T R A D U T O R

5 de out. de 2026

ENSINA-ME A OLHAR!

 

       Eu ainda era muito pequena e morava com meus pais na casa dos meus avós. Aconchegada no colo do meu vô, logo após o café, eu me perdia em suas palavras. Ele sabia como acalmar meu coração de criança sapeca. Com paciência infinita, ele gravava ensinamentos na minha alma contando histórias, e uma delas nunca mais saiu dos meus pensamentos.
     Olhando nos meus olhos, ele me disse:
     —Rô, quando eu era jovem me chamaram para um teste muito curioso. Eu, por achar que já sabia de tudo, aceitei o desafio.
      Ele sorriu e continuou:
    — Minha missão era contar o número de passes que um time de basquete dava durante um jogo. Me sentaram diante de uma grande televisão. Concentrado, contei cada movimento perfeitamente.
     O vovô fez uma pausa carinhosa:
   — Quando o vídeo terminou, o avaliador entrou na sala e perguntou: "E o urso?".
     Eu, confuso, respondi: "Que urso?".
     Ele acariciou meus cabelos.
     — Rô, um urso de pelúcia havia cruzado a quadra bem no meio do jogo. Eu, focado nas bolas, simplesmente não vi. Quase ninguém vê.
      Sua voz ficou ainda mais terna:
      — Isso se chama Atenção Seletiva, minha querida. Isso prova que nós não enxergamos o mundo como ele é. Nós enxergamos apenas aquilo para onde apontamos o nosso olhar.
      Ele segurou minhas pequenas mãos:
      — Quem controla a sua atenção, no fim das contas, escolhe qual mundo vai existir para você. Achamos que vemos a realidade toda, mas vemos apenas um recorte. E o pior: nem sempre somos nós que escolhemos esse enquadramento.
     Você gostou da história, minha boneca?
     Minha resposta foi um abraço apertado e um sim bem ruidoso. Ele me apertou de volta no peito e disse bem baixinho no meu ouvido:
     — Então nunca se esqueça disso, minha linda menininha... Olhe sempre para o que é bom, cuide do seu coração e escolha você mesma para onde olhar. O vovô ama muito você.
     Ganhei um beijo terno na testa. E, naquele lar que era o coração da nossa família, ganhei a certeza mais bonita da infância: a de ter assistido à lição mais importante da minha vida, em uma aula sem quadro, sem giz e grifada apenas com o amor do meu avô.


1 de out. de 2026

O VOTO SEM ILUSÃO

 

     Eu venho de uma família humilde e sei, exatamente, o valor de cada centavo. Isso significa que meu foco principal não é a ideologia do partido A ou B, mas sim o preço do arroz e o valor da passagem do ônibus.
    Confesso que não gosto de política; acho o assunto mais chato do que fila de banco em dia de pagamento. Não tenho político de estimação e meu coração não bate por nenhuma bandeira partidária. O único partido pelo qual eu torço, de verdade, é aquele que se compromete a cuidar da nossa nação e, principalmente, da classe trabalhadora. Afinal, a minha realidade não é definida por discursos bonitos na televisão, mas pelo suor dos meus pais e pela nossa luta diária.
    Queria que eles soubessem que o meu voto não é paixão de torcida organizada — é uma decisão de negócios! Por isso, quero governantes que entendam que o Brasil, na real, precisa de saúde, educação de qualidade e emprego, e não de brigas infantis na internet. Agora, olhar para a política sendo pobre, como somos, nos dá uma visão muito clara das coisas: não dá para comer promessas, nem pagar os boletos do mês com falsas esperanças.
    Por isso, mesmo não gostando do assunto, eu entendo a sua importância e vou votar; mas com a cabeça fria e o bolso bem consciente. Espero que entendam de uma vez por todas que o meu partido é o meu País e, também, a minha classe social. Se o candidato for capaz de trabalhar por nós de verdade, ele terá o meu respeito. Caso contrário, continuará sendo apenas mais um rosto no panfleto que eu vou usar para me abanar no ponto de ônibus.


26 de set. de 2026

O ÔNIBUS DE GUAPORÉ

 

