T R A D U T O R

24 de jan. de 2026

CIÊNCIA EXATA – 01.

 



Fui ao shopping com minha mãe ver um filme que rolava em um daqueles cinemas. Na praça de alimentação ouvimos alguém me chamar. Era a minha ex professora de matemática, aquela que me fez trocar de colégio. Na hora que escutamos a voz dela, minha mãe foi até lá com um sorriso estampado na cara. Se eu tivesse contado o que a professora tentara fazer comigo na casa dela, talvez mamãe não ficasse assim tão contente. Eu devia ter dito que, se eu não fugisse, não faço a menor ideia do que aconteceria com ela enfiando aquela mão macia por entre as minhas coxas. A única coisa que eu me lembro é de ter sentido um troço muito esquisito. Sei lá, uma sensação diferente, tipo um calor que me subia vindo de baixo para cima. Eu não saberia dizer se ela, depois disso, tentasse coisa pior. Mas, como estávamos sós... Sei lá, vai que ela me agarra, lá dentro. E minha mãe, coitadinha, toda boba com o jeito da professora tratar sua filha, nem poderia imaginar do que ela fosse capaz. Oh, vontade de deixar minha mãe e voltar para a casa. Só não fui porque não tinha o dinheiro da passagem, senão tinha ido.  O que não quer dizer que eu seja azarada, mas sorte, sorte eu não tenho ou mamãe não teria convidado a maluca para assistir ao filme com a gente. Só que, para piorar, ela aceitou. Aceitou e escolheu sentar entre nós. Eu estava ansiosa, esperando a luz apagar. Sabia que a mão dela, em um dado momento, viria me perturbar, mas não veio. Fiquei muito zangada, não sei se comigo mesma, por pensar essas coisas ou por ela não ter se atrevido como eu pensava que fosse se atrever. O pior é não saber como me comportaria com aquela mão enfiada na minha roupa como fizera uma vez. Na saída trocaram beijos e marcaram de se encontrar novamente. Peço a Deus que me incluam fora dessa ou terei de contar tudo o que jurei não falar com ninguém. Não sei se terei coragem e até, de repente, quem sabe eu não apareça no encontro das duas?

20 de jan. de 2026

SAMBA DO ZECA

 



              Eu não tinha expectativas maiores para aquele fim de semana do que as que me foram oferecidas. Quando meu pai anunciou que nos levaria à casa do Zeca, eu me senti meio confusa, desorientada. Zeca, mas que Zeca é esse, meu Deus? — Zeca Pagodinho! — gritou minha mãe da cozinha. Eu não era uma grande admiradora desse cantor ou das músicas dele, mas como resistir quando o dono da casa, no meio da festa, levanta um microfone e, apontando para você, bate no peito e te dedica a música que está cantando naquele momento? Não apenas com ele, mas também com outros que cantavam, apontando para mim. Na verdade, não tinha certeza se cantavam para mim ou para o blogueiro, sempre ele, que não apenas nos conduziu a Xerém, mas também nos apresentou ao artista. Cara, foi a melhor tarde que já vivi na minha vida. Imagina um enorme fogão a lenha, com 12 panelas de ferro, preparando feijão e miúdos de porco para suprir uma demanda que não cessava de aumentar. “É o dia inteiro assim, quando tem samba em Xerém”—, disse uma pessoa que passou segurando um prato com cuidado para não derramar. Não consegui contar as caixas de cerveja, porém os caminhões que as transportavam, sim, contei dois.
No que se refere aos cantores, eu não tinha ideia de quem eram. — “Esse é o João Bosco. O outro, com a camisa amarrada na testa, é Diogo Nogueira. Aquela pessoa com a Zélia Duncan é o Paulinho da Viola. E os três, lá atrás, com o Zeca: são Moacyr Luz, Nelson Sargento e a filha da Elis Regina, Maria Rita. Você deve saber quem é”. Disse o blogueiro, apoiando seu braço em meu ombro, que eu, com delicadeza, retirei de cima de mim.

