Eu sei que falo muita merda, mas espero que vocês me entendam. Qual a jovem que não se expressa assim quando sente o mundo apertar o passo? Tem hora que dá vontade de jogar tudo para o alto, gritar e fugir — ou se jogar de vez no precipício da própria ansiedade. Mas aí eu paro e penso: se nossos pais já foram jovens, passaram por esse mesmo sufoco e hoje são exemplos de superação, como eu não vou respirar fundo e seguir em frente? Se eles aguentaram o tranco, deve haver um código de sobrevivência que eu ainda não decifrei. Sei também que, na minha idade, a gente é chata pra cacete: é contra tudo e todos. E se falar em política, então... o estômago embrulha. Para mim, ninguém que já passou por lá presta. Se pudéssemos, trocaríamos todos por outros quaisquer, nem que fosse só pelo prazer da mudança.
Meu avô, com aquela calma de quem já viu o mar recuar mil vezes, diz que na política só critica quem está fora. Ele está certo; errado é quem se cala e aceita o silêncio como destino.
A vida adulta, porém, chega antes do boleto. Todo ano meu pai tem aumento de salário e, no mesmo patamar, aumenta minha mesada. O problema é que o custo de vida sobe o dobro. Para o meu pai, mais vivido, sempre existe um jeito, uma matemática com solução que eu desconheço. Para mim, resta o corte: parar de comprar o que, até ontem, era indispensável. A cada ano, uma nova tristeza. Ou a gente se ajeita ou afunda, como uma moeda numa garrafa de areia. Sorte que roupas, calçados e livros ficam na conta do meu velho. Mas e o cinema, o teatro e os museus, que cobram os olhos da cara? Isso ele não paga; já diz que está "embutido na mesada". É o preço de tentar ser culta em um país que cobra caro pelo ingresso da alma.
Não sei como era a vida da adolescente no passado, se era mais ou menos severa, o fato é que a minha é foda. Sigo tentando manter a pontaria enquanto o vento sopra contra. Haja bambu para tanta flecha — porque arqueira, por aqui, é o que não falta.
Meu avô, com aquela calma de quem já viu o mar recuar mil vezes, diz que na política só critica quem está fora. Ele está certo; errado é quem se cala e aceita o silêncio como destino.
A vida adulta, porém, chega antes do boleto. Todo ano meu pai tem aumento de salário e, no mesmo patamar, aumenta minha mesada. O problema é que o custo de vida sobe o dobro. Para o meu pai, mais vivido, sempre existe um jeito, uma matemática com solução que eu desconheço. Para mim, resta o corte: parar de comprar o que, até ontem, era indispensável. A cada ano, uma nova tristeza. Ou a gente se ajeita ou afunda, como uma moeda numa garrafa de areia. Sorte que roupas, calçados e livros ficam na conta do meu velho. Mas e o cinema, o teatro e os museus, que cobram os olhos da cara? Isso ele não paga; já diz que está "embutido na mesada". É o preço de tentar ser culta em um país que cobra caro pelo ingresso da alma.
Não sei como era a vida da adolescente no passado, se era mais ou menos severa, o fato é que a minha é foda. Sigo tentando manter a pontaria enquanto o vento sopra contra. Haja bambu para tanta flecha — porque arqueira, por aqui, é o que não falta.

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