Por falta d’água não tivemos aula nessa manhã. Podiam nos ter avisado por e-mail, por um Zap ou por um moleque de recado, mas não rolou. Preferiram colar um cartaz bem grande no portão da escola. No caminho, de volta a casa, avistei um velho, tipo, 80 anos. Vestindo um macacão vermelho, muito quente para o clima do Rio. Nos pés um par de botas, já gastas, e um cinto largo rodeando a barriga. Na cabeça alguma coisa me lembrava Saci. O Saci de Monteiro Lobato. Mas como o velho era branco, saci com certeza não era. Nem cachimbo pendurado no queixo se quisesse ele tinha. Quanto ao velho, coitado, mantinha o semblante fechado. — “É coisa da idade”, diria mamãe se o visse daquele jeito. Cabeça baixa, como se contasse todos os passos que dava. Todos que passavam por ele lhe davam um sorriso. Não um sorriso carinhoso, mas de deboche e constrangimento. É como se o símbolo do natal não passasse de um conto de fadas. Mas disso ele não reclamava, seguia por onde as surradas botas o levassem. E eu fui atrás. Não sei por que, mas fui atrás dele. Certamente pelas lembranças que eu tinha dos melhores natais que passei na infância. Um velho, igualzinho a esse, era ele quem me trazia os presentes que eu tanto queria. O pior é que eu nunca disse a ninguém o que eu gostaria de ganhar. Mas ele sabia. Foi emocionante encontrá-lo e como menina que eu nunca deixei de ser, fui atrás dele. Andamos um quarteirão inteiro. Ele na frente e eu em seus calcanhares. Atravessamos vielas, ruas e avenidas. O edifício que ele escolheu para entrar era alto. Bem alto! Ele não me viu, mas eu, jamais o perderia de vista. Ele chamou o elevador. Tinha espaço para uma pessoa, mas o meu herói não entrou. Era gordo. Na outra parada também não havia lugar, mas não pelos mesmos adultos com caras de besta. O elevador estava cheio de crianças. Crianças que se espremeram dando espaço para o velhinho entrar. E ele entrou. As crianças estavam animadas, nervosas, sorrindo e pulando com a presença daquela pessoa. O velhinho sorriu pela primeira vez. Bastou isso. Um sorriso para a garotada o abraçar e dizer coisas que do lado de fora da porta não deu para ouvir. Quando dei por mim, eu estava sorrindo. Claro, se eu estava feliz. Feliz como as crianças, naquele momento, e o próprio velhinho quando deixava, no pé da minha cama, o presente que eu nunca disse que queria.

2 comentários:
La ilusión es la verdadera magia que no debemos perder.
Beijinhos doces, menina.
Veo que cuando decidiste seguir a esa persona mayor con ese atuendo volviste a sentir igual que los niños que al verle se apretujaron en el ascensor para dejarle un sitio.
Creo que nunca debemos poner obstáculos a la salida al exterior aquel nuño que fuimos un día.
Saludos.
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