T R A D U T O R

4 de jun. de 2026

A AULA DA RÔ

 



           O ar-condicionado do laboratório lutava pra sobreviver enquanto o Professor, veterano da Computação, já pensava em jogar a toalha. O projeto era um sistema de monitoramento em tempo real que, do nada, começava a fazer um barulho estranho. Eu já tinha lido sobre isso e até pesquisei o assunto a fundo, mas não imaginava que veria acontecer ao vivo, e logo na frente da minha turma.
     Todos na sala diziam, rindo, que o ruído era o hardware pedindo arrego. Mas eu, no auge do meu 4º período e com a vivência de quem pega metrô lotado todo dia, sentia que ali tinha algo mais; a teoria que eu tinha estudado não saía da minha cabeça.
— Gente, já trocamos os cabos, já aterramos a carcaça. É defeito de fabricação — disse o professor, limpando o suor da lente dos óculos.
— Professor! — falei, levantando a mão. — O senhor está olhando pro fio, mas o erro tá no tempo. Olha aqui. Chamei o professor pro monitor.
     Eu não tava usando o programa padrão da aula; tinha montado um rastreador próprio, baseado no artigo de uma faculdade americana, que usei pra vigiar cada movimento do sistema em tempo real. Enquanto os "gênios" da turma tentavam otimizar o cálculo de busca, eu percebi que o sistema tava entrando em um tremendo "nó cego" (o tal do deadlock) por causa de uma prioridade mal configurada na fila de tarefas.
     (Era exatamente o que eu tinha lido).
— O problema é que o sistema é "educado" demais — expliquei, apontando pro código. — Ele tá dando passagem pra todo mundo, aí a área de espera enche e o processo principal trava. Ele não tá quebrado, mestre, ele tá engarrafado. Igual à Linha Vermelha às seis da tarde!
     A galera em volta parou pra olhar.
   Fiz o que ninguém tinha coragem: criei um atalho na prioridade padrão da biblioteca que a faculdade usava há décadas. Foi um "puxadinho" lógico, seguindo a explicação do artigo.
— Se liga na mágica.
     Dei o enter, torcendo para a teoria estar certa.
    O terminal, que antes parecia um filme dos trapalhões dando erro, estabilizou. Os dados começaram a fluir bonitinho. Um minuto, cinco minutos, meia hora... e a temperatura da máquina até baixou.
    O professor coçou a cabeça, sem tirar os olhos da tela por uns três minutos, mudo.
— Você reescreveu a gerência de fila da biblioteca, Rô? Isso nem tá na ementa desse semestre!
— Pois é, professor. É que lá onde eu moro, se a gente não der um empurrãozinho no ônibus, a gente não chega em casa. O código só precisava desse mesmo empurrão pra sair do lugar.
    Ele riu e balançou a cabeça, orgulhoso. — Cuidado, hein? Desse jeito você acaba se formando antes da hora!

30 de mai. de 2026

LIMITES, BOM SENSO E REALIDADE

 

       A internet aproxima as pessoas, mas às vezes confunde os limites. É muito comum ver criadoras de conteúdo como eu, que dividem o tempo entre a faculdade, a família e as postagens, enfrentando uma situação bem cansativa: o excesso de caras que chegam se dizendo amigos, mas com o único objetivo de dar em cima das garotas. Isso desanima. Seria compreensível se houvesse abertura, reciprocidade ou uma pequena esperança, o que não é o meu caso e muito menos o dos casos que me contaram. Mas a realidade, para mim e para as pessoas às quais me refiro, é direta: nós não queremos, não temos tempo e não vamos nos envolver com ninguém da internet — mesmo que no futuro paguemos a língua.
          O blog existe, principalmente o "Diário" e o "delas", para falar de ideias, não para ser aplicativo de relacionamento. Trazer isso a público não é para chamar atenção ou me vangloriar, mas para lembrar que amizades com segundas intenções estragam o propósito do espaço. Que o foco em nossas páginas possa continuar sendo o conteúdo e o respeito mútuo.

25 de mai. de 2026

EQUILIBRANDO A ÁRVORE E O DESTINO

 


