T R A D U T O R

22 de abr. de 2026

LEITOR OU PERSEGUIDOR?

 

       Um dos meus leitores — ou melhor, ex-leitor — teve o desplante de aparecer na minha casa com uma caixa de bombons para me dar. Ninguém perguntou se eu ou meus pais gostamos ou queríamos aquilo, mas ele simplesmente trouxe. Minha mãe, com uma inocência que beira a ingenuidade, permitiu que o sujeito entrasse e, quando chegamos, porque outro blogueiro, amigo da gente, estava comigo, a situação era surreal: quem acabou ficando do lado de fora da própria casa fui eu!
      O amigo que estava comigo, ficou indignado com tamanha petulância. Afinal, ninguém em sã consciência invade o espaço de uma garota sem ser convidado, mas esse sujeito achou que podia. Há dias ele vinha se "engraçando" nos comentários, e eu, na tentativa de poupar meus pais e outras pessoas, não disse nada. Mas vir à minha casa? Isso cruzou todos os limites!
      Exigi que ele saísse e viesse falar comigo no corredor, onde eu estava com o meu amigo. Meus pais que o acolheram lá dentro não entenderam nada na hora, mas eu, que leio a respeito das táticas que esses cafajestes usam para manipular pessoas incautas, fiz exatamente o que precisava ser feito: impus uma barreira.
      Assim que ele se retirou, entrei com o meu amigo e retomamos nossa conversa — nós, protegidos do lado de dentro, e o atrevido no lugar que lhe cabe: do lado de fora da porta. Esses misóginos precisam se decidir: ou aceitam um corretivo à altura de sua ousadia, ou aprendem, de uma vez por todas, a se comportar.
      Não acredito que ele terá o bom senso de parar de ler meus artigos ou de comentar, mas se o fizer, o prazer da sua ausência será, sem dúvida, muito maior do que qualquer audiência que ele possa me dar.

20 de abr. de 2026

BEIJO DE CHOCOLATE


      Lembro-me bem do dia em que meu pai e o Silvio Afonso se reuniram em nossa sala. Com uma convicção que me marcou, Silvio dizia nunca ter conhecido alguém tão fiel quanto o próprio pai. Aqueles exemplos de retidão ficaram guardados em minha memória como um verdadeiro pilar de caráter.
     Ontem, na padaria, vi a dona do estabelecimento tricotando com uma idosa que eu nunca vi mais gorda. Elas cochichavam sobre um caso que parecia ecoar aquela conversa antiga. Curiosa, fiz-me de sonsa para ouvir sem ser notada. O assunto era a vizinha do 139 e — adivinha com quem? Com o meu pai!
     Se a mulher não tivesse mencionado o tom de loiro do cabelo da 'sujeita', eu jamais acreditaria que aquela figura — que minha mãe quase esbofeteou tempos atrás — estava rondando meu velho de novo. Mas meu pai é exatamente o que Silvio Afonso descreveu: um homem honrado. Ele não se dobra, pouco importa a beleza ou o dinheiro que a outra ostente.
     Como eu não podia abrir o bico para minha mãe, muito menos para a linguaruda da minha prima ou para as minhas amigas, guardei o segredo no peito. Ao chegar em casa com três sonhos, cinco pãezinhos quentes e uma caixa de chocolates, tasquei-lhe um beijo estalado. Meu pai ficou sem entender nada, mas aquele gesto era o meu jeito de dizer o orgulho que sinto do homem que ele é."


15 de abr. de 2026

DIVIDENDOS DE SANGUE

 



     Entrei na faculdade achando que finalmente entenderia o mundo, mas acabo esbarrando na lógica cruel da guerra. Quando EUA e Irã se enfrentam, o mercado não chora; ele acelera. Defesa, petróleo, mineração... tudo sobe. É o lucro operando como o motor do caos. Só que o custo real é humano: é o sangue de quem confiou em promessas de paz e recebeu munição.
     É surreal pensar que existe bônus corporativo sobre a venda de armamentos. Esses arquitetos do conflito, que se escondem atrás de telas e cifras, esquecem que nem todo o dinheiro do mundo compra imunidade contra a própria finitude. Seria tão mais simples se o diálogo substituísse o front, se um jantar e o respeito bastassem... Mas o mercado ignora o valor da vida, pois ela não gera gráficos de barras.
     Será que esses loucos não percebem que reconstruir o que a guerra destrói custa muito mais caro do que o lucro pelo qual eles comemoram hoje? No fim, a conta da destruição sempre será maior que qualquer dividendo.

