T R A D U T O R

1 de mar. de 2026

A LAGOA DO OUTRO EU

 


    Tive um sonho horrível esta noite, mas, ao acordar, senti um alívio que não tinha quando me deitei. Embora tenha deixado de ser criança há muito tempo, percebi que o medo ainda me habita com a mesma força daqueles anos.
 No sonho, eu via um leão solitário, perdido de seu bando, caminhando sob um sol impiedoso. A sede era uma agonia. De repente, surgiu diante dele uma pequena lagoa de águas tão claras que pareciam um espelho. Ele correu desesperado, mas, no instante em que ia tocar a água, recuou bruscamente. Refletido na superfície, um grande leão o encarava com um olhar severo. Apavorado, o leão exausto fugiu sem olhar para trás, convencido de que a lagoa já tinha um dono feroz.
Duas horas se passaram sob o calor escaldante. No limite de suas forças, ele decidiu que, se a morte era certa, melhor seria morrer tentando. Voltou à beira da lagoa rastejando, pé ante pé. O 'inimigo' ainda estava lá, vigiando as profundezas. Mesmo tremendo, o leão mergulhou o focinho com tudo para saciar sua sede. No exato momento em que tocou a água, o reflexo se despedaçou e a imagem sumiu. O monstro era apenas ele mesmo.
Acordei com essa cena nítida na memória. Como diria a psicologia da minha mãe: na vida, carregamos muitos medos, mas quantos deles não passam da nossa própria imagem refletida, nos impedindo de beber a água que já é nossa?

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