T R A D U T O R

3 de ago. de 2026

O CÓDIGO DA HERANÇA

 


    Minha pequena Rô, olha bem para esse lugar. Olha para esse notebook na sua frente, para essas luzes e para esse crachá que diz "Engenharia".
    Sabe, quando eu tinha a sua idade, minhas mãos não tocavam em teclados; elas sentiam o peso da água nos baldes e o calor do ferro de passar. Naquela época, o 'código' que eu tinha que aprender era o de como ser invisível para não incomodar, de como baixar a cabeça para poder passar. As salas de aula que eu via eram apenas aquelas para as quais eu te levava quando você era pequena.
    Às vezes, eu fechava os olhos por um segundo e tentava imaginar como seria o futuro. Eu não sabia o que era um algoritmo, mas já estava calculando o caminho para que você chegasse até aqui. Estava economizando cada centavo, cada gota de suor, para que um dia o seu único trabalho fosse pensar, criar e ocupar.
    Ver você sentada nessa bancada, discutindo de igual para igual com essas pessoas, resolvendo problemas que parecem grego para mim... minha filha, isso não é só um curso. É o meu sonho que criou pernas e agora está aí, digitando. Você é a prova de que nenhum esforço foi em vão.
    Sempre que o código der erro ou alguém tentar te fazer sentir pequena nesta sala, lembra das minhas mãos. Elas te sustentam. Você não está sentada nessa cadeira sozinha; eu estou aí com você, sua avó está aí, e todas as mulheres que vieram antes de nós estão de pé, atrás de você, aplaudindo cada linha de código que você escreve.
    "Você é a nossa vitória mais bonita, Rô."

29 de jul. de 2026

SESSENTA ANOS DEPOIS DE MIM


 
— Sinto falta do reboliço que eu causava — d. Alzira murmurou, olhando para as próprias mãos que eu apertava. Ela tinha quase 80 anos; eu, apenas 18.
— Saudade do eco do "fiu-fiu", dos pescoços que quase quebravam pelo balanço da minha bunda. Eu era o próprio pecado caminhando.
Engoli em seco, acariciando seu pulso.
O tom dela, de repente, desabou para a melancolia:
— Hoje, o mundo me castiga com uma indiferença que sangra, minha filha. Passei de tentação a invisível. Antigamente, o lugar por onde eu passava prendia a respiração para me ver caminhar; hoje, se cruzo as pernas, desviam o rosto, ofendidos, como se a flacidez fosse um insulto.
Meus vestidos agora são longos, como mortalhas que sepultam o corpo que já foi desejo. Mas a verdade crua... — ela sussurrou, tocando meu queixo — ...é que por dentro eu choro a morte da deusa que fui, condenada a viver como um fantasma num corpo que ninguém mais quer tocar.
Ela olhou para o próprio colo, enquanto eu me esforçava para engolir o choro.
Curvei-me e deixei um beijo demorado em sua bochecha com cheiro de talco.
— A senhora ainda é linda, d. Alzira — disse, segurando suas mãos. — O mundo pode ser cego, mas a deusa continua viva aqui dentro — toquei seu peito de leve, me levantando. — Ninguém apaga o rastro que a senhora deixou. Obrigada pelo chá e por dividir isso comigo.
Dei-lhe um último beijo na testa e saí.
Ao cruzar a porta, caminhei pela rua sentindo o vento no rosto. Olhei para as minhas pernas firmes, para a pele lisa e para os olhares que eu ainda atraía. Um arrepio correu a espinha diante do ciclo implacável do tempo. Daqui a sessenta e dois anos, com o coração nostálgico, seria eu sentada à mesa, repetindo exatamente as mesmas palavras para uma garota de dezoito anos.

23 de jul. de 2026

LEITOR OU PERSEGUIDOR?

 

       Um dos meus leitores — ou melhor, ex-leitor — teve o desplante de aparecer na minha casa com uma caixa de bombons para me dar. Ninguém perguntou se eu ou meus pais gostamos ou queríamos aquilo, mas ele simplesmente trouxe. Minha mãe, com uma inocência que beira a ingenuidade, permitiu que o sujeito entrasse e, quando chegamos, porque outro blogueiro, amigo da gente, estava comigo, a situação era surreal: quem acabou ficando do lado de fora da própria casa fui eu!
      O amigo que estava comigo, ficou indignado com tamanha petulância. Afinal, ninguém em sã consciência invade o espaço de uma garota sem ser convidado, mas esse sujeito achou que podia. Há dias ele vinha se "engraçando" nos comentários, e eu, na tentativa de poupar meus pais e outras pessoas, não disse nada. Mas vir à minha casa? Isso cruzou todos os limites!
      Exigi que ele saísse e viesse falar comigo no corredor, onde eu estava com o meu amigo. Meus pais que o acolheram lá dentro não entenderam nada na hora, mas eu, que leio a respeito das táticas que esses cafajestes usam para manipular pessoas incautas, fiz exatamente o que precisava ser feito: impus uma barreira.
      Assim que ele se retirou, entrei com o meu amigo e retomamos nossa conversa — nós, protegidos do lado de dentro, e o atrevido no lugar que lhe cabe: do lado de fora da porta. Esses misóginos precisam se decidir: ou aceitam um corretivo à altura de sua ousadia, ou aprendem, de uma vez por todas, a se comportar.
      Não acredito que ele terá o bom senso de parar de ler meus artigos ou de comentar, mas se o fizer, o prazer da sua ausência será, sem dúvida, muito maior do que qualquer audiência que ele possa me dar.

