T R A D U T O R
1 de out. de 2026
O VOTO SEM ILUSÃO
26 de set. de 2026
O ÔNIBUS DE GUAPORÉ
No feriado passado, meu pai levou a mim e a minha mãe à casa da minha avó.
Foi uma das melhores coisas que me aconteceram este ano. Descansei a cabeça, vi a horta de onde vovó tira os temperos e o verde das saladas e, como de costume, ela nos contou mais uma de suas bonitas histórias. Vou tentar passar para vocês:
Um imigrante italiano tinha um hotel em Guaporé, no Rio Grande do Sul, famoso pela comida farta e generosa. O ônibus que vinha da capital sempre parava ali para o almoço. Em um sábado, três ônibus vindos do interior encostaram. Todos os passageiros desceram para comer, menos um adolescente. Ele continuou sentado, com a cabeça encostada na janela.
O hoteleiro, um homem de coração gigante, percebeu e se perguntou: "Será que ele não gostou daqui? Será que já almoçou? Por que não desceu?". Ele subiu no ônibus e questionou o jovem:
— Por que você não desceu com os outros?
O rapaz, de sobrancelhas espessas, respondeu timidamente:
— Gastei tudo na passagem.
Ele estudava no Centro Técnico Agrícola em Viamão e estava viajando para Carazinho, onde morava sua família. Não tinha um centavo no bolso.
O italiano puxou o jovem pelo braço e decretou:
— Ninguém passa fome em Guaporé!
Sentou o garoto na cabeceira da mesa e serviu um prato suntuoso: arroz, feijão, bifes na chapa, massa e aquele ovo perfeito, com a gema mole. O jovem limpou o prato. A timidez deu lugar ao sorriso e à conversa — ele havia sido transformado pelo acolhimento. Ao final, o italiano ainda lhe garantiu uma segunda rodada. O jovem já estava rindo — porque a gente só ri de verdade depois que ganha intimidade.
Quem se tornou esse jovem? — perguntou minha vó. Leonel Brizola — meu pai respondeu. Ele viria a ser governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro. E o que Brizola fez em seus mandatos? — continuou minha avó: Criou as escolas de tempo integral com refeições garantidas para as crianças (os CIEPs).
— A verdade é que você só faz aquilo que já faltou na sua vida — disse ela ao deixar a mesa para fazer o café.
Vovó nos deu uma profunda lição sobre o acolhimento. Esse episódio marcante da juventude de Leonel Brizola, que eu não conhecia, realmente moldou quem ele viria a se tornar. Órfão de pai e de origem extremamente humilde, como descobri em pesquisas, ele sentiu na pele a fome e a falta de oportunidades antes de conseguir se formar em engenharia e, mais tarde, tornar-se o político que foi.
Dei aquele sorriso para o meu pai e, pegando a mão da minha mãe, falei para a vovó do orgulho que eu tinha das suas conversas.
21 de set. de 2026
COSTURANDO SONHOS
Atrás do barulho ritmado da máquina de costura, existe um silêncio que ninguém ouve. É ali, entre retalhos e linhas, que a mãe de Gabriel esconde o cansaço de uma jornada dupla. Ela é o teto e o chão, o sustento e o aconchego. É a mãe que, por força da vida, precisou aprender a ser pai também.
16 de set. de 2026
UM DOCE DE VIZINHA
Quero contar uma história rápida que minha avó viveu e que me fez pensar muito. Uma vizinha nova se mudou para a rua dela e logo ganhou uma fama estranha por levar à minha avó duas fatias de bolo que ela assava de vez em quando. Minha avó achava aquilo uma grande bobagem e dizia para o meu avô que era melhor levar o bolo inteiro ou nem se desse ao trabalho.
Um dia, ao receber o pratinho de sempre, minha avó cutucou: — Você não sabe fazer bolo pequeno? — A vizinha só riu: — Sei sim.
A explicação veio numa conversa na calçada na semana seguinte. Minha avó comentou sobre o mistério das duas fatias, e a vizinha foi direta: — É de propósito. Se eu lhe der um bolo inteiro, a senhora vai se sentir na obrigação de me devolver algo na forma. Duas fatias a senhora come sem culpa. É só um carinho.
Minha avó travou na hora. Ela percebeu que era verdade e que realmente se sentiria em dívida se ganhasse o bolo todo. Desde então, quando aquela vizinha bate no portão, minha avó não vê mais o que seus olhos lhe mostram. Vê um abraço em forma de doce. Um jeito delicado de se fazer presente sem exigir nada de volta.
Que maluquice o jeito como a gente julga as coisas sem entender o cuidado que tem por trás, né? Eu achei essa vizinha genial demais.
11 de set. de 2026
RAÍZES DE NÓS