    No feriado passado, meu pai levou a mim e a minha mãe à casa da minha avó.
  Foi uma das melhores coisas que me aconteceram este ano. Descansei a cabeça, vi a horta de onde vovó tira os temperos e o verde das saladas e, como de costume, ela nos contou mais uma de suas bonitas histórias. Vou tentar passar para vocês:
   Um imigrante italiano tinha um hotel em Guaporé, no Rio Grande do Sul, famoso pela comida farta e generosa. O ônibus que vinha da capital sempre parava ali para o almoço. Em um sábado, três ônibus vindos do interior encostaram. Todos os passageiros desceram para comer, menos um adolescente. Ele continuou sentado, com a cabeça encostada na janela.
 O hoteleiro, um homem de coração gigante, percebeu e se perguntou: "Será que ele não gostou daqui? Será que já almoçou? Por que não desceu?". Ele subiu no ônibus e questionou o jovem:
— Por que você não desceu com os outros?
O rapaz, de sobrancelhas espessas, respondeu timidamente:
— Gastei tudo na passagem.
 Ele estudava no Centro Técnico Agrícola em Viamão e estava viajando para Carazinho, onde morava sua família. Não tinha um centavo no bolso.
   O italiano puxou o jovem pelo braço e decretou:
— Ninguém passa fome em Guaporé!
   Sentou o garoto na cabeceira da mesa e serviu um prato suntuoso: arroz, feijão, bifes na chapa, massa e aquele ovo perfeito, com a gema mole. O jovem limpou o prato. A timidez deu lugar ao sorriso e à conversa — ele havia sido transformado pelo acolhimento. Ao final, o italiano ainda lhe garantiu uma segunda rodada. O jovem já estava rindo — porque a gente só ri de verdade depois que ganha intimidade.
  Quem se tornou esse jovem? — perguntou minha vó. Leonel Brizola — meu pai respondeu. Ele viria a ser governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro. E o que Brizola fez em seus mandatos? — continuou minha avó: Criou as escolas de tempo integral com refeições garantidas para as crianças (os CIEPs). 
— A verdade é que você só faz aquilo que já faltou na sua vida — disse ela ao deixar a mesa para fazer o café.
  Vovó nos deu uma profunda lição sobre o acolhimento. Esse episódio marcante da juventude de Leonel Brizola, que eu não conhecia, realmente moldou quem ele viria a se tornar. Órfão de pai e de origem extremamente humilde, como descobri em pesquisas, ele sentiu na pele a fome e a falta de oportunidades antes de conseguir se formar em engenharia e, mais tarde, tornar-se o político que foi.
   Dei aquele sorriso para o meu pai e, pegando a mão da minha mãe, falei para a vovó do orgulho que eu tinha das suas conversas.

21 de set. de 2026

COSTURANDO SONHOS

   


   Atrás do barulho ritmado da máquina de costura, existe um silêncio que ninguém ouve. É ali, entre retalhos e linhas, que a mãe de Gabriel esconde o cansaço de uma jornada dupla. Ela é o teto e o chão, o sustento e o aconchego. É a mãe que, por força da vida, precisou aprender a ser pai também.
   Muitas vezes, o coração dela aperta de mansinho. Ela olha ao redor e lamenta não ter condições de dar a Gabriel as coisas materiais que o mundo diz serem preciosas. Mas o que ela não percebe, na sua própria humildade, é que o que ela oferece é o bem mais valioso que existe: um amor que protege, um carinho que cura e uma responsabilidade que molda o caráter de um menino de ouro.
   Para Gabriel, tudo parece leve. Ele vê a mãe sorrir quando ele chega da escola, vê a mesa posta — mesmo que simples — e sente a segurança de um lar. Gabriel não imagina o quanto custa manter esse mundo de pé. Ele não vê as noites em claro em que ela faz contas de cabeça, nem o peso invisível que carrega nos ombros. Ela gasta até a última gota de sua energia para que a realidade não roube a inocência e os sonhos do filho. Ela engole o próprio cansaço para que ele só conheça a esperança.
   Essa mãe desdobra o tempo e a própria saúde na ponta da agulha. Ela se desgasta, se doa por inteiro e esconde as próprias dores sob um olhar terno. Ela acha que dá pouco, mas está dando a vida. E quando vê Gabriel crescer educado, estudioso e cheio de orgulho dela, ela sabe que cada gota de energia gasta em segredo valeu a pena. O maior tesouro que ela poderia dar ao filho não se compra; está na alma do menino que ela, sozinha e com tanto amor, soube criar.


16 de set. de 2026

UM DOCE DE VIZINHA

 

   Quero contar uma história rápida que minha avó viveu e que me fez pensar muito. Uma vizinha nova se mudou para a rua dela e logo ganhou uma fama estranha por levar à minha avó duas fatias de bolo que ela assava de vez em quando. Minha avó achava aquilo uma grande bobagem e dizia para o meu avô que era melhor levar o bolo inteiro ou nem se desse ao trabalho.
     Um dia, ao receber o pratinho de sempre, minha avó cutucou: — Você não sabe fazer bolo pequeno? — A vizinha só riu: — Sei sim.
     A explicação veio numa conversa na calçada na semana seguinte. Minha avó comentou sobre o mistério das duas fatias, e a vizinha foi direta: — É de propósito. Se eu lhe der um bolo inteiro, a senhora vai se sentir na obrigação de me devolver algo na forma. Duas fatias a senhora come sem culpa. É só um carinho.
     Minha avó travou na hora. Ela percebeu que era verdade e que realmente se sentiria em dívida se ganhasse o bolo todo. Desde então, quando aquela vizinha bate no portão, minha avó não vê mais o que seus olhos lhe mostram. Vê um abraço em forma de doce. Um jeito delicado de se fazer presente sem exigir nada de volta.
     Que maluquice o jeito como a gente julga as coisas sem entender o cuidado que tem por trás, né? Eu achei essa vizinha genial demais.