O ar-condicionado do laboratório lutava pra sobreviver enquanto o Professor, veterano da Computação, já pensava em jogar a toalha. O projeto era um sistema de monitoramento em tempo real que, do nada, começava a fazer um barulho estranho. Eu já tinha lido sobre isso e até pesquisei o assunto a fundo, mas não imaginava que veria acontecer ao vivo, e logo na frente da minha turma.
Todos na sala diziam, rindo, que o ruído era o hardware pedindo arrego. Mas eu, no auge do meu 4º período e com a vivência de quem pega metrô lotado todo dia, sentia que ali tinha algo mais; a teoria que eu tinha estudado não saía da minha cabeça.
— Gente, já trocamos os cabos, já aterramos a carcaça. É defeito de fabricação — disse o professor, limpando o suor da lente dos óculos.
— Professor! — falei, levantando a mão. — O senhor está olhando pro fio, mas o erro tá no tempo. Olha aqui. Chamei o professor pro monitor.
Eu não tava usando o programa padrão da aula; tinha montado um rastreador próprio, baseado no artigo de uma faculdade americana, que usei pra vigiar cada movimento do sistema em tempo real. Enquanto os "gênios" da turma tentavam otimizar o cálculo de busca, eu percebi que o sistema tava entrando em um tremendo "nó cego" (o tal do deadlock) por causa de uma prioridade mal configurada na fila de tarefas.
(Era exatamente o que eu tinha lido).
— O problema é que o sistema é "educado" demais — expliquei, apontando pro código. — Ele tá dando passagem pra todo mundo, aí a área de espera enche e o processo principal trava. Ele não tá quebrado, mestre, ele tá engarrafado. Igual à Linha Vermelha às seis da tarde!
A galera em volta parou pra olhar.
Fiz o que ninguém tinha coragem: criei um atalho na prioridade padrão da biblioteca que a faculdade usava há décadas. Foi um "puxadinho" lógico, seguindo a explicação do artigo.
— Se liga na mágica.
Dei o enter, torcendo para a teoria estar certa.
O terminal, que antes parecia um filme dos trapalhões dando erro, estabilizou. Os dados começaram a fluir bonitinho. Um minuto, cinco minutos, meia hora... e a temperatura da máquina até baixou.
O professor coçou a cabeça, sem tirar os olhos da tela por uns três minutos, mudo.
— Você reescreveu a gerência de fila da biblioteca, Rô? Isso nem tá na ementa desse semestre!
— Pois é, professor. É que lá onde eu moro, se a gente não der um empurrãozinho no ônibus, a gente não chega em casa. O código só precisava desse mesmo empurrão pra sair do lugar.
Ele riu e balançou a cabeça, orgulhoso. — Cuidado, hein? Desse jeito você acaba se formando antes da hora!



