T R A D U T O R

21 de abr. de 2026

SOCORRO, MEU CÉREBRO AGORA PENSA EM CÓDIGO!

 



           Se você tivesse me conhecido há três meses, acharia que eu era uma pessoa normal.  Eu olhava para um elevador e via apenas... um elevador. Hoje? Olho para os botões e começo a mentalizar um "if-else" infinito para decidir se ele para no 4º andar ou ignora o meu atraso para a aula de Cálculo.
     Dizem que a faculdade de Engenharia muda a gente, mas ninguém avisa que a programação é um caminho sem volta para a "Matrix" da vida real. Antes, eu achava que "fazer um app" era simples como postar um "story". Agora, após passar quatro horas tentando entender por que um ponto e vírgula derrubou todo o meu projeto, desenvolvi um respeito religioso por qualquer coisa que funcione. Se o micro-ondas esquenta a comida sem dar "Runtime Error", eu quase sinto vontade de aplaudir. Aprender a programar é, basicamente, aprender a ser humilde perante uma máquina que só faz o que você manda — e nós, geralmente, mandamos errado.
     A lógica de programação grudou na minha rotina de um jeito que não consigo mais tomar café sem pensar na eficiência do processo. O problema é que a vida real não aceita Ctrl+Z. Se eu cometo um erro de lógica em uma conversa com o crush (que, por sinal, eu não tenho), não tem como dar um "reboot" no servidor e fingir que nada aconteceu.
     Uma pessoa comum, ao ver um "site" bonito, fica feliz. Já o estudante de computação quer saber qual "framework" usaram, como o banco de dados suporta o tráfego e por que o botão de "Sair" está com um "delay" de 2ms. A gente perde a paz, mas ganha um superpoder: entender os bastidores do mundo moderno.
     Resumo do semestre até agora: meu café está frio, meu código está com 42 avisos de erro e eu nunca estive tão animada. Afinal, se a vida é um grande código mal escrito, estou aqui justamente para aprender a "buildar" algo melhor ou, pelo menos, entender por que o "bug" aconteceu.

20 de abr. de 2026

BEIJO DE CHOCOLATE


      Lembro-me bem do dia em que meu pai e o Silvio Afonso se reuniram em nossa sala. Com uma convicção que me marcou, Silvio dizia nunca ter conhecido alguém tão fiel quanto o próprio pai. Aqueles exemplos de retidão ficaram guardados em minha memória como um verdadeiro pilar de caráter.
     Ontem, na padaria, vi a dona do estabelecimento tricotando com uma idosa que eu nunca vi mais gorda. Elas cochichavam sobre um caso que parecia ecoar aquela conversa antiga. Curiosa, fiz-me de sonsa para ouvir sem ser notada. O assunto era a vizinha do 139 e — adivinha com quem? Com o meu pai!
     Se a mulher não tivesse mencionado o tom de loiro do cabelo da 'sujeita', eu jamais acreditaria que aquela figura — que minha mãe quase esbofeteou tempos atrás — estava rondando meu velho de novo. Mas meu pai é exatamente o que Silvio Afonso descreveu: um homem honrado. Ele não se dobra, pouco importa a beleza ou o dinheiro que a outra ostente.
     Como eu não podia abrir o bico para minha mãe, muito menos para a linguaruda da minha prima ou para as minhas amigas, guardei o segredo no peito. Ao chegar em casa com três sonhos, cinco pãezinhos quentes e uma caixa de chocolates, tasquei-lhe um beijo estalado. Meu pai ficou sem entender nada, mas aquele gesto era o meu jeito de dizer o orgulho que sinto do homem que ele é."


15 de abr. de 2026

DIVIDENDOS DE SANGUE

 



     Entrei na faculdade achando que finalmente entenderia o mundo, mas acabo esbarrando na lógica cruel da guerra. Quando EUA e Irã se enfrentam, o mercado não chora; ele acelera. Defesa, petróleo, mineração... tudo sobe. É o lucro operando como o motor do caos. Só que o custo real é humano: é o sangue de quem confiou em promessas de paz e recebeu munição.
     É surreal pensar que existe bônus corporativo sobre a venda de armamentos. Esses arquitetos do conflito, que se escondem atrás de telas e cifras, esquecem que nem todo o dinheiro do mundo compra imunidade contra a própria finitude. Seria tão mais simples se o diálogo substituísse o front, se um jantar e o respeito bastassem... Mas o mercado ignora o valor da vida, pois ela não gera gráficos de barras.
     Será que esses loucos não percebem que reconstruir o que a guerra destrói custa muito mais caro do que o lucro pelo qual eles comemoram hoje? No fim, a conta da destruição sempre será maior que qualquer dividendo.

