T R A D U T O R

5 de abr. de 2026

ARQUITETO DE AVENTURAS

 

      A Páscoa chega com um cheiro diferente dos meus tempos de criança. Não é apenas o aroma do chocolate que invade a casa, mas o perfume de uma memória que insiste em bater à porta: a figura do meu tio, o irmão da minha mãe, que transformava a sala em um mapa do tesouro.
      Lembro-me dele chegando com aquela bolsa pesada, estufada de guloseimas. Eu, pequena e ansiosa, corria em sua direção com os olhos brilhando. Ele, com um talento teatral que só os tios brincalhões possuem, desarmava minha alegria com uma frase ensaiada: 'Ih, minha sobrinha, este ano o dinheiro encurtou. Não consegui trazer nada'.
      Naqueles minutos, o mundo desabava. A tristeza era profunda, como só as tragédias infantis conseguem ser. Mas a queda era apenas o impulso para o voo. Logo, o sorriso dele entregava a farsa e a mágica começava. Os ovos não eram entregues na minha mão; eram conquistados.
      'Está frio, muito frio!', ele e quem estivesse lá, no momento, exclamavam enquanto eu passava longe do esconderijo. Eu procurava nos cantos da casa, movida pelas vozes que serviam de GPS. 'Tá frio! Esquentou! Tá morno... vai queimar!'. Quando eu finalmente encontrava o brilho do papel celofane escondido atrás da poltrona ou embaixo do armário, a explosão de felicidade era tão grande que parecia preencher todos os cômodos. Ele ria. A família ria. A Páscoa era aquele barulho de descoberta e festa.
      Depois que ele partiu, o silêncio tomou o lugar do 'tá quente, tá frio'. A brincadeira se foi com ele. Hoje, os mimos chegam direto das mãos do meu pai, da minha mãe e da minha avó — que, firme como é, nunca deixou de passar a data conosco. O carinho deles é imenso, o chocolate é doce, mas o ritual já não é mesmo.
      Agora, quando a Páscoa se aproxima, eu fecho os olhos e volto a ter sete ou oito anos. Sinto o frio na barriga da dúvida e o calor da descoberta. No fundo, a maior guloseima que ele me deixou não cabe em uma bolsa: foi a capacidade de transformar, em segundos, a tristeza extrema na maior das alegrias.
      Saudade, tio. Por aqui, hoje, o coração está queimando de tanto lembrar.

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