      Estou no segundo período de Engenharia da Computação e, se o primeiro foi sobre sobreviver ao choque de realidade, o segundo é sobre marcar território.
     Naquela manhã de terça, a sala de aula parecia um pouco mais fria. Eu era a única menina preta ali, sentada na segunda fileira, com meu notebook cheio de adesivos de comunidades de tecnologia e um escrito 'Linux Is Life' que meu pai me deu.
     O professor de Estruturas de Dados — um cara que parecia que não dormia há um ano — jogou o desafio no projetor: implementar uma Árvore AVL que se auto-balanceasse em tempo recorde.
      Olhei para o lado. Os veteranos que estavam cursando a matéria pela terceira vez cochichavam, cheios de marra. Eu? Respirei fundo. Abri o terminal. O cursor piscando no modo insert do Vim parecia me desafiar.
— "Rô, foca na lógica de rotação à esquerda", pensei, ajustando meus fones de ouvido que descansavam ao meu lado, na mesa.
      Enquanto a maioria se batia com erros de segmentação e ponteiros perdidos, comecei a desenhar a lógica no meu caderno. Meus dedos, de unhas curtas, dançavam no teclado mecânico. Eu sentia os olhares. Às vezes, um olhar de dúvida; outras, aquela surpresa mal disfarçada de "como ela sabe o que está fazendo?".
      Eu não era apenas uma estudante; era uma engenheira em construção em um ambiente que, historicamente, não foi projetado para o meu gênero, nem para o meu tom de pele.
— Alguém conseguiu evitar o overhead na inserção? — o professor perguntou, circulando com as mãos nas costas.
      Dei o comando de compilação. Nenhum aviso. Nenhum erro. Rodei o teste de estresse e a árvore se equilibrou como uma bailarina. Ergui a mão.
— Professor, se a gente tratar o fator de balanceamento logo após a recursão, o código fica linear. Eu rodei aqui e a complexidade bateu com o esperado.
      O silêncio que se seguiu não era de dúvida, era de reconhecimento. O professor chegou perto, olhou as linhas de código comentadas e limpas.
— Excelente, Rô. Você usou uma abordagem de otimização que eu só esperava ver no quarto período.
     Voltei para a minha tela, com um sorrisinho de canto de boca. Eu não estava ali para ser "a exceção". Estava ali para ser a regra. 
     No segundo período, eu já tinha entendido: meu código era minha voz, e ele estava saindo alto e claro.

      "Tô muito metida, tô não?"




20 de mai. de 2026

VERDADE CUSPIDA NA CARA

 

      Olha só, papo sério: a senhora chegou pra mim, assim, do nada, cuspindo as palavras na minha cara: "Por que você, que é preta, tem que citar sua cor em toda conversa? Não acha que tá obrigando a gente a te aceitar?"
       Gente, eu nem conhecia a mulher, nem tava falando com ela! Mas deixa eu explicar uma coisa que parece que esse povo não entende. Quando eu falo da minha cor, não é só sobre "reafirmar identidade" ou "estratégia contra o racismo" — embora seja isso também. É, acima de tudo, pra dar liberdade pro outro.
      Eu falo pra deixar quem tá comigo à vontade. Pra pessoa saber que pode citar minha cor sem medo, sem aquele pisar em ovos achando que vai me ofender. Eu quero transparência, sabe? Porque, na boa, do que adianta me tratar com aquele "respeito" forçado na frente, se pelas costas a pessoa destila preconceito? Do que adianta o beijinho no rosto se o olhar é de julgamento?
     É disso que eu tô falando quando trago minha cor pra conversa. Eu só quero ser tratada com o mesmo respeito que eu tenho pelos outros. Gente, eu pago os mesmos impostos altíssimos que todo mundo — dinheiro que eu podia tá usando pra viajar, pra ir num teatro, mas que vai pra manter essa sociedade que cobra o tempo todo da gente.
     Ninguém corre mais do que eu pra mostrar a que veio. Eu sou o que sou e não admito que ninguém venha me dizer como eu devo me comportar ou falar da minha própria pele. Se eu falo, é pra gente ter verdade. O resto? O resto é só barulho de quem não entende nada de liberdade.

16 de mai. de 2026

QUE PENA, JÁ ERA!

 

        É curioso como as afinidades se desgastam, né? No caso desses dois, parece que a saturação chegou com força. O blogueiro, coitado, nem é mal sujeito, mas tem hora que consegue ser mais pé no saco do que qualquer um. E se me perguntarem como eu sei disso? Bom, juntando um "ouvi dizer" daqui com um comentário dali, não foi difícil deduzir o cenário. Eles são bem parecidos, na verdade. O blogueiro fala pelos cotovelos quando quer, e ela não fica nem um pouco atrás. O problema é que agora, por mais parecidos que sejam, os dois bicudos já não se beijam. Antes, a sintonia era total, pareciam dois tatus, um "cheirando o rabo do outro", como diz o meu pai, mas o tempo é implacável e a amizade, infelizmente, passou. Hoje os caminhos são bem distintos: ela mergulhou na rotina dos filhos, netos, marido e na vida do bairro. Já ele segue focado no blog e nas aventuras que insiste em dizer que vive.
    Como sou amiga de ambos, é com tristeza que vejo esse silêncio ensurdecedor entre eles. 
      Estão lá, cada um no seu canto, esperando que o outro dê o primeiro passo — ou talvez, quem sabe, o último já tenha sido dado e nós apenas não queiramos aceitar. Enfim...