T R A D U T O R

15 de out. de 2026

A MEMÓRIA DO CORAÇÃO

 

     Quando o TikTok surgiu, os olhos da minha avó, mãe do meu pai, brilharam de encantamento. Naquela época, o esquecimento já começava a nublar sua mente — fosse pelo Alzheimer, pela demência ou por essa condição dolorosa que rouba as lembranças mais recentes, fazendo o idoso esquecer no jantar o que acabou de comer no almoço.
     Certo dia, com uma curiosidade quase infantil, ela me confessou que queria aprender a mexer naquele "programa". Prontamente, meu coração se encheu de alegria e eu me ofereci para ensinar. Ela fixou os olhos na tela com tanta atenção e doçura que cheguei a acreditar que tinha aprendido. Mas a memória prega peças. Na semana seguinte, ao me ver, perguntou com o mesmo olhar curioso se eu sabia usar aquela novidade. Sorri, disse que sim, e ela, timidamente, pediu que eu a ensinasse. E eu ensinei. Aliás, reensinei. Foram quatro vezes naquele mesmo mês, um ciclo repetido de paciência e afeto.
     Foi quando meu tio, irmão da minha mãe, já falecido, observando de longe, sentou-se ao meu lado e questionou: "Por que você insiste tanto, sabendo que amanhã ela já terá esquecido e vai te perguntar tudo outra vez?
     "Olhei para ele e respondi com toda a certeza do meu peito: "Se ela me perguntar duzentas vezes em um mês, eu estarei aqui as duzentas vezes. Com o mesmo sorriso, o mesmo tom de voz e o mesmo amor, como se fosse a primeiríssima vez. Se o senhor não se lembra, a vovó fez exatamente isso por mim quando eu era uma criança indefesa. Ela desacelerou o próprio passo para que minhas pernas curtas pudessem acompanhá-la. Ela repetiu mil vezes a mesma palavra que eu não conseguia pronunciar e segurou a minha mão em cada oração que eu jamais teria aprendido a rezar sem ela ao meu lado. Agora, é a minha vez de segurar a mão dela.

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