T R A D U T O R

10 de out. de 2026

O AMOR MORA AO LADO

 

      Marcelinho morava na casa ao lado da minha quando nós éramos crianças. Ele era um menino loirinho que reparava muito nos itens que não tinha, como um tênis de marca, uma viagem nas férias ou uma roupa nova. O garoto ficava se comparando com os amigos do colégio e comigo, que estava sempre bem arrumada.
     Como ele era muito pequeno e não entendia nada de dinheiro, achava que não ganhava esses presentes por falta de amor dos pais. Ele não compreendia a realidade financeira da sua família na época.
      Até que, um dia, o motorista do transporte escolar avisou antes de ele descer: "Diga ao seu pai que, se ele não pagar a mensalidade até amanhã, você não vai mais andar nessa van." Marcelinho entrou em casa morrendo de vergonha de mim, pois eu vi tudo acontecer.
      Chateado e confuso, ele gritou com o seu pai por não ter pago a conta. Mas o pai não brigou de volta. Só ficou em silêncio, com um olhar muito cansado, como se quisesse resolver o problema na hora, mas não pudesse. O Marcelinho era jovem demais para entender o peso daquela situação.
      Só muito tempo depois, quando eu já estava na faculdade e ele trabalhando duro para pagar as próprias contas, é que essas lembranças passaram a fazer sentido. O jovem nos revelou que chorava muito pelo que não recebia quando pequeno, enquanto os pais passavam noites sem dormir calculando onde economizar, e só ele não notava.
      O pai não comprava roupas nem para si e para a sua esposa; usavam sempre as mesmas, já velhas e surradas. Cada centavo que entrava era sagrado para garantir o alimento na mesa, o teto e as despesas com o filho. Não sobrava nada.
      O que ele achava que era falta de carinho, na verdade, era a maior e mais bonita prova de afeto: os pais se sacrificando em silêncio pela família. 
     Eu vi parte dessa história de perto, mas ouvir o resto, direto da boca do Marcelinho, me deu um nó na garganta. Enquanto ele falava, com os olhos brilhantes de orgulho e os braços cheios de mimos para eles, minha própria vista embaçou. Foi impossível conter as lágrimas ao ver a nossa infância ganhar um novo sentido e testemunhar o menino da van transformado naquele  homem tão cheio de gratidão. 
      No portão de casa, os pais já o esperavam para transformar a saudade em abraços e beijos.

O CORDÃO DE AÇO

 



        Até os dez anos, eu era a sombra da minha mãe. Não fazia um movimento, nem pregava o olho à noite, sem a presença dela. Mas o tempo passa e a gente cria asas: a escola, a pracinha da esquina, as primeiras idas ao cinema... Fui soltando a saia dela e descobrindo o mundo. Com o Joaquim, filho da vizinha, o roteiro parecia o mesmo, mas o filme estacionou no primeiro ato. Hoje, eu vou para onde quero; ele, só se for com a 'mamãe' a tiracolo. A Margô, nossa colega de escola um ano mais nova, era fascinada por ele. Depois de muita insistência, finalmente marcaram um encontro. Margô, ansiosa, chegou cedo à praça de alimentação para garantir a melhor mesa. Não demorou muito para avistar o Joaquim: ele vinha sorridente, mas trazendo a mãe pela mão. O cumprimento foi protocolar — um aperto de mão, dois beijinhos e um silêncio constrangedor da parte dele. Já a mãe... essa não calava. Falava por dois, gesticulava e ditava o tom da conversa, enquanto a pobre Margô baixava a cabeça, incrédula. Após meia hora de monólogo, a mulher pediu licença para ir ao banheiro. Foi o gatilho para a Margô avançar, indignada: — Por que você trouxe ela, Joaquim?! — Porque não tinha com quem deixá-la — ele respondeu, com a maior naturalidade do mundo. — Mas ela não é criança! Qual o problema de ficar sozinha? Não vai me dizer que ela faz tudo com você… até o banho ela vigia? — Isso não! — ele rebateu, ofendido. — Banho, não. Só quando eu saio na rua. — E dormir? Pelo que vejo, você ainda dorme com ela. Estou mentindo? — Bom, isso é verdade. Aliás, meu pai também dorme com a gente! Foi o limite. Margô jogou o guardanapo na mesa com força, chutou a cadeira e saiu batendo o pé, sem olhar para trás. A mãe dele, que já estava de volta e ouviu tudo de braços cruzados, abraçou o filho com os olhos marejados: — Vamos embora, meu filho. Ela não te merece.

ONDE A NORMA CULTA NÃO DITA REGRAS

 

