T R A D U T O R

20 de fev. de 2026

CINZAS

 


    A melhor Quarta-Feira de Cinzas da minha vida não teve nada de “cinza”, mas daquele pozinho brilhante que insiste em não sair do corpo da gente. Isso teve bastante. E aquele som da bateria gostoso que não me sai da cabeça. Não sabia que de perto contagiasse daquele jeito. Pela manhã, acordei com o sol lambendo meu rosto e eu não tinha pressa nenhuma em me levantar. Essa quarta-feira foi o marco da liberdade para quem tem a idade que tenho: imagina sobreviver à maratona dos desfiles que, querendo ou não, leva uma noite inteira, a madrugada e uma parte da manhã seguinte. A mistura de sensações é o que torna esse dia o melhor de todos. É como ressaca, mas não de bebida ou de drogas, mas de alegria. Satisfação de ter gastado, da melhor forma possível, cada gota de energia. Imagina a pessoa abrir a galeria do celular e ver que os vídeos que fez estão todos borrados, que as risadas com gente que nunca viu antes se tornaram melhores amigos por cinco ou dez minutos. E aquela luz maravilhosa na ponta da Sapucaí quando amanhece, hein!
De qualquer forma, tento e levanto, tomo um suco e saio para me despedir da turma que me espera sentada lá fora. É o encontro dos Resistentes: o encontro da despedida — e a gente sabendo que, mesmo a festa tendo acabado, a nossa energia é a mesma de três dias atrás.
O Carnaval não é só festa, como costumam falar, mas um rito. Para mim, por exemplo, foi o batismo da maioridade.
Quarta-feira de Cinzas é quando notamos que o ano não começou, mas continuamos com a força que só quem brincou os três dias entende. É a certeza de que, no próximo ano, tudo se repetirá, mas você nunca sentirá as mesmas emoções que hoje.


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