Todo mundo sabe que eu não sou fissurada em jogo de bola. Futebol para mim sempre foi aquele barulho na sala, minha família gritando na TV e eu olhando de canto de olho. Mas esse tal de Vozinha? Menina, esse cara me levou às lágrimas.
T R A D U T O R
11 de jul. de 2026
VOZINHA
Todo mundo sabe que eu não sou fissurada em jogo de bola. Futebol para mim sempre foi aquele barulho na sala, minha família gritando na TV e eu olhando de canto de olho. Mas esse tal de Vozinha? Menina, esse cara me levou às lágrimas.
6 de jul. de 2026
SÓ BISCOITO, O SONHO ACABOU!
Olha, meu pai só pode achar que é artista de teatro dramático, não é possível. Educado todo mundo sabe que ele é, mas precisava chorar de verdade só porque os amigos dele — que passaram a tarde assistindo a um bando de marmanjo simulando um barco imaginário — ganharam da gente? Da gente não, né? Deles, que sofrem e morrem de amores por futebol.
Gente, papo sério: quando eu soube que o Ronaldo português ganha 4 milhões de reais por dia, minha cabeça explodiu. Será que a diretoria do Al-Nassr, na hora de fazer o pix ou assinar esse contrato milionário, tem a menor noção do que é o nosso perrengue? Acordar cedo, mofando em condução apertada, comendo de marmita e trabalhando feito louco para chegar morto em casa e receber um salário miserável de 1.700 reais por mês? Acho que não, né, mané!
E o meu pai lá, enxugando as lágrimas dos vizinhos que vieram aqui só para sujar a sala de pipoca. Até molho de cachorro-quente a minha mãe encontrou pelos cantos e nas poltronas! Olha, bem-feito para a senhora também, dona mãe. Não falo isso para brigar, mas fico indignada: a senhora não tem empregada, a diarista só vem uma vez por semana — e ainda falta muito para ela voltar —, e a senhora fica aí, com essa cara de boba sorrindo para o prejuízo!Sinceramente, não sei a quem eu puxei nessa família. Não vejo graça nenhuma em ver minha mãe rindo do caos, meu pai chorando por causa de jogo e um português ganhando o dinheiro que ganha.
Para fechar, espero que o pessoal que estava chorando pelo Hexa entenda que o Hexa já veio! Sim, porque pelo que eu li na imprensa, faz exatamente seis Copas do Mundo que o Brasil não ganha de nenhum time grande.
É o Hexa do jejum, minha gente! Podem vibrar, o Hexa finalmente chegou!
3 de jul. de 2026
MEU CÉREBRO É DE HUMANAS, MAS MINHA ROTINA É DE EXATAS!
28 de jun. de 2026
INVISÍVEL NA TORCIDA
Para os fãs de futebol, nenhuma época é tão importante quanto os meses de junho e julho. O dia, de repente, fica pequeno para tanta gente vibrando com um gol ou xingando a mãe do juiz. O mais engraçado é notar como, de uma hora para outra, todo mundo vira especialista e entende tudo da coisa.
Todo mundo, menos eu.
Eu não consigo nem ler os comentários da rodada para fingir que sei do que estão falando. E não é por falta de tempo, mas por pura falta de interesse mesmo. A verdade é que isso não me chateia e nem me tira das rodas de conversa. Consigo acompanhar o ritmo das pessoas sem precisar forçar uma paixão que não tenho. Enquanto a maioria se liga na TV, eu prefiro o silêncio e a companhia de um bom livro.
O ápice desse meu desinteresse foi nesta semana: acabei pegando no sono no meio da leitura e tive um sonho bizarro assistindo ao jogo da seleção — coisa que, obviamente, eu não fiz acordada. No sonho, eu tentava decifrar a tática do técnico usando teoremas matemáticos e equações complexas, enquanto a torcida na arquibancada gritava fórmulas em vez de incentivar os jogadores. Acordei assustada, grata por voltar para a calmaria das minhas páginas e sem a menor ideia de quanto tinha sido o placar real.
Não estou nem aí se me acham alienada por não vestir verde-e-amarelo ou por não sair soprando corneta por aí. Mas, se for obrigada a torcer, é claro que, como brasileira que sou, torço para a gente ganhar — nem que seja só para calar os linguarudos que desdenham do Brasil.
25 de jun. de 2026
O ARQUEIRO E A FLECHA
Meu avô, com aquela calma de quem já viu o mar recuar mil vezes, diz que na política só critica quem está fora. Ele está certo; errado é quem se cala e aceita o silêncio como destino.
A vida adulta, porém, chega antes do boleto. Todo ano meu pai tem aumento de salário e, no mesmo patamar, aumenta minha mesada. O problema é que o custo de vida sobe o dobro. Para o meu pai, mais vivido, sempre existe um jeito, uma matemática com solução que eu desconheço. Para mim, resta o corte: parar de comprar o que, até ontem, era indispensável. A cada ano, uma nova tristeza. Ou a gente se ajeita ou afunda, como uma moeda numa garrafa de areia. Sorte que roupas, calçados e livros ficam na conta do meu velho. Mas e o cinema, o teatro e os museus, que cobram os olhos da cara? Isso ele não paga; já diz que está "embutido na mesada". É o preço de tentar ser culta em um país que cobra caro pelo ingresso da alma.
Não sei como era a vida da adolescente no passado, se era mais ou menos severa, o fato é que a minha é foda. Sigo tentando manter a pontaria enquanto o vento sopra contra. Haja bambu para tanta flecha — porque arqueira, por aqui, é o que não falta.


