T R A D U T O R

6 de set. de 2026

A DITADURA PELA JANELA DA VOVÓ

 


    Os livros me ensinam sobre a ditadura, mas faltam neles os detalhes viscerais que só a memória de quem viveu consegue traduzir. Ouvi minha avó contar essas histórias ao meu pai durante uma visita e, como o assunto sempre me fascinou, puxei uma cadeira e pedi licença para mergulhar naquele passado. Minha avó narrou como os agentes fardados invadiam as casas sem a menor cortesia, apenas para 'farejar' algo suspeito. Para ela, era a estratégia perfeita para espalhar o pânico e deixar claro quem dava as ordens. O povo vivia sob uma eterna suspeita; a sensação de perseguição era o ar que se respirava. Qualquer palavra que desafiasse o sistema era um passaporte para a cadeia. Ela relembrou o toque de recolher — uma ordem de silêncio nas ruas que muito se assemelha ao que o crime organizado impõe hoje em certos bairros do Rio. Músicas de protesto eram proibidas até dentro de casa; embrulhos eram revistados na calçada e qualquer movimento 'estranho' na janela era motivo de batida policial. Ler também era um ato de risco. Sempre aparecia alguém fardado confiscando livros considerados 'subversivos'. Basicamente, a arte e a vida social eram asfixiadas pela censura. 'Acreditar que o outro é inimigo só por pensar diferente é sinal de que algo na cabeça não vai bem', dizia ela, baixando os olhos. É duro ver grupos que ainda hoje acreditam deter a razão absoluta, esperando um 'salvador' que autorize a violência contra a maioria em nome de uma justiça torta. Para esses, no fim do dia, basta pedir perdão a um deus que, em sua visão, aceita a barbárie. Felizmente, cresci sob o respaldo do respeito e da tolerância. Minha consciência é guiada por uma religião que prega o amor e a educação, o que me garante o respeito de quem me cerca. E, para fechar a noite, que cena maravilhosa: ver meu pai horas a fio conversando com a minha avó que, por uma feliz coincidência da vida, é a sogra que ele tanto admira

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