10 de abr. de 2026

CARIDADE CEGA.

 

       Cara, é bizarro. O primo da minha mãe é a maior contradição em pessoa.   O mesmo cara que surta se a filha der "oi" pra um estranho, do nada escancara o portão pra desconhecidos só porque rolou um temporal e a galera ficou ao relento. 
    Tipo, caridade é maneiro, óbvio, mas precisava sacrificar a privacidade da própria família?
    No meio dessa galera que ele botou pra dentro, tem um garoto da idade da minha prima que exala uma vibe muito sinistra. O papo do cara é agressivo, “papo de rua” mesmo, como diz minha mãe, e o clima na casa ficou pesado real. Em menos de 48 horas a máscara caiu: o sujeito fica rondando os corredores, fazendo umas perguntas invasivas e com um olhar que, segundo minha prima — que tá tremendo de medo —, parece que tá despindo ela o tempo todo.
    E o pior: pra não contrariar o pai, ela não pode nem trancar a porta do quarto. Imagina o pânico! Recentemente o bagulho ficou sério: ela flagrou o vulto dele espiando pelo basculante do banheiro bem na hora que a mãe dela tava no banho. O estômago revirou, ela travou na hora. Se o cara tem coragem de invadir a privacidade da dona da casa, o que ele não faria com a filha? Minha prima não mora mais num lar, ela tá num campo minado, vigiando cada passo desse estranho que o pai dela, na maior cegueira, jura que é o “próximo” que ele está ajudando.

5 de abr. de 2026

ARQUITETO DE AVENTURAS

 

      A Páscoa chega com um cheiro diferente dos meus tempos de criança. Não é apenas o aroma do chocolate que invade a casa, mas o perfume de uma memória que insiste em bater à porta: a figura do meu tio, o irmão da minha mãe, que transformava a sala em um mapa do tesouro.
      Lembro-me dele chegando com aquela bolsa pesada, estufada de guloseimas. Eu, pequena e ansiosa, corria em sua direção com os olhos brilhando. Ele, com um talento teatral que só os tios brincalhões possuem, desarmava minha alegria com uma frase ensaiada: 'Ih, minha sobrinha, este ano o dinheiro encurtou. Não consegui trazer nada'.
      Naqueles minutos, o mundo desabava. A tristeza era profunda, como só as tragédias infantis conseguem ser. Mas a queda era apenas o impulso para o voo. Logo, o sorriso dele entregava a farsa e a mágica começava. Os ovos não eram entregues na minha mão; eram conquistados.
      'Está frio, muito frio!', ele e quem estivesse lá, no momento, exclamavam enquanto eu passava longe do esconderijo. Eu procurava nos cantos da casa, movida pelas vozes que serviam de GPS. 'Tá frio! Esquentou! Tá morno... vai queimar!'. Quando eu finalmente encontrava o brilho do papel celofane escondido atrás da poltrona ou embaixo do armário, a explosão de felicidade era tão grande que parecia preencher todos os cômodos. Ele ria. A família ria. A Páscoa era aquele barulho de descoberta e festa.
      Depois que ele partiu, o silêncio tomou o lugar do 'tá quente, tá frio'. A brincadeira se foi com ele. Hoje, os mimos chegam direto das mãos do meu pai, da minha mãe e da minha avó — que, firme como é, nunca deixou de passar a data conosco. O carinho deles é imenso, o chocolate é doce, mas o ritual já não é mesmo.
      Agora, quando a Páscoa se aproxima, eu fecho os olhos e volto a ter sete ou oito anos. Sinto o frio na barriga da dúvida e o calor da descoberta. No fundo, a maior guloseima que ele me deixou não cabe em uma bolsa: foi a capacidade de transformar, em segundos, a tristeza extrema na maior das alegrias.
      Saudade, tio. Por aqui, hoje, o coração está queimando de tanto lembrar.