18 de jul. de 2026

SOCORRO, MEU CÉREBRO AGORA PENSA EM CÓDIGO!

 



           Se você tivesse me conhecido há três meses, acharia que eu era uma pessoa normal.  Eu olhava para um elevador e via apenas... um elevador. Hoje? Olho para os botões e começo a mentalizar um "if-else" infinito para decidir se ele para no 4º andar ou ignora o meu atraso para a aula de Cálculo.
     Dizem que a faculdade de Engenharia muda a gente, mas ninguém avisa que a programação é um caminho sem volta para a "Matrix" da vida real. Antes, eu achava que "fazer um app" era simples como postar um "story". Agora, após passar quatro horas tentando entender por que um ponto e vírgula derrubou todo o meu projeto, desenvolvi um respeito religioso por qualquer coisa que funcione. Se o micro-ondas esquenta a comida sem dar "Runtime Error", eu quase sinto vontade de aplaudir. Aprender a programar é, basicamente, aprender a ser humilde perante uma máquina que só faz o que você manda — e nós, geralmente, mandamos errado.
     A lógica de programação grudou na minha rotina de um jeito que não consigo mais tomar café sem pensar na eficiência do processo. O problema é que a vida real não aceita Ctrl+Z. Se eu cometo um erro de lógica em uma conversa com o crush (que, por sinal, eu não tenho), não tem como dar um "reboot" no servidor e fingir que nada aconteceu.
     Uma pessoa comum, ao ver um "site" bonito, fica feliz. Já o estudante de computação quer saber qual "framework" usaram, como o banco de dados suporta o tráfego e por que o botão de "Sair" está com um "delay" de 2ms. A gente perde a paz, mas ganha um superpoder: entender os bastidores do mundo moderno.
     Resumo do semestre até agora: meu café está frio, meu código está com 42 avisos de erro e eu nunca estive tão animada. Afinal, se a vida é um grande código mal escrito, estou aqui justamente para aprender a "buildar" algo melhor ou, pelo menos, entender por que o "bug" aconteceu.

13 de jul. de 2026

O BRILHO QUE VEJO NOS OLHOS DA RÔ.

 



     Abrir este diário é como caminhar pelas ruelas ensolaradas do Rio de Janeiro e encontrar, em cada esquina, o brilho de uma menina que descobriu cedo que as palavras são os melhores brinquedos do mundo.  Nestas páginas, conhecemos a pequena Rô — uma narradora nata que transformou a sala de casa em seu primeiro palco.
     Com uma sabedoria que parecia vir de outros tempos, ela encantava sua plateia mais fiel, a avó, com histórias que transbordavam doçura e uma consciência rara.
     A Rô sempre soube quem era: o encontro perfeito de mundos, uma menina preta orgulhosa de sua identidade, que via no contraste suave do pai branco e na herança retinta da mãe o desenho mais bonito do afeto. Sua inteligência, porém, não cabia apenas entre quatro paredes. Na escola, o nome "Rô" tornou-se referência, um sinônimo de excelência que deixava professores maravilhados.
     Enquanto o mundo ainda aprendia a soletrar, ela já devorava livros inteiros e resolvia palavras cruzadas complexas num piscar de olhos, provando que o conhecimento é uma ferramenta de liberdade.
    Mas, para além da genialidade, o que move o coração da Rô é o que é feito à mão.
     Entre as bonecas modernas que ganhava da mãe e as bonecas de pano costuradas pela avó, sua escolha era sempre pelo afeto.
     Aquelas bonecas de retalhos tinham alma, cheiro de carinho e guardavam segredos que só o amor de neta e avó consegue fiar.
     Este diário é o registro desse crescimento. É o rastro de uma menina que cresceu provando que a inteligência e o amor são as cores mais bonitas que alguém pode carregar.
     Seja bem-vindo ao mundo da Rô, onde cada palavra é um convite para enxergar o mundo com mais brilho e verdade.
     Parabéns, pequeno gênio!  E um beijo do "tio",
Silvioafonso.