16 de jan. de 2026

SOLTEIRA POR OPÇÃO

                       
                 
       O namoro na fase escolar é uma opção. Pelo menos para mim e alguns que convivem comigo. Principalmente daqueles pais que nos acompanham nessa questão. Enquanto alguns colegas garantem não ver problema nenhum nisso, já certos adultos viram a cara quando tocamos no assunto. Uma pesquisa na faculdade onde estudo abordou a questão. Segundo os professores e estudiosos, adolescentes que não namoram são menos propensos à depressão e à falta de esperança. Também temos melhores habilidades sociais e de liderança.
Chegaram a essa conclusão abordando 600 estudantes de 11 a 19 anos de várias escolas e faculdades. A maioria, entre 15 e 17 anos, já tinha namorado, o que não seria nada de mais. O foco da pesquisa era descobrir quais eram as implicações para nós que optamos por não namorar.
Os professores e estudiosos já vinham fazendo relatórios anuais (mesmo antes do meu ingresso à faculdade), perguntando se os entrevistados tinham namorado naquele período e como estava o relacionamento com suas famílias e os amigos e se algum deles, de nós, teve sintomas de depressão. A definição de “namoro” para eles se referia a estar com a mesma pessoa durante um mês, pelo menos. O resto dos professores foi convidado a preencher um relatório dizendo da liderança e da habilidade social de cada um ao longo do tempo.
Nós, que não estávamos em nenhum relacionamento, fomos melhor classificados em habilidades sociais e de liderança. Já os que namoravam afirmaram sentir tristeza e desesperança com maior frequência que nós, os solteiros.
Conforme os pesquisadores, a ideia de que quem não tem namorado ou namorada é “desajustado social” definitivamente já não é considerada. O estudo garante que a opção de ficar solteiro na juventude garante um desenvolvimento normal e saudável.



11 de jan. de 2026

PRAIA FEIA.

 



Entrei emburrada naquele avião. Se ele caísse, isso não ia mudar nada para mim. Por que meu pai nos trouxe para cá ao invés de ir para Fernando de Noronha, a Praia do Espelho, talvez a Praia do Forte na Bahia ou Porto de Galinhas em Pernambuco? Eu queria ver a cara das minhas amigas quando eu contasse, mas não. Preferiu essa droga que, se olhar bem, nem consta no mapa! Na manhã do dia seguinte, eu, ainda bem chateada, abri a janela. Lá fora, o sol, que acabara de nascer, refletia na areia dourada a beleza que eu não sabia que tinha o lugar. Entre a calçada e a praia, minha mãe conversava com uma mulher com quem, graças a Deus, ainda se falam hoje em dia. A partir daquele momento, as coisas mudaram e, lentamente, como quem não quer nada, eu me aproximei. Jamais poderia imaginar que, muito perto dali, havia lugares maravilhosos como os que essa mulher e o marido fizeram questão de mostrar. A virada de chave deu todo sentido à viagem. Pedi desculpas ao meu pai, que só voltou a me tratar como antes depois do primeiro sorriso que viu em meu rosto. Foi difícil ouvir mamãe afirmar que a estadia seria de cinco dias, mas após ver tudo o que nos foi apresentado, se tivesse que passar o resto da minha vida naquele lugar, eu nem me importaria.
D. Catiaho, obrigada! A senhora provou que um gesto diz mais que um punhado de palavras. Este texto, assim como o “O Diário da Rô”, só existem por sua “culpa”.


5 de jan. de 2026

TEM RAZÃO.

 



Meu pai vive dizendo que tudo é relativo, e eu, pensando melhor, acho que ele está certo. Ele diz que um fio de cabelo na cabeça de uma pessoa é pouco, mas num prato de sopa é muito.
Uma mulher pesando 120k na terra é muito, mas estando em Marte pesa 20k. Não é gorda, diz meu pai, só está no planeta errado.
Ele acredita que a mentira gera falsos amigos, e a verdade cria possíveis inimigos. Segundo ele fala, não devemos mentir para não criar falsas amizades e nem falar sempre a verdade para não criarmos inimizades.
Pensando com a cabeça dele, meu pai está certo, certíssimo. Tudo, de fato, é relativo. Muito relativo…