T R A D U T O R

13 de mai. de 2026

O VERBO COMO ARMA

 

      A África é um berço de sons e palavras, um lugar onde se fala mais de 2.000 línguas diferentes. Quando os nossos antepassados foram trazidos à força para o Brasil, tentaram calar suas vozes, mas o coração deles continuou a falar. Para se entenderem e se unirem, eles criaram pontes: usavam gestos, repetiam palavras e contavam com a ajuda dos que já conheciam o português para traduzir o mundo novo que os cercava.
     Uma dessas línguas, muito presente no solo da Bahia, é o Iorubá (também conhecido como Nagô). Vinda de terras que hoje chamamos de Nigéria e Benin, ela era muito mais que um jeito de falar; era o fio de ouro que mantinha vivas as rezas, os costumes e a alma de um povo. É por causa dessa resistência que hoje a cultura brasileira é tão rica e bonita.
     Guardamos no coração uma herança que atravessou os mares e as gerações: a frase iorubá "Wọn ń fi inúnibíni sí wa, wọn ń pọ́n wa lójú, wọn ń fi ebi pa wa". Ela ecoa um grito que o tempo não apagou:
    "Eles nos perseguem, nos fazem sofrer e nos deixam com fome". Lembro da minha avó hesitando antes de falar, os olhos marejados refletindo uma dor que não era só dela, mas de todos os nossos que vieram antes. Aquela hesitação era um abraço de proteção; uma cicatriz de família que ainda pede o carinho do nosso silêncio. Naqueles tempos difíceis, os poderosos tratavam gente como se fosse mercadoria ou animal — algo que hoje a justiça não aceitaria, pois sabemos que o racismo e a tortura são crimes graves que não podem ser perdoados. 
     A política da época era feita para proteger apenas os grandes fazendeiros, esquecendo-se das outras pessoas. Como diz meu pai: "Os burros são os mesmos, só mudam os carroceiros".  É um lembrete de que, embora o tempo passe, precisamos estar atentos para que o povo não continue sendo esquecido.
     Mas, em meio à escuridão, brilharam luzes de coragem. Como a história de Esperança Garcia. Ela aprendeu a ler e escrever com os jesuítas e, com a ponta da pena, escreveu ao Governador do Piauí denunciando os maus-tratos e a dor de ser separada de seus filhos, mas também exigiu respeito.
     Essa carta é hoje considerada a primeira petição, no Brasil, feita por uma mulher. 
     Por sua bravura, Esperança é reconhecida pela OAB como a primeira advogada do estado, um símbolo eterno de que a palavra escrita pode libertar.
     Portanto, viva a liberdade! Viva o ser humano, em todas as suas cores, pois todos merecem viver com dignidade e paz.

11 de mai. de 2026

NO DIA DAS MÃES

 



       Passei a manhã inteira pensando no que fazer, até que achei um caderno antigo perdido no fundo da gaveta. Peguei um lápis e comecei a escrever, deixando as palavras saírem sozinhas, do jeito que vinham no coração. Não tentei fazer nada perfeito, só queria dizer o que eu sentia.
     Escrevi sobre as lembranças de quando ela fazia tranças no meu cabelo, sobre as noites em que o colo dela era o único lugar onde eu não tinha medo de nada, e agradeci por cada sorriso que ela me deu sem pedir nada em troca.
     Dobrei a folha com todo o cuidado do mundo e deixei em cima da mesa da cozinha. Do lado, desenhei um coração — meio torto, mas cheio de amor.
     Quando ela achou o papel e começou a ler, o tempo pareceu parar. Ela leu devagar, sentindo cada frase, e não aguentou: começou a chorar. Não era um choro triste, era um choro de quem se sentiu amada de verdade. Ela entendeu que, naquele papelzinho, estava a prova de que todo o carinho que ela me deu valeu a pena.
     O nosso dia foi só de abraços demorados e risadas com os olhos ainda marejados. Ali eu entendi que nenhum presente comprado chega perto do valor de um gesto sincero. Às vezes, o que parece pouco pra gente é, na verdade, tudo para o outro. Minha mãe guardou aquele papel como se fosse a coisa mais valiosa do mundo, para ler e se emocionar de novo sempre que a saudade apertar.