        Durante uma visita à minha casa, uma amiga me perguntou se a sua presença me incomodava. Questionou isso por causa da "cara amarrada" que eu ostentava — segundo ela. Gente, alguém já passou por uma situação parecida, de se descobrir emburrada sem sequer notar a expressão que fazemos quando estamos assim, chateadas? Eu, pelo menos, senti-me como um bicho desconhecido, sei lá, talvez um monstro, só de imaginar o meu semblante na hora daquela indagação. E tudo por conta de uma bobagem. Vejam só: com aquele visual eu estava, sem perceber, desperdiçando minutos preciosos da minha vida por causa de um comentário imbecil deixado no meu blog.
     Não devia, mas vou responder. Não sem antes lembrar que o que faço no meu blog, fora da escola e após as minhas obrigações, é a forma que elegi para descansar. "Descansar carregando pedra", como diz minha avó. E, se elas são minhas, eu as jogo onde bem entender — ou seja, sem qualquer compromisso com a norma culta. Escrevo como quem descarrega britas no próprio quintal. Contudo, como o "Prof. Dr." ou a "Prof.ª Dra." (para não dar moral ao infeliz) fez questão de enfatizar, o que eu chamo de descontração, o indivíduo confunde com sala de aula. "Sua escrita não tem ritmo próprio!", sentenciou.
     Pois saiba, meu caro ou minha cara doutor(a), que jamais deixarei de brincar com as palavras por sua causa. Afinal, o meu propósito aqui não é o mesmo que o seu. Aliás, tempo é o que não me falta para escolher, entre tantos caminhos — inclusive o seu —, a melhor forma de escrever igual ou, quem sabe, muito melhor que VOCÊ.
     Quero deixar claro, evidente e sob a luz dos refletores da razão, que não sou cotista, não sou filha de alguém influente e não ganhei bolsa em troca de favores. O que sou é uma simples estudante. Daquelas que dormem sobre os cadernos e gastam sola de sapato, tempo e suor em busca do futuro que determinei para mim. Não importa se tirei nota mil na redação, se acertei 99% das questões ou apenas o suficiente para o Enem me aprovar. O que importa, de verdade, é ser a garota que, aos 14 anos e cursando o primeiro ano do ensino médio, conseguiu alcançar a meta que tracei.
     Obviamente, não disse nada disso para a minha amiga. O que fiz, na realidade, foi correr ao banheiro para ver no espelho o rosto que o (a) infeliz tinha deixado em mim.

5 de out. de 2026

ENSINA-ME A OLHAR!

 

       Eu ainda era muito pequena e morava com meus pais na casa dos meus avós. Aconchegada no colo do meu vô, logo após o café, eu me perdia em suas palavras. Ele sabia como acalmar meu coração de criança sapeca. Com paciência infinita, ele gravava ensinamentos na minha alma contando histórias, e uma delas nunca mais saiu dos meus pensamentos.
     Olhando nos meus olhos, ele me disse:
     —Rô, quando eu era jovem me chamaram para um teste muito curioso. Eu, por achar que já sabia de tudo, aceitei o desafio.
      Ele sorriu e continuou:
    — Minha missão era contar o número de passes que um time de basquete dava durante um jogo. Me sentaram diante de uma grande televisão. Concentrado, contei cada movimento perfeitamente.
     O vovô fez uma pausa carinhosa:
   — Quando o vídeo terminou, o avaliador entrou na sala e perguntou: "E o urso?".
     Eu, confuso, respondi: "Que urso?".
     Ele acariciou meus cabelos.
     — Rô, um urso de pelúcia havia cruzado a quadra bem no meio do jogo. Eu, focado nas bolas, simplesmente não vi. Quase ninguém vê.
      Sua voz ficou ainda mais terna:
      — Isso se chama Atenção Seletiva, minha querida. Isso prova que nós não enxergamos o mundo como ele é. Nós enxergamos apenas aquilo para onde apontamos o nosso olhar.
      Ele segurou minhas pequenas mãos:
      — Quem controla a sua atenção, no fim das contas, escolhe qual mundo vai existir para você. Achamos que vemos a realidade toda, mas vemos apenas um recorte. E o pior: nem sempre somos nós que escolhemos esse enquadramento.
     Você gostou da história, minha boneca?
     Minha resposta foi um abraço apertado e um sim bem ruidoso. Ele me apertou de volta no peito e disse bem baixinho no meu ouvido:
     — Então nunca se esqueça disso, minha linda menininha... Olhe sempre para o que é bom, cuide do seu coração e escolha você mesma para onde olhar. O vovô ama muito você.
     Ganhei um beijo terno na testa. E, naquele lar que era o coração da nossa família, ganhei a certeza mais bonita da infância: a de ter assistido à lição mais importante da minha vida, em uma aula sem quadro, sem giz e grifada apenas com o amor do meu avô.


1 de out. de 2026

O VOTO SEM ILUSÃO

 

     Eu venho de uma família humilde e sei, exatamente, o valor de cada centavo. Isso significa que meu foco principal não é a ideologia do partido A ou B, mas sim o preço do arroz e o valor da passagem do ônibus.
    Confesso que não gosto de política; acho o assunto mais chato do que fila de banco em dia de pagamento. Não tenho político de estimação e meu coração não bate por nenhuma bandeira partidária. O único partido pelo qual eu torço, de verdade, é aquele que se compromete a cuidar da nossa nação e, principalmente, da classe trabalhadora. Afinal, a minha realidade não é definida por discursos bonitos na televisão, mas pelo suor dos meus pais e pela nossa luta diária.
    Queria que eles soubessem que o meu voto não é paixão de torcida organizada — é uma decisão de negócios! Por isso, quero governantes que entendam que o Brasil, na real, precisa de saúde, educação de qualidade e emprego, e não de brigas infantis na internet. Agora, olhar para a política sendo pobre, como somos, nos dá uma visão muito clara das coisas: não dá para comer promessas, nem pagar os boletos do mês com falsas esperanças.
    Por isso, mesmo não gostando do assunto, eu entendo a sua importância e vou votar; mas com a cabeça fria e o bolso bem consciente. Espero que entendam de uma vez por todas que o meu partido é o meu País e, também, a minha classe social. Se o candidato for capaz de trabalhar por nós de verdade, ele terá o meu respeito. Caso contrário, continuará sendo apenas mais um rosto no panfleto que eu vou usar para me abanar no ponto de ônibus.