29 de ago. de 2025

GOTAS QUE CANTAM

  



Minha mãe é amorosa, paciente, companheira e, se dependesse dela, nem chorar eu choraria. A mãe da Rosinha, amiga da minha prima, tem uma mãe parecida com a minha, tendo em vista ser de origem pobre. Aqueles que moram em barracos com telhado de zinco, que se transforma em estufa em dias quentes e geladeira nas baixas temperaturas. Se fosse a menina a contar, talvez não acreditasse, mas quando são os vizinhos, não há como negar. Não consigo compreender como conseguem dormir naquele forno durante o período de calor e no frio, quando até as vidraças das casas ficam congeladas! Em dia de chuva é muito pior. Correm com panelas para todos os lados procurando goteiras. “Cada gota tem um acorde”, diz Rosinha, preparando a voz para cantar. Ao final, todos se abraçam, cantam e dançam, em vez de se lamentar. No frio, não é diferente. A mãe bota os pequenos para fora para brincar. Amarelinha, pique-esconde, jogo de bola ou qualquer atividade que as faça transpirar. Nessas noites, D. Selma esquenta a cama das crianças, se deitando nela e só então as põe para dormir. Tenho plena convicção de que o amor é resiliente, por conseguir ocultar à criança a tristeza de nunca ter tido uma Barbie, uma bola de couro, uma bicicleta ou a oportunidade de viajar com os pais sem dizer nada. É isso ou é cego a tal ponto de precisar de um cão-guia ao seu lado, um par de óculos escuros no rosto e uma bengala branca para orientar.

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