro vizinho que o bagulho desandou. Ou será que o caráter dela que apodreceu mesmo?
    A garota não só mudou o jeito, como virou outra pessoa, do nada. Começou a desfilar de grife e a dar ordem com uma arrogância que nunca foi dela. Dos pais? Sumiram, ninguém sabe, ninguém viu. Mas dela o Rio todo tá sabendo: a fofoca virou manchete, bombou no Twitter e no Insta. Acabou rodando na casa do namorado, um cara que a polícia tava caçando há um tempão.
    Minha vontade é ir lá agora, olhar na cara dela e mandar um "qual foi?" pra entender essa mudança. Quero saber onde foi parar aquela menina. Mas aqui em casa o papo é reto: me proibiram de ir. Dizem que "não se chora sobre leite derramado", sabe? Como se a vida de alguém fosse um copo quebrado que você simplesmente joga no lixo. É revoltante ver a pureza de uma infância ser jogada fora por escolha — e nem sempre só dela —, enquanto eu fico aqui, de mãos atadas, assistindo ao "game over" de quem eu achei que conhecia.