Lembro-me bem do dia em que meu pai e o Silvio Afonso se reuniram em nossa sala. Com uma convicção que me marcou, Silvio dizia nunca ter conhecido alguém tão fiel quanto o próprio pai. Aqueles exemplos de retidão ficaram guardados em minha memória como um verdadeiro pilar de caráter.
Ontem, na padaria, vi a dona do estabelecimento tricotando com uma idosa que eu nunca vi mais gorda. Elas cochichavam sobre um caso que parecia ecoar aquela conversa antiga. Curiosa, fiz-me de sonsa para ouvir sem ser notada. O assunto era a vizinha do 139 e — adivinha com quem? Com o meu pai!
Se a mulher não tivesse mencionado o tom de loiro do cabelo da 'sujeita', eu jamais acreditaria que aquela figura — que minha mãe quase esbofeteou tempos atrás — estava rondando meu velho de novo. Mas meu pai é exatamente o que Silvio Afonso descreveu: um homem honrado. Ele não se dobra, pouco importa a beleza ou o dinheiro que a outra ostente.
Como eu não podia abrir o bico para minha mãe, muito menos para a linguaruda da minha prima ou para as minhas amigas, guardei o segredo no peito. Ao chegar em casa com três sonhos, cinco pãezinhos quentes e uma caixa de chocolates, tasquei-lhe um beijo estalado. Meu pai ficou sem entender nada, mas aquele gesto era o meu jeito de dizer o orgulho que sinto do homem que ele é."

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