Aos cinco anos, eu não entendia de 'miscigenação' ou 'tensões raciais'; só sabia que meu pai tinha a cor do papel e minha mãe, a cor do café que coava pelas manhãs.
Na Sexta-Feira da Paixão, o 'sistema' da nossa casa mudava. O input era o silêncio. Lembro de ver meu pai — um homem de exatas como eu — ficar ainda mais contido, respeitando o luto cristão herdado da família. Mas o 'processamento' real acontecia na cozinha, sob o comando da minha mãe. O cheiro do bacalhau com batatas fundia-se ao perfume dos pratos ricos em leite de coco e azeite: uma alquimia que ela herdara da minha avó preta. Para mim, aos cinco anos, a religião tinha gosto de peixe ensopado e arroz branco, soltinho. O que mais "bugava" a minha cabeça eram os santos cobertos de roxo na igreja onde meus pais me levavam. Eu olhava para aquelas silhuetas escondidas e achava que eles estavam brincando de esconde-esconde ou que tinham sido "desativados" por um tempo. Lembro de perguntar: "Mãe, o santo deu erro?" — Ela ria, passava a mão nos meus cachos e dizia que eles estavam apenas descansando para o domingo.
Eu observava as mulheres negras, todas de branco, com uma postura que hoje reconheço como pura resistência, mas que, aos cinco anos, eu via como realeza. Eu me sentia parte daquilo, mesmo sendo a "misturinha" que corria entre os bancos de madeira da igreja.
O Sábado de Aleluia era o meu momento favorito do "código". O Judas pendurado no poste da rua era o grande bug que a vizinhança precisava deletar. Eu ficava na ponta dos pés, vendo as pessoas armadas com paus "corrigindo" o boneco de pano com vontade.
E o domingo? O domingo era o output final. O ovo de chocolate era a recompensa por ter sobrevivido ao silêncio da sexta. Mas, olhando para trás agora, aos 18 anos, vejo que o milagre não era apenas a ressurreição que o padre pregava. O milagre era a mesa da nossa casa: o meu pai branco, a minha mãe negra e eu — o resultado exato de uma soma improvável — todos juntos, celebrando uma fé tão diversa quanto o código genético que eu carrego.

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