9 de mai. de 2026

LINDO DIA DAS MÃES

 



       Feliz Dia das Mães pra quem educa pro mundo, e não só pro agora. Tem mãe que escolhe o caminho mais difícil: o da disciplina. Meu pai sempre diz que ela não foi a "melhor mãe do mundo" no sentido tradicional, mas foi a mãe que salvou a vida dele. Ela foi o norte quando ele estava perdido, a voz firme quando ele queria desistir. Ela não criou o que ele queria, criou o que a gente precisava que ele fosse. Hoje, nos conselhos dele, é a voz dela que eu escuto. É a prova de que o amor de mãe também se manifesta na dureza, na cara feia e na exigência. Uma mulher que carregou o destino de uma família inteira perto do coração.


4 de mai. de 2026

PASSAPORTE DE PAPEL

 



Aos 15 anos, eu já havia pisado nas areias de Hyams Beach, em Jervis Bay, na Austrália — as mais brancas do mundo. Já experimentado a adrenalina de voar no X-59 da NASA, o lendário jato supersônico que me deixou tonta, enjoada e firmemente afivelada ao cockpit. Mergulhei nas águas cristalinas de Fernando de Noronha, explorando a vida marinha da Baía do Sancho e da Praia da Conceição, e guardo na memória o azul profundo da Ilha de Âncora, em Búzios, e o charme da Praia Vermelha, no Rio. Eu amo cada uma dessas lembranças! Claro, qualquer um diria que, para voar pela NASA ou mergulhar nesses paraísos, é preciso ser muito influente ou ter uma conta bancária astronômica. Acontece que eu não tenho nem uma coisa, nem outra. Se você quer saber como consegui tais façanhas, eu revelo o segredo: lendo. Desde os cinco anos, eu vou para onde quero sem pedir licença a ninguém. Já conversei com príncipes e fadas, testemunhei guerras históricas e presenciei milagres de Cristo — aliás, até com Ele já bati um papo. O mais impressionante? Fiz tudo isso sem sair do meu quarto, da biblioteca ou do cantinho no último banco do ônibus. O livro tem um poder que a maioria não imagina. Ele te transporta dos lugares mais sublimes aos mais esquisitos; transforma você em rainha ou em morador de rua, tudo sem que você precise dar um único passo. É lindo, não é? Por isso, exalto os autores! Imagine uma garota pobre, que não gosta muito de sair, sem essa 'janela' aberta para o mundo? Uma janela que dá para os jardins mais exuberantes, para as estrelas mais brilhantes e para os sonhos que todas nós sonhamos.

29 de abr. de 2026

MEU AMIGO BLOGUEIRO

 

     Eu e esse blogueiro vivemos nesse eterno jogo de gato e rato. É uma dinâmica que eu adoro e que nasce de uma admiração muito profunda que tenho por ele — e que sinto que ele também tem por mim. Mas, parando para observar o jeito dele, fica claro que a história dele guarda marcas que nem todo mundo consegue ver. Se eu percebo isso, é porque a minha realidade foi o oposto da dele.
     Ele não teve aquela infância leve que tantos meninos tiveram. O que transparece é uma criação marcada pela repressão. Fico imaginando o menino que ele foi, enfrentando dedos em riste e vozes agudas a cada erro bobo, sentindo-se o menor ser do mundo, encolhido num canto da casa. É de cortar o coração.
     Mas o tempo passou. Aquele menino se esforçou, estudou e foi à luta. Com o fruto do trabalho dele, ele deu aos pais tudo o que achou que eles mereciam. É um gesto lindo, mas que me faz pensar: e o alicerce de tudo isso? A infância, que deveria ser o nosso porto seguro, parece ser um lugar onde ele prefere não pôr os pés. Eu diria isso se fosse a analista dele, mas como sou só alguém que o admira...
     Quando o assunto vira brincadeira de criança, esse cara se retrai. É um silêncio que diz tanta coisa. Ele não demonstra fragilidade, não fala de dores passadas e faz questão de dizer que não chora por isso agora que é adulto. Mas o comportamento dele, esse jeito de se afastar do passado, é a prova mais honesta de que aquela criança ainda mora lá dentro, buscando um colo onde possa fechar os olhinhos, sentir o beijo da mãe e finalmente dormir.