— Sinto falta do reboliço que eu causava — d. Alzira murmurou, olhando para as próprias mãos que eu apertava. Ela tinha quase 80 anos; eu, apenas 18.
— Saudade do eco do "fiu-fiu", dos pescoços que quase quebravam pelo balanço da minha bunda. Eu era o próprio pecado caminhando.
Engoli em seco, acariciando seu pulso.
O tom dela, de repente, desabou para a melancolia:
O tom dela, de repente, desabou para a melancolia:
— Hoje, o mundo me castiga com uma indiferença que sangra, minha filha. Passei de tentação a invisível. Antigamente, o lugar por onde eu passava prendia a respiração para me ver caminhar; hoje, se cruzo as pernas, desviam o rosto, ofendidos, como se a flacidez fosse um insulto.
Meus vestidos agora são longos, como mortalhas que sepultam o corpo que já foi desejo. Mas a verdade crua... — ela sussurrou, tocando meu queixo — ...é que por dentro eu choro a morte da deusa que fui, condenada a viver como um fantasma num corpo que ninguém mais quer tocar.
Meus vestidos agora são longos, como mortalhas que sepultam o corpo que já foi desejo. Mas a verdade crua... — ela sussurrou, tocando meu queixo — ...é que por dentro eu choro a morte da deusa que fui, condenada a viver como um fantasma num corpo que ninguém mais quer tocar.
Ela olhou para o próprio colo, enquanto eu me esforçava para engolir o choro.
Curvei-me e deixei um beijo demorado em sua bochecha com cheiro de talco.
— A senhora ainda é linda, d. Alzira — disse, segurando suas mãos. — O mundo pode ser cego, mas a deusa continua viva aqui dentro — toquei seu peito de leve, me levantando. — Ninguém apaga o rastro que a senhora deixou. Obrigada pelo chá e por dividir isso comigo.
Dei-lhe um último beijo na testa e saí.
Ao cruzar a porta, caminhei pela rua sentindo o vento no rosto. Olhei para as minhas pernas firmes, para a pele lisa e para os olhares que eu ainda atraía. Um arrepio correu a espinha diante do ciclo implacável do tempo. Daqui a sessenta e dois anos, com o coração nostálgico, seria eu sentada à mesa, repetindo exatamente as mesmas palavras para uma garota de dezoito anos.

16 comentários:
Una bonita historia esta que nos has narrado y como dices al final quizás al discurrir ese tiempo, la compartas con una joven.
Saludos.
Por eso hay que vivir cada etapa de la vida, sin el temor de hacer algo indebido o negando lo que es natural en nosotros. El tiempo pasa y es mejor que nos sorprenda habiendo vivido.
Beijos doces, menina.
O texto está ótimo, garota, mas da próxima vez me avisa para eu pegar um balão de oxigênio antes de começar a ler! Brincadeira. Você, como sempre, arrasou na escrita.
Um beijinho.
Obrigada pelo carinho de todas as vezes. Adorei, viu!
Nossa, não entendi muito bem , mas valeu por passar aqui para ler!
Um abraço!
Você também?! Que decepção! Achei que vinha me salvar e me vem com esse papo furado!
Talvez não saiba, mas tenho 76 anos e entendo (e sinto) tudo o que essa senhora disse. Sem esquecer sua realização profissional e intelectual, permita-se viver, pois o Tempo não negocia, não perdoa, ele só cobra.
Sua mensagem me tocou profundamente. Essa dinâmica implacável do Tempo, que o senhor descreveu com tanta precisão, serve como um verdadeiro farol para todos nós. Agradeço de coração pelo conselho e pela presença tão lúcida nesse Diário.
Nossa que linda história....
O tempo passa mais aquelas lembranças que nós fazem nós sentir vivas, nunca esquecemos....
Continue essa garota que nós conta história MARAVILHOSA bjsss
Experiência e juventude!
Ótima semana.
Oi Rô, como está? A passagem do tempo é implacável e infelizmente nos condena mesmo sem uma razão aparente...
Seu texto está lindo, muito sensível com uma história que se equipara a de várias pessoas que no auge da juventude se sentiam tão vívidas e agora, com experiência dos anos, se recorda de como o passado foi maravilhoso...
Envelhecer é realmente algo muito triste, não existe a melhor idade como todos proclamam e se chegarmos aos 70 com saúde já está de bom tamanho!
Tenha um lindo final de semana!! :))))
Oi Adriana!
Que comentário mais lindo e sincero, muito obrigada!
O tempo passa rápido demais e a saudade do passado sempre aperta, né? O importante é seguirmos com saúde e valorizando cada momento.
Um ótimo final de semana para você também!
Obrigada, você é muito simpática. Gosto de você, sabia?
Ah, obrigada!!!!
Você está me dando um fora? Veja bem, o cara falou, você não entendeu e quem leva a culpa sou eu. Pô, Rô, acabei de te elogiar e você reage dessa forma?
Se eu pudesse dizer o que sinto vontade nesses momentos...
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