Estou no segundo período de Engenharia da Computação e, se o primeiro foi sobre sobreviver ao choque de realidade, o segundo é sobre marcar território.
Naquela manhã de terça, a sala de aula parecia um pouco mais fria. Eu era a única menina preta ali, sentada na segunda fileira, com meu notebook cheio de adesivos de comunidades de tecnologia e um escrito 'Linux Is Life' que meu pai me deu.
O professor de Estruturas de Dados — um cara que parecia que não dormia há um ano — jogou o desafio no projetor: implementar uma Árvore AVL que se auto-balanceasse em tempo recorde.
Olhei para o lado. Os veteranos que estavam cursando a matéria pela terceira vez cochichavam, cheios de marra. Eu? Respirei fundo. Abri o terminal. O cursor piscando no modo insert do Vim parecia me desafiar.
— "Rô, foca na lógica de rotação à esquerda", pensei, ajustando meus fones de ouvido que descansavam ao meu lado, na mesa.
Enquanto a maioria se batia com erros de segmentação e ponteiros perdidos, comecei a desenhar a lógica no meu caderno. Meus dedos, de unhas curtas, dançavam no teclado mecânico. Eu sentia os olhares. Às vezes, um olhar de dúvida; outras, aquela surpresa mal disfarçada de "como ela sabe o que está fazendo?".
Eu não era apenas uma estudante; era uma engenheira em construção em um ambiente que, historicamente, não foi projetado para o meu gênero, nem para o meu tom de pele.
— Alguém conseguiu evitar o overhead na inserção? — o professor perguntou, circulando com as mãos nas costas.
Dei o comando de compilação. Nenhum aviso. Nenhum erro. Rodei o teste de estresse e a árvore se equilibrou como uma bailarina. Ergui a mão.
— Professor, se a gente tratar o fator de balanceamento logo após a recursão, o código fica linear. Eu rodei aqui e a complexidade bateu com o esperado.
O silêncio que se seguiu não era de dúvida, era de reconhecimento. O professor chegou perto, olhou as linhas de código comentadas e limpas.
— Excelente, Rô. Você usou uma abordagem de otimização que eu só esperava ver no quarto período.
Voltei para a minha tela, com um sorrisinho de canto de boca. Eu não estava ali para ser "a exceção". Estava ali para ser a regra.
No segundo período, eu já tinha entendido: meu código era minha voz, e ele estava saindo alto e claro.
"Tô muito metida, tô não?"
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