A África é um berço de sons e palavras, um lugar onde se fala mais de 2.000 línguas diferentes. Quando os nossos antepassados foram trazidos à força para o Brasil, tentaram calar suas vozes, mas o coração deles continuou a falar. Para se entenderem e se unirem, eles criaram pontes: usavam gestos, repetiam palavras e contavam com a ajuda dos que já conheciam o português para traduzir o mundo novo que os cercava.
Uma dessas línguas, muito presente no solo da Bahia, é o Iorubá (também conhecido como Nagô). Vinda de terras que hoje chamamos de Nigéria e Benin, ela era muito mais que um jeito de falar; era o fio de ouro que mantinha vivas as rezas, os costumes e a alma de um povo. É por causa dessa resistência que hoje a cultura brasileira é tão rica e bonita.
Guardamos no coração uma herança que atravessou os mares e as gerações: a frase iorubá "Wọn ń fi inúnibíni sí wa, wọn ń pọ́n wa lójú, wọn ń fi ebi pa wa". Ela ecoa um grito que o tempo não apagou:
"Eles nos perseguem, nos fazem sofrer e nos deixam com fome". Lembro da minha avó hesitando antes de falar, os olhos marejados refletindo uma dor que não era só dela, mas de todos os nossos que vieram antes. Aquela hesitação era um abraço de proteção; uma cicatriz de família que ainda pede o carinho do nosso silêncio. Naqueles tempos difíceis, os poderosos tratavam gente como se fosse mercadoria ou animal — algo que hoje a justiça não aceitaria, pois sabemos que o racismo e a tortura são crimes graves que não podem ser perdoados.
A política da época era feita para proteger apenas os grandes fazendeiros, esquecendo-se das outras pessoas. Como diz meu pai: "Os burros são os mesmos, só mudam os carroceiros". É um lembrete de que, embora o tempo passe, precisamos estar atentos para que o povo não continue sendo esquecido.
Mas, em meio à escuridão, brilharam luzes de coragem. Como a história de Esperança Garcia. Ela aprendeu a ler e escrever com os jesuítas e, com a ponta da pena, escreveu ao Governador do Piauí denunciando os maus-tratos e a dor de ser separada de seus filhos, mas também exigiu respeito.
Essa carta é hoje considerada a primeira petição, no Brasil, feita por uma mulher.
Por sua bravura, Esperança é reconhecida pela OAB como a primeira advogada do estado, um símbolo eterno de que a palavra escrita pode libertar.
Portanto, viva a liberdade! Viva o ser humano, em todas as suas cores, pois todos merecem viver com dignidade e paz.