10 de abr. de 2026

CARIDADE CEGA.

 

       Cara, é bizarro. O primo da minha mãe é a maior contradição em pessoa.   O mesmo cara que surta se a filha der "oi" pra um estranho, do nada escancara o portão pra desconhecidos só porque rolou um temporal e a galera ficou ao relento. 
    Tipo, caridade é maneiro, óbvio, mas precisava sacrificar a privacidade da própria família?
    No meio dessa galera que ele botou pra dentro, tem um garoto da idade da minha prima que exala uma vibe muito sinistra. O papo do cara é agressivo, “papo de rua” mesmo, como diz minha mãe, e o clima na casa ficou pesado real. Em menos de 48 horas a máscara caiu: o sujeito fica rondando os corredores, fazendo umas perguntas invasivas e com um olhar que, segundo minha prima — que tá tremendo de medo —, parece que tá despindo ela o tempo todo.
    E o pior: pra não contrariar o pai, ela não pode nem trancar a porta do quarto. Imagina o pânico! Recentemente o bagulho ficou sério: ela flagrou o vulto dele espiando pelo basculante do banheiro bem na hora que a mãe dela tava no banho. O estômago revirou, ela travou na hora. Se o cara tem coragem de invadir a privacidade da dona da casa, o que ele não faria com a filha? Minha prima não mora mais num lar, ela tá num campo minado, vigiando cada passo desse estranho que o pai dela, na maior cegueira, jura que é o “próximo” que ele está ajudando.

5 de abr. de 2026

ARQUITETO DE AVENTURAS

 

      A Páscoa chega com um cheiro diferente dos meus tempos de criança. Não é apenas o aroma do chocolate que invade a casa, mas o perfume de uma memória que insiste em bater à porta: a figura do meu tio, o irmão da minha mãe, que transformava a sala em um mapa do tesouro.
      Lembro-me dele chegando com aquela bolsa pesada, estufada de guloseimas. Eu, pequena e ansiosa, corria em sua direção com os olhos brilhando. Ele, com um talento teatral que só os tios brincalhões possuem, desarmava minha alegria com uma frase ensaiada: 'Ih, minha sobrinha, este ano o dinheiro encurtou. Não consegui trazer nada'.
      Naqueles minutos, o mundo desabava. A tristeza era profunda, como só as tragédias infantis conseguem ser. Mas a queda era apenas o impulso para o voo. Logo, o sorriso dele entregava a farsa e a mágica começava. Os ovos não eram entregues na minha mão; eram conquistados.
      'Está frio, muito frio!', ele e quem estivesse lá, no momento, exclamavam enquanto eu passava longe do esconderijo. Eu procurava nos cantos da casa, movida pelas vozes que serviam de GPS. 'Tá frio! Esquentou! Tá morno... vai queimar!'. Quando eu finalmente encontrava o brilho do papel celofane escondido atrás da poltrona ou embaixo do armário, a explosão de felicidade era tão grande que parecia preencher todos os cômodos. Ele ria. A família ria. A Páscoa era aquele barulho de descoberta e festa.
      Depois que ele partiu, o silêncio tomou o lugar do 'tá quente, tá frio'. A brincadeira se foi com ele. Hoje, os mimos chegam direto das mãos do meu pai, da minha mãe e da minha avó — que, firme como é, nunca deixou de passar a data conosco. O carinho deles é imenso, o chocolate é doce, mas o ritual já não é mesmo.
      Agora, quando a Páscoa se aproxima, eu fecho os olhos e volto a ter sete ou oito anos. Sinto o frio na barriga da dúvida e o calor da descoberta. No fundo, a maior guloseima que ele me deixou não cabe em uma bolsa: foi a capacidade de transformar, em segundos, a tristeza extrema na maior das alegrias.
      Saudade, tio. Por aqui, hoje, o coração está queimando de tanto